<p>- Nakamura-<i>kun</i>?!</p><p>- Yukiko?! Você está bem? – perguntei e, por um breve momento, a raiva pela morte da mãe do pequeno Mitsuo foi substituída por sincera preocupação pela minha mulher e pelo bebê.</p><p>- Ah, <i><div class= "tooltip"> hai <span class= "tooltiptext"> sim </span></div></i>! – ela sorriu francamente – Eu acordei com sede. Não o vi na cama e fiquei preocupada. Tudo bem? Você está...</p><p>Ela interrompeu a frase no meio. Deixou a xícara sobre a mesinha, se levantou e veio na minha direção.</p><p>Não consegui responder logo. Larguei minha maleta no chão e fiquei ali, petrificado (como nunca), em pé na soleira da porta.</p><p>- Tada-<i>san</i>... Fizemos tudo o que pudemos... Você não pode imaginar... Estou tão...</p><p>Também não consegui terminar. Trincava os dentes de ódio e frustração. Meu rosto estava tenso, as feições contraídas. Eu estava ao mesmo tempo furioso e surpreso. Era difícil enfrentar a perda, a minha impotência. Era ainda mais difícil, porém, reconhecer o quanto aquilo tinha me afetado e como eu estava exteriorizando tudo o que sentia.</p><p>Yukiko ficou quieta por um segundo. Caminhou decidida e suavemente na minha direção, se aproximou e me abraçou forte. </p><p>- Akira... Aki, querido...</p><p>Arregalei os olhos. Senti seu corpo se aconchegando ao meu, seu coração batendo, sua respiração profunda e tranquila, seu perfume... percebi o suave movimento do bebê em sua barriga... Meus músculos relaxaram bruscamente. Era tanto calor e tanta ternura vindos daquele abraço!... Mais do que isso: vindos do meu nome, pronunciado por uma voz sonora, musical, doce, sussurrada como um canto. Era a primeira vez que Yukiko me chamava por meu nome, não pelo nome da família! Senti-me parte dela como nunca. Senti-a parte de mim como nunca até então, e como sempre seria a partir daquele momento.</p>\n<p>...</p>[[>> Continua| Capítulo 4.4]]\n\n[[<< Retorna à página anterior|Capítulo 4.3]]
<p>Sentados diante do nosso jardim de areia numa tarde de fim de semana, conversando com ela sobre o caso, descobri que o menino era aluno da escola infantil onde Yukiko lecionava. Não estava em sua turma, mas ela o conhecia e aos seus pais e avó. Disse-me que era uma criança simpática, um pouquinho levada, mas terna e obediente. Ao saber do histórico médico de Tada-<i>san</i>, refletiu um pouco e concluiu:</p><p>- Agora entendo tudo! Ele precisa muito chamar atenção, precisa de afeto redobrado para enfrentar o medo da doença de alguém tão importante como sua mãe. Vou fazer o possível para ajudá-lo.</p> <p>Sendo assim, sempre que tinha a chance, sabendo mais ou menos a frequência dos tratamentos de Tada-<i>san</i>, passava pelo hospital para visitá-la e dar um pouco de atenção ao menino, quando ele ia junto com o pai. Pareceu se apegar, de certa forma, ao pequeno Mitsuo-<i>kun</i>, [[passando ao menos meia hora com ele|brincando com Mitsuo]] durante essas sessões, conversando, fazendo <i><div class= "tooltip"> origami <span class= "tooltiptext"> arte tradicional japonesa de dobradura de papel </span></div></i>, jogando pequenos passatempos. Ao que parece, na escola, também vinha se aproximando dele.</p>\n[[>> Continua|Cap. 4.1.1]]\n\n[[<< Retorna à página anterior|4.\tNasce Aki-chan. A chave para uma mudança.]]
<p>...</p><p>Certa noite, exatamente um mês antes do nascimento de nossa menininha, eu estava terminando meu plantão. Tinha sido, até então, um período bem tranquilo. Mas era somente o olho do furacão!</p><p>Tada-<i>san</i> havia sido internada para uma série de exames. Dado seu estado de fraqueza, consideramos que seria mais proveitoso tê-la ali por um ou dois dias do que lhe pedir para ir e voltar seguidas vezes ao hospital. Um pouco antes das dez horas da noite, quando eu ia embora para casa, soou o alarme da enfermaria onde ela estava. Corremos para lá e constatamos que havia entrado em choque. Estava convulsionando fortemente, inconsciente, com os sinais vitais alterados. Seu estado era crítico e havia indícios de possível hemorragia cerebral.</p><p>Ela demandava uma cirurgia urgente. Como se tratava de uma emergência, não havia tempo para esperar que se completassem todos os exames solicitados. De posse dos resultados já disponíveis, a levamos para o centro cirúrgico. Lá confirmamos a hemorragia e tentamos detê-la.</p><p>Fizemos tudo o que era humanamente possível, mas, uma hora depois de iniciada a cirurgia, tivemos que aceitar sua morte. Ainda naquela noite, falamos com seu marido, que havia sido avisado pela administração do hospital e se encontrava na sala de espera. Junto estavam Mitsuo-<i>kun</i> e sua avó, mãe de Tada-<i>san</i>. Pude ver todo o horror e desespero da senhora, o pânico do pequeno e a dor contida e sufocada do marido. No entanto, nada mais podia ser feito.</p>\n<p>...</p>[[>> Continua|Capítulo 4.3]]\n\n[[<< Retorna à página anterior|Cap. 4.1.1]]
<p>...</p><p>Não precisamos tocar no assunto da morte de Tada-<i>san</i>. Tudo estava dito e entendido naquele longo e silencioso abraço e no eco do meu nome na sua voz. E não falamos nisso, explicitamente, por vários anos.</p><p>Mais tarde, olhando-o sob uma perspectiva objetiva, aquele acontecimento me permitiu um salto... <i><div class= "tooltip"> Iie <span class= "tooltiptext"> Não </span></div></i>!!! Um mergulho em minhas próprias emoções e sentimentos. Algo mudou radicalmente em mim a partir daquela noite. Nem tanto pela morte da jovem mulher, em si, nem pela minha raiva e frustração. Mas pelo abraço que me fez sentir vivo, frágil e, mesmo assim, amparado. Pude me abandonar, de fato e conscientemente, pela primeira vez, naquele calor amoroso, no abraço que me envolvia até a alma, no meu medo e na minha nova certeza de salvação. Eu podia começar a me entender, não como o eficiente e inteligente Nakamura-<i><div class= "tooltip">sensei <span class= "tooltiptext"> sufixo de tratamento, neste caso, indica doutor, médico </span></div></i>, mas como um homem que pode falhar, que pode angustiar-se, que não conhece o amanhã, que não tem todas as respostas. As muitas impressões que eu vinha coletando desde o momento em que Yukiko entrou pela porta de nossa propriedade e em nossas vidas, anos antes, começavam a se juntar, a fazer sentido.</p>\n[[>> Continua|Cap. 4.4.1]]\n\n[[Retorna à página anterior|Cap. 4.3.1]]
<b><h2>Caleidoscópio: fragmentos coloridos de vida</h2></b>
<p>- Será, então, que ele faria <i>kaachan</i> ficar boa?</p><p>- Bem, Mituso-<i>kun</i>... às vezes nossos desejos são bons, mas existem outros mais especiais e que nós nem imaginamos. Todos queremos que <i>okaasan</i> fique boa logo, mas não podemos ficar infelizes com sua doença, sabe?!</p><p>- Ela ficaria triste vendo a gente infeliz, <i>ne</i>?!?</p><p>- Isso também! Ela ama muito você e quer ver sempre seu lindo sorriso e sua alegria com a vida!</p><p>- <i>Hai</i>... – ele respondeu pensativo.</p><p>- E, sabe o que mais? O <i>tsuru</i> é, também, o símbolo do origami. Você gostaria de aprender a fazer um? Como ele é um símbolo de felicidade, você poderia dar o que fizesse de presente...</p><p>- <i><div class= "tooltip"> Sugoi <span class= "tooltiptext"> Genial! </span></div></i>!!! Vou fazer um bem bonito e dar para <i>kaachan</i>! Ela vai ver que eu sou muito feliz porque ela existe. E vai ficar feliz também com meu amor por ela!!!!</p><p>- Que lindo pensamento, Mitsuo-<i>kun</i>!!!! Vamos lá, então! Eu trouxe papel colorido e vou ensinar a você como fazer um <i>tsuru</i>. É só ir fazendo igual, certo?!</p><p>- <i>Hai</i>! – me respondeu animado.</p><p>Fomos para um espaço no hospital com umas mesinhas, próprios para a espera e adequados à presença de crianças. Ali nos sentamos e começamos nossa atividade. Vejam como foi...</p>\n\n\n<video width="512" height="288" controls>\n<source src="imagens/fazendo-origami-tsuru.mp4" type="video/mp4"> </video>\n\n[[<< Retoma a leitura do capítulo|Capítulo 4.1]]\n\n[[<< Retorna à página anterior|brincando com Mitsuo]]\n\n[[Ir para o Sumário|Sumário]]
\t\t<b><h2>Caleidoscópio: fragmentos coloridos de vida</h2></b>\n\t\t\t\t\t\t\t<i><font size=+1>Cristina Vergnano</font></i>\n\n\n <img src="imagens/capa-caleidoscopio.png" alt="Protagonistas diante de cenário da ponte <i>Rainbow</i> na baía de Tokyo e a imagem do caleidosópio.">\n\n\n<p>Esta história é minha pequena homenagem aos criadores japoneses de <i>manga</i> e <i>anime</i>, cuja arte atravessa fronteiras e delicia pessoas de todo o mundo.</p><p>Dedico, também, com carinho, o romance <i>Caleidoscópio</i> a duas amigas, Nícia e Chizu. Espero que eu tenha conseguido refletir respeitosamente um pouco de sua cultura e raízes, mesmo que com um saborzinho brasileiro.</p>\n\n[[Ir para "Nasce Akira. ..." |4.\tNasce Aki-chan. A chave para uma mudança.]]\n\n[[Notas importantes|Nota importante]]\n\n[[Ir para o Sumário|Sumário]]
/* Tooltip container */\n.tooltip {\n position: relative;\n display: inline-block;\n border-bottom: 2px dotted blue; /* If you want dots under the hoverable text */\n}\n\n/* Tooltip text */\n.tooltip .tooltiptext {\n visibility: hidden;\n width: 120px;\n background-color: #555;\n color: #fff;\n text-align: center;\n padding: 5px 0;\n border-radius: 6px;\n\n /* Position the tooltip text */\n position: absolute;\n z-index: 1;\n bottom: 125%;\n left: 50%;\n margin-left: -60px;\n\n /* Fade in tooltip */\n opacity: 0;\n transition: opacity 0.3s;\n}\n\n/* Tooltip arrow */\n.tooltip .tooltiptext::after {\n content: "";\n position: absolute;\n top: 100%;\n left: 50%;\n margin-left: -5px;\n border-width: 5px;\n border-style: solid;\n border-color: #555 transparent transparent transparent;\n}\n\n/* Show the tooltip text when you mouse over the tooltip container */\n.tooltip:hover .tooltiptext {\n visibility: visible;\n opacity: 1;\n}\n
<b><h2>Notas importantes</h2></b>\n<ul type="square">\n<li>Antes que você comece a leitura, gostaria de explicar que os nomes dos personagens do romance estão apresentados segundo a estrutura da língua japonesa. Ou seja: primeiro aparecem os sobrenomes, depois os nomes. Sendo assim, nossos protagonistas, por exemplo, são os jovens: Nakamura Akira e Hayashi Yukiko. Ele, Akira, é o filho mais velho da família Nakamura; ela, Yukiko, a filha mais velha da família Hayashi.<br>Esta opção foi feita para ajudar a criar o clima do drama, nos aproximando um pouquinho mais da cultura e da língua japonesas. O mesmo explica a presença de várias palavras, em especial formas de tratamento e saudações, em japonês ao longo do texto. A única ressalva, aqui, é que foi usado o nosso alfabeto para representar a estrutura fonética desses vocábulos, não os silabários ou ideogramas próprios desse idioma.</li><br>\n<li>A língua japonesa tem vogais que soam mais longas e isso faz diferença em palavras que se escrevam igual e cuja única distinção seja entre uma vogal normal e outra longa. Por exemplo, é o que observamos entre <i>“obaasan”</i> (avó) e <i>“obasan”</i> (tia). Quando transpomos os caracteres japoneses (os silabários <i>hiragana</i> ou <i>katakana</i>) para nosso alfabeto (<i>rōmaji</i>) há formas distintas de marcar essa diferença. Uma delas, talvez a mais simples, é repetir a vogal que se pronuncia de forma mais longa. Foi o que se viu no exemplo anterior, o de <i>“obaasan”</i>. <br>Acontece que, no caso das palavras com “o” longo, o caractere do silabário japonês que se acrescenta à sílaba com a vogal longa é o equivalente ao “u”. Por isso, é comum vermos outra forma de representação com "ou", por exemplo, como em <i>“arigatou”</i> (obrigado). O problema é que isso não deve ser pronunciado como um ditongo “ou”, mas apenas como “oo”.<br>Numa terceira e última forma de representação, até para evitar a tendência errada de pronunciar “o” longo como “ou”, podemos usar um sinal sobre o “o” chamado <i>macron</i> (um tracinho horizontal sobre a vogal e que indica alongamento de sua pronúncia). Esta foi a nossa opção para representar o “o” longo em nossa história. Por isso, quando virem uma palavra como <i>otōsan</i> (pai), leiam <i>“otoosan”</i>, certo?!</li>\n<li>As fotos, vídeos e imagens presentes nos <i>links</i> do romance <i>Caleidoscópio</i> fazem parte desta obra hipertextual e multissemiótica e são, em geral, de minha criação. As imagens de adolescentes, típicas de <i>anime</i>, usadas na composição do <i>folder</i> e da ilustração de abertura, foram adquiridas, com licença plena de uso, na Unity Asset Store e editadas por mim para compor as imagens finais. Agradeço a W. Leite pela elaboração e cessão do vídeo do caleidoscópio, no <i>link</i> do penúltimo capítulo.</li></ul>\n\n[[Ir para "Nasce Akira. ..." |4.\tNasce Aki-chan. A chave para uma mudança.]]\n\n[[Ir para o Sumário|Sumário]]
<p>Que fique claro que, desde que ela invadiu a minha vida, esse processo teve início. Houve outros momentos em que me vi submerso em minhas emoções. Ocasiões nas quais pude sentir a força que brotava do choque entre os diferentes sentimentos que me iam assolando e eram novos para mim. Nem sempre, no entanto, fui capaz de compreendê-los, de processá-los. Também admito que tive muitas idas e vindas nesse autodescobrimento. Então, considero que esse abraço foi a chave que abriu definitivamente a porta para mim mesmo.</p>\n\n[[Voltar ao início do Capítulo|4.\tNasce Aki-chan. A chave para uma mudança.]]\n\n[[<< Retorna à página anterior| Capítulo 4.4]]\n\n[[Ir para o Sumário|Sumário]]\n\n[[Voltar ao Início|Start]]
Uma visita veio de longe. Excitação, novidades e uma provocação.\n\nRevelações inconvenientes. Olhares estrangeiros podem, também, perceber muito.\n\nDois trimestres tumultuados. Entre rechaços, aproximações e estudo.\n\nAcidentes acontecem... Oportunidades de ser herói e heroína.\n\nFinalmente, a coragem para se declarar. Desilusão e uma porta aberta.\n\nSeparados por uma pequena diferença de idade. Alívio ou conflito?\n\nUm momento difícil. O congelamento de um sonho.\n\nAbrem-se portas. Retomam-se sonhos. \n\nMudam-se caminhos. Reinventam-se relações.\n\nEstar para sempre ao seu lado. O fio que levou ao fim do labirinto.\n\nPais de novo. Nasce Kazumi.\n\nNão se combatem as forças da natureza. Uma vida de amor ameaçada.\n\nNossas vidas são como desenhos em um caleidoscópio. A recuperação de Yukiko.\n\nEpílogo. Fecha-se o círculo.\n\nIntertextualidades em Caleidoscópio\n\n\n[[<<Retorna à página anterior do Sumário|Sumário]]\n\n[[<<Voltar ao Início|Start]]
<i><font size=+1>Cristina Vergnano</font></i>
<b><h2>Nasce Akira. A chave para uma mudança.</h2></b>\n\n<i><small> É possível estar ocultos dentro de nós mesmos. Uma faísca pode, contudo, <br> incendiar a parede que nos aparta de nossa essência e nos mostrar o <br> caminho da saída e do encontro do que estava perdido.</small></i>\n\n\n<p>Aconteceu um pouco antes do nascimento de Akemi... Eu ainda estava na residência e, no momento, atuava junto da equipe de cirurgia geral e neurologia. Tínhamos recebido no hospital, uma paciente, Tada Kaoru, para tratamento de câncer com complicações no sistema neurológico. Era uma mulher jovem, com menos de trinta anos, que tinha um filho de uns 5 anos. Ela estava em tratamento quimioterápico, a fim de reduzir o tumor no cérebro e facilitar a cirurgia. Tratava-se de um caso bastante delicado, mas estávamos confiantes. Devido às implicações neurológicas, ela estava sob os cuidados da equipe da qual eu fazia parte, por isso, quando ela vinha ao hospital para atendimento do setor de quimioterapia ou para consulta, eu participava.</p><p>Sempre comparecia ao hospital acompanhada de seu marido, Tada Nobu. Em várias ocasiões, veio também seu filho, Mitsuo-<i><div class= "tooltip">kun <span class= "tooltiptext"> sufixo de tratamento, menos formal do que -san, utilizado para meninos e entre jovens (pode referir-se a alguém "inferior" hierarquicamente a quem fala, de um adulto para uma criança, por exemplo) </span></div></i>, que se mantinha calado, com o olhar preocupado, aguardando na sala de espera. Numa dessas vezes, coincidiu de Yukiko vir se encontrar comigo, após uma consulta de acompanhamento da gravidez com sua ginecologista. Ela, então, viu o menino que lhe sorriu. Aproximou-se e começaram a conversar. A tensão do pequeno, que aguardava a mãe, se diluiu e diria que chegaram a passar um tempo agradável juntos. Eu mesmo, apesar do contato frequente com sua mãe e com ele, não conseguia desenvolver uma proximidade tão natural. Mantinha certa distância objetiva, que considerava necessária ao bom desempenho clínico que deveria ter no tratamento de Tada-<i><div class= "tooltip">san <span class= "tooltiptext"> sufixo de tratamento de certa formalidade, marcando respeito e consideração </span></div></i>. Ainda assim, secretamente, observei aquele encontro entre Yukiko e Mitsuo-<i>kun</i>, considerando-o um momento tocante, que mostrava a mulher maravilhosa que ela era. Dava-me, também, um ânimo renovado para enfrentar cada obstáculo no quadro daquela jovem mulher.</p>\n[[>> Continua|Capítulo 4.1]]\n
<p>Nesses encontros, apesar da tristeza e do medo, eu percebia nele um sorriso e uma força renovados. Assim era minha esposa! Ela, nos últimos anos, havia se tornado uma professora dedicada, que dava o máximo de si por seus alunos. A gravidez também parecia ter-lhe dado foco, centrado sua atenção, ajustado seu emocional. Eu a via mais segura, determinada e acertada em suas decisões do que nunca. Ela tinha esse poder: transformava as pessoas, lhes tocava a alma. Imagino que, finalmente, entendeu a sua vocação para o cuidado dos outros, a formação dos pequenos sob sua responsabilidade.</p><p>Nesse sentido, às vezes, creio mesmo que me sentia enciumado, embora orgulhoso. Isso porque sua relação comigo também estava amadurecida. A implicância dos tempos de colégio, substituída por uma paixão, em certa medida, dependente, nos primeiros anos, quando revelou o que sentia por mim, havia cedido espaço para um amor focado, que sabia dosar-se a cada situação. Eu podia sentir o mesmo calor e sinceridade do seu afeto, no entanto, ele agora era mais natural, menos tenso e infantil, e se dividia com outros olhares e afetos: para os demais e, principalmente, para a criança que crescia dentro dela. Ver os dois juntos, ela e o pequeno Mitsuo-<i>kun</i>, me dava a certeza de que seria uma mãe incrível. Também me despertava um desejo profundo de romper a barreira que ainda me impedia de tentar tocar o coração das pessoas à minha volta, daqueles a quem eu amava tanto.</p><p>...</p>\n[[>> Continua| Capítulo 4.2]]\n\n[[<< Retorna à página anterior|Capítulo 4.1]]
<p>...</p><p>Fazia muito que havia terminado o meu plantão e eu, simplesmente, não podia mover-me da sala dos médicos. Fiquei ali, sentado, corroído por uma raiva e frustração profundas que não conseguia extravasar. Eu não era o principal responsável pelo procedimento, pois minha residência ainda não havia terminado, mas era a primeira vez que perdia um paciente. Eu tinha feito, da minha parte, todo o possível, eu sei. Meu cérebro lógico repetia e repetia isso incessantemente. Algo em mim, contudo, se recusava a escutar, a entender... a aceitar. Relembrava o sofrimento da mãe e do filho de Tada-<i>san</i>, o qual eu não poderia jamais minimizar. Lembrei-me da angústia contida de seu marido e pensei em Yukiko, em mim, no desespero que sentiria se eu a perdesse...</p><p>Não sei por quanto tempo fiquei ali. Por fim, quase mecanicamente, me troquei e fui para casa. Ainda não havia clareado. A casa estava silenciosa. Mas, ao entrar, vi uma luz tênue na sala e uma silhueta no sofá, com uma xicara de chá na mão. O barulho da porta batendo fez com que Yukiko levantasse a cabeça e desfranzisse a sobrancelha, saindo do ar pensativo no qual se encontrava mergulhada.</p>\n[[>> Continua|Cap. 4.3.1]]\n\n[[<< Retorna à página anterior| Capítulo 4.2]]
<body>\n<table> <table border=1>\n<tr bgcolor=#FAF0E6>\n<td>\n\n<b><h2>Brincando com Mitsuo-<i>kun</i>: <i>tsuru</i>, o símbolo do origami e da felicidade</h2></b>\n<p>- <i><div class= "tooltip"> Ohayō <span class= "tooltiptext"> Bom dia </span></div></i>, Mitsuo-<i>kun</i>! <i><div class= "tooltip"> Okaasan <span class= "tooltiptext"> (sua) mãe </span></div></i> já começou o tratamento hoje?</p><p>- <i>Ohayō</i>, <i><div class= "tooltip"> sensei <span class= "tooltiptext"> professora </span></div></i>! <i><div class= "tooltip"> Hai <span class= "tooltiptext"> sim </span></div></i>! <i><div class= "tooltip"> Kaachan <span class= "tooltiptext"> mamãezinha </span></div></i> está lá dentro e <i><div class= "tooltip"> tōchan <span class= "tooltiptext"> paizinho </span></div></i> entrou com ela. Estou aqui com minha <i><div class= "tooltip"> baachan <span class= "tooltiptext"> vovozinha </span></div></i>.</p><p>- <i><div class= "tooltip"> Ohayō gozaimasu <span class= "tooltiptext"> Bom dia (um pouco mais formal) </span></div></i>, <i><div class= "tooltip"> obaasan <span class= "tooltiptext"> avó </span></div></i>.</p><p>- <i>Ohayō</i>, Nakamura <i>sensei</i>. Mitsuo é um bom menino e está me fazendo companhia enquanto esperamos. <i>Ne</i>, Mitsuo-<i>kun</i>?</p><p>- <i>Hai</i>!- confirmou acenando fortemente com a cabeça.</p><p>-Ah!...-voltei a puxar conversa com ele. Não fique com essa carinha tão triste! Sabe? Trouxe uma surpresa para você hoje!</p><p>- <i><div class= "tooltip"> Hontō <span class= "tooltiptext"> de verdade?! </span></div></i>?! O que é? – me perguntou o menino.</p><p>Percebi um brilho todo especial naqueles olhinhos que antes estavam tão tristonhos. É impressionante como as crianças, embora muito sensíveis aos dramas familiares, podem se abrir a uma novidade, se permitir sonhar e se maravilhar... Mesmo que seja por pouquinho tempo.</p><p>- <i>Hai</i>! – continuei. Você sabe o que é um <i><div class= "tooltip"> tsuru <span class= "tooltiptext"> garça </span></div></i>, não é?!</p><p>- Aquele pássaro grande e branco?</p><p>- Isso! Sabia que ele é uma ave sagrada aqui no Japão? E que a lenda conta que vive mil anos e pode realizar desejos?</p>\n</td>\n</tr>\n<tr>\n<td>\n[[>> Continua| brincando com Mitsuo 2]]\n</tr><tr>\n[[<< Retoma a leitura do capítulo|Capítulo 4.1]]\n</td>\n</tr>\n</table>\n</body>
<b><h2>SUMÁRIO</h2></b>\n\n\n[[Início|Start]]\n\n"Palavras da autora"\n\nEra uma vez... uma introdução. A narradora se intromete na história.\n\nDespertando de uma longa noite. Aqui começa (?) a história. \n\nCafé da manhã em família... E ausência.\n\n[[Nasce Akira. A chave para uma mudança.|4.\tNasce Aki-chan. A chave para uma mudança.]]\n\nLindo brilho da aurora. A pequena Kemi-<i>chan</i> vem ao mundo.\n\nMudança de vida é pouco! Yukiko introduz sua versão da história.\n\nDesafios e enfrentamentos. Início da odisseia escolar em Tokyo.\n\nQue garoto estranho!!!! Começa a nascer uma atração.\n\nPrimeiras impressões de Nakamura-<i>kun</i>. Ela é uma garota irritante!\n\nDifícil ignorar o que se insinua constantemente. Alguns incidentes que despertaram a mente de Nakamura-<i>kun</i> para Yukiko.\n\nNova mudança. O que já anda ruim pode ficar pior?\n\nNão é possível!!! Quando o destino nos prega a maior das peças...\n\nUm trimestre de tensão. Volta das férias de verão e a caminho da mudança.\n\nMudança e enfrentamento. Começa a aproximação de Akira e Yukiko.\n\n“O prego que se sobressai é o primeiro ser martelado”. Desvelando um pouco do misterioso Akira.\n\nEfeitos da mudança. Algo realmente está começando a se alterar.\n\n[[>> Continua|Sumário b]]\n