Eu só queria o purê Publicado em 11/03/2022 Por Cristina Vergnano Por: Ale Ramos Respiro fundo e me pergunto “onde foi que eu errei?”. De novo. Toda hora do jantar é essa confusão. Ou não. Ou deixo que assistam em seus eletrônicos e parecemos estranhos zumbis mastigadores de vento, ou peço que sentem à mesa sem os aparelhos para começarem instantaneamente com as brigas e provocações. Não há meio termo, não há o tão sonhado diálogo respeitoso (mal) aprendido na terapia, desenvolvido nos atendimentos em família e reforçado nas rodas de comunicação não-violenta. Não. O que há é um menino cabeludo, lindo, rindo com a boca aberta, sua comida semi triturada alçando voo livre em grupos de fugas desesperadas, enquanto a garota furiosa ameaça a soberba do irmão tendo um garfo como espada e insultos como canhões. Miro o purê de batata, que ainda não posso comer por falta de pontos, excesso de peso e mais algumas orientações muito bem remuneradas do meu nutricionista. Engulo em seco, na tentativa evitar seu cheiro e desentalar a comida – ou será a raiva? – da garganta, então olho seriamente para ambos e repouso lentamente os talheres na mesa. Respiro uma, duas, três vezes. Começo a abrir a boca, mas a fecho instantaneamente. Com os cotovelos na toalha, aperto os olhos com as pontas dos dedos em sinal de prece. O que vou falar que já não falei? Olho para o teto. Alguém aí para me dar uma luz? Ninguém??? Já expressei meus sentimentos, já expliquei minha necessidade, já fiz combinados…. Porra, até já deixei de castigo e, no auge da sandice, soltei-lhes tapas desgovernados que sobraram até para a gata. E é nesse exato momento que meu olhar a captura, comendo tranquilamente sua refeição, no móvel à frente da nossa mesa. Linda, plena e alheia. Como pode não se incomodar com esse barulho, Santo Cristo? Baixo a cabeça, pego o copo e bebo a água rezando para que se transmutasse em vinho, enquanto continuam se acusando e se provocando, beliscando, reclamando… Mais um bocado, e o prazer que a gata emana é o que eu queria sentir ao provar desse pedaço de bife em meu prato. O mesmo que nem reparei já ter comido a metade. Certa está ela. Certíssima. Então, volto a olhar entre meu prato e a mesa, perguntando-me o que já havia comido, se contava ou não para a bendita dieta. Quer saber? Que se foda o nutricionista, o pediatra, a mãe blogueira de seis com rotina perfeita e até a pedagoga. Pego um filé, uma colher farta de purê e todas as cores da salada que sequer havia notado que tinha. Faço um prato lindo de se ver e sigo o exemplo da plenitude. Ligo uma música da nova versão da Sandy (sem o Júnior), fecho meus olhos e saboreio. Cada. Deliciosa. Garfada. Ao final, levanto e coloco meu prato e talheres na lava-louça, fazendo uma nota mental para descobrir quem inventou esse santo aparelho, certeza que foi uma mulher. Mordo a ponta da língua e sorrio satisfeita para minha ideia. Encontrei. Abro a garrafa do malbec reservado para ocasiões especiais enchendo uma taça generosa e subo as escadas. Mereço e me darei um banho relaxante com direito ao creme com notas de chantily e não sei mais o quê da Amazônia. Ao chegar no topo da escada é que percebo a casa envolta em silêncio. Quem diria…. Visualizações: 459 Compartilhe! Traçando entre nós contos gastronômicos
Conto – Companhia Publicado em 08/06/202214/09/2022 Por: Ana Paula Bellot Chovia forte. Ele havia esquecido o guarda chuva. Correu para o metrô com a pasta preta em cima da cabeça. Era uma prática comum: todos tentavam proteger o rosto dos pingos. Já no meio da escada e embaixo da cobertura, reparou em seus sapatos e viu… Compartilhe! Leia mais
Profundeza azul Publicado em 03/11/202104/11/2021 Por: Cristina Vergnano Acordei com um arrepio. A cama estava vazia. Uma fria brisa marítima entrava pela janela, sacudindo a cortina de chita e trazendo cheiro de sal. Enrolei-me no cobertor e fui até a porta. Divisei, na luz difusa do amanhecer, a figura dela. Lá estava, de novo, sozinha,… Compartilhe! Leia mais
O macarrão de Isabel Publicado em 05/03/2022 Por: Rita Rodrioli Numa escola ninguém usa faca para cortar o macarrão porque, simplesmente, não se pode levar faca e outros objetos cortantes e perigosos para a escola. Às vezes, até os garfos são condenados e acabam ficando fora do ambiente escolar. Tadinhos… ou não! Mas a verdade é que,… Compartilhe! Leia mais
Cenário muito bem desenhado, primeiro me vi envolta na confusão, depois senti o cheiro do bife, rejeitei o purê (prefiro batatas fritas) e devorei a salada. E depois o banho quente em uma nuvem de perfume… Acho que terminei o conto alguns quilos mais leve… Adorei! Acesse para responder
Este conto, Giselle, foi escrito pela Ale, de acordo com a proposta do Rodrigo desenvolvida nas reuniões de janeiro e fevereiro deste ano. Foi uma atividade muito legal. Nossa ideia é tentar compor um livro de crônicas e contos sobre comida, já que houve tantas produções interessantes. Quem sabe e, em 2023, conseguimos colocar o projeto em andamento, né? Ofereci este espaço para que os membros do grupo pudessem publicar seus textos e, assim, obter comentários dos colegas, a fim de aperfeiçoá-los. Nem sempre os eles aparecem, mas é sempre bom quando vêm! Obrigada. Sinta-se à vontade para testar as sugestões de criação presentes nos vídeos e compartilhar com a gente. Bjs. Acesse para responder