Opinião

Brinquedo de criança, brinquedo de adulto…

Por: Cristina Vergnano

Em janeiro de 2019, há quase um ano atrás, viajei para São Paulo com meu marido e minha sobrinha de, então, 5 anos (quase 6). Entre as várias atividades que vivenciamos na capital paulista, esteve uma visita ao zoológico, no qual havia um espaço “jurássico” com representações 3D de dinossauros, em tamanho natural, com direito a movimento e sons. Muito legal!!!

Após a visita, compramos na lojinha do zoo umas caixinhas com ovos de dinossauro para chocar. Levei um para cada um de meus sobrinhos (a que estava conosco e os dois que haviam ficado no Rio) e, claro, um para mim também. Achei super curioso, uma brincadeira interessante, colocar o tal ovinho na água e vê-lo chocar uma miniatura de dinossauro. Melhor ainda, não sabíamos qual bicho apareceria (suspense!!!).

Óbvio que meus sobrinhos logo puseram para chocar os seus. Foi mesmo um sacrifício convencer a que estava conosco a esperar a volta à casa. Afinal, seus pais gostariam de ver o fenômeno. Havia também um aspecto prático. Todo o processo requer cerca de 48 horas, entre chocar o ovo e deixar a matéria esponjosa absorver água suficiente para que o animal chegue ao seu tamanho máximo. Não daria tempo para fazer isso no hotel antes do regresso. Mas… e eu?!?

Como desejava acompanhar em detalhes o processo todo, nunca me animava a começar a aventura. Deixei minha caixinha à mostra, na estante de livros ao lado do meu computador. E toda a vez que algum dos sobrinhos vinha nos visitar, olhava a caixa e comentava: “você ainda não abriu o seu?!?”, entre surpresos e questionadores. E eu respondia com um sorrisinho: “pois é, né?!…”, acrescentando que ainda não tinha tido tempo para acompanhar detalhadamente toda a transformação.

Os adultos somos assim… Nossa curiosidade pelo tipo de dinossauro que apareceria, ou o sentimento de maravilha que seria ver o bichinho saindo da casca não são tão fortes quanto nossa veia analítica (ao menos no meu caso). A cientista em mim queria saber do processo!

Mas neste dia 05 de janeiro de 2020, dei com os olhos na tal caixinha calmamente acomodada na minha estante. Pensei comigo: “é agora”! Afinal, ano novo, novas experiências, não é?! E eu estava com tempo… Então, pus mãos à obra.

Peguei uma vasilha de vidro pequena, tipo saladeira, coloquei água filtrada e acomodei o ovinho. Mas logo me dei conta de que ele não ficaria todo submerso. Então, mudei-o para uma jarra de suco. Percebi, imediatamente, as bolhinhas de ar que saíam por um furinho na parte superior (em baixo há dois furos maiores por onde, suponho, entra a maior quantidade de água). Após a compensação (ou o “encharcamento” do interior do ovo) o objeto acomodou-se no fundo da jarra e lá ficou, em pezinho!!!! A partir daquele momento, era esperar as ao menos 12 horas para que o ovo chocasse e até 48 horas para o processo completo.

“Ok!”, dirão vocês, “e daí?!” “Isso lá vale um artigo de opinião num blog?”… Aí é que está! Não vibrei como uma criança, olhando a cada minuto para ver se havia mudança. Nada disso!!!! Montei um aparato de experimento científico…

Comecei por tirar fotos da caixa e do ovo seco, antes de mergulhá-lo, em mais de uma posição. Depois, comecei a fotografar as etapas e a anotar num documento do Word, com direito às fotos, a cada hora aproximadamente, as alterações. Para isso, inseri (só no primeiro dia) alarmas no meu celular para me lembrar dos momentos de verificar o ovinho e sua evolução. Chique, né?!?

A isso eu chamo “brinquedo de adulto”. A racionalidade e o rigor acadêmico contaminam a ingenuidade da magia da transformação. Sei que o bichinho é de alguma matéria plástica porosa, que incha com a água. Que a casca foi preparada para se romper em determinados pontos, sob a pressão do corpo do animal expandindo em seu interior, e deixá-lo sair. A maravilha não está, portanto, no mistério, na inexplicável metamorfose, mas na observação do fenômeno. A brincadeira de cientista é que se torna gostosa, ocupa o tempo ocioso, distrai.

Nesse particular, lamentei a hora em que comecei a brincar: por volta das 13:30h do dia 5. Isso significava que as 12 horas mínimas para o início da abertura do ovo aconteceriam no início da madrugada do dia 6 e que, se o dinossaurinho ainda não tivesse rompido a casca, eu perderia a foto desse evento que ocorreria quando eu estivesse dormindo. Grande falta de previsão a minha!!!! Bem… fica por conta da impulsividade infantil que me levou a começar o processo!

De fato, à 01:37h da madrugada do dia 6 de janeiro, a casca começou a romper lentamente. Uma hora mais tarde, a abertura estava um pouco maior e deixava antever algo alaranjado em seu interior. Às 03:10h da madrugada, porque realmente eu precisava dormir, tomei uma decisão arrojada, controlando o traço de ansiedade que estava surgindo em mim. Retirei o ovo da água, coloquei-o numa vasilha seca, esperando que, com isso, retardasse o processo (que já havia avançado um pouquinho mais). Talvez isso garantisse a foto do evento da eclosão do ovo…

Na manhã seguinte (ainda dia 6, claro), lá pelas 10:26h, descobri que o bichinho havia rompido a casca, mesmo fora da água. Paciência! Tive que tirar a foto da cabecinha já metade para fora do ovo e retorná-lo para a jarra a fim de completar o processo.

Às 17:32h confirmei que se tratava mesmo de um triceratops, com a carinha laranja e o papo amarelo. Podia vê-lo até o pescoço em meio à água algo turva e esbranquiçada com a tinta da casca. Continuei acompanhando o processo, tirando fotos e fazendo um registro escrito das alterações observadas. O bichinho pôde ser retirado do ovo, cuja parte superior se partiu toda, no segundo dia do experimento, portanto, dia 7 de janeiro, por volta das 20:30h. A partir daí, era só esperar que absorvesse bastante água para alcançar seu tamanho máximo.

Com certeza, minhas reações e impressões não foram as mesmas dos meus três sobrinhos (então, entre 5 e 8 anos). Não me maravilhei… mas, sim, me empolguei e me deixei levar pelo brinquedo. No final do dia, creio que é isso o que vale, não é?! Se tiverem a chance, experimentem (isto ou qualquer outro jogo infantil). Refresca a mente e envolve a gente por inteiro. Vão ver que vale a pena!

(O brinquedo aqui citado, cujas fotos de dinossauro vocês podem ver neste artigo, é o “Dino choca ovo”, da DTC.)

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