O lado positivo da mediocridade Publicado em 30/09/201921/09/2019 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano Se pensarmos objetivamente, poderemos concluir que, ao longo dos tempos, acabamos por ser injustos com o termo “mediocridade” e com a condição do medíocre. Se procurarmos no dicionário (recorri ao bom e velho Aurélio), a mediocridade é a “qualidade de medíocre” em sua primeira acepção. E “medíocre” quer dizer, antes de tudo, “mediano”, ou ainda “sem relevo, comum, ordinário, vulgar, mediano”. Claro que “ordinário” e “vulgar” também estão carregados de valor negativo, mas, em última análise, significam, simplesmente, o não-destaque: nem para mais, nem para menos. E não deveríamos pressupor que essa falta de destaque seria a priori algo ruim. Pensemos por uns instantes… Numa população mundial de mais de 7 bilhões de pessoas (quase 8!!!), em 2019, cabe grande diversidade. As sociedades humanas são complexas e abarcam um sem-número de atividades, modos de agir, crenças, costumes, posicionamentos políticos e econômicos, diversidade étnica, orientações sexuais. De qualquer forma, o ditado “muito cacique para pouco índio” já nos alerta que, para a sabedoria popular, está claro que nem todo o mundo pode mandar. Se estendermos o sentido, poderíamos concluir que não é possível que todos brilhemos, ou que se brilhe sempre. Imaginemos o que seria termos mais de 7 bilhões de gênios, seja lá em que campo do saber ou da atividade humana!!!! No entanto, não quero, com essas afirmações, aproveitar-me e reforçar a máxima de que alguns nascem para mandar e outros para, passivamente, obedecer. Nem que há uns poucos escolhidos que se destacarão, ganharão todas as glórias e reconhecimento, enquanto à enorme massa só cabe recolher-se à sua insignificância. Todo o contrário!!! Na verdade, comecei a pensar neste tema para reflexão a partir de mim mesma. Foi quando estava conversando com umas colegas de natação sobre envelhecer. Muito se fala sobre isso hoje em dia. O famoso mote: “feliz idade” ao mesmo tempo que impulsiona a muitos para a autoestima na terceira idade, aborrece outros quantos, que o sentem como deboche. Em nossa conversa, as opiniões estavam divididas. Uma colega, claramente, acha envelhecer uma droga (não em termos tão gentis, diga-se de passagem); que perdeu muito do que já havia tido. Eu, da minha parte, concluí que não me sinto mal a respeito. Claro que não gosto de sentir dores de coluna, mas constato que hoje realizo coisas que antes nem pensava em fazer. E as que abandonei, nem por isso me deixam nostálgica ou revoltada. Voltei para casa com aquilo martelando na minha cabeça. Hoje, decidida a escrever este artigo sobre o assunto, descobri uma citação na internet, atribuída ao filósofo português Agostinho Silva (infelizmente não consegui confirmar a autoria 100%…) que traduz minha sensação a respeito. Vejam que surpreendente: “Toda a vida bem vivida, harmoniosamente vivida, vivida sem faltas, sem manchas, com felicidade, com serenidade, é uma vida medíocre. Tudo o que passe do medíocre tem em si o excesso e o erro.” O fragmento, supostamente, é do livro Sete cartas a um jovem filósofo. Está disponível no site http://www.citador.pt/frases/citacoes/s/sete-cartas-a-um-jovem-filosofo-agostinho-da-silva, que consultei agorinha há pouco. Ele nos leva por um caminho inusitado: o do elogio à mediocridade… O da associação desse termo tão depreciado com o que há de melhor: harmonia, felicidade, serenidade, uma vida bem vivida. Aliás, algo que todos desejamos, certo?! De fato, medíocre está relacionado a meio, metade, equilíbrio. Como diz o filósofo (se é que a frase é dele mesmo), o que sai desse contexto mediano é excesso. O sonho de brilhar e destacar-se é tentador. Ainda mais numa sociedade como a nossa, que enaltece os ídolos e prega a meritocracia (nem sempre tomando-a segundo o mérito do esforço positivo). Mas isso significa sair dessa faixa da normalidade, do equilíbrio cotidiano. Suponho que tal coisa não ocorra sem cobrar certo preço. Daí surgem o estresse, a competição desenfreada, as vaidades, o orgulho desmedido, a insatisfação crônica, a depressão e, ao menos simbolicamente, um tipo de morte. Refletindo sobre minha conformada atitude diante do envelhecimento, sobre o sentimento de antecipação maravilhada ante as descobertas que se descortinam (ou podem descortinar-se) diante de mim, fiquei abismada. E questionei-me por que não me aborreciam as perdas da juventude deixada para trás… Não tenho a pretensão de achar que vivi uma vida medíocre no sentido filosófico e delicioso da citação de Agostinho Silva. Mas cheguei à conclusão de que ela foi e tem sido medíocre no sentido de que eu jamais brilhei verdadeiramente. Posso até considerar que, em alguns campos, destaquei-me um pouco da média, mas nada que entrasse para os anais da fama. Por isso, não sinto que perdi nenhuma coisa tão perfeita e maravilhosa. Ao contrário, sinto que vivi agradavelmente o que era bom em cada idade e agora, espero ansiosa pelas surpresas que a tão alardeada terceira idade pode ainda me proporcionar. Enfim, graças a ser medíocre, passeei por planícies sem horizonte e que ainda se estendem diante de mim como promessas. Visualizações: 774 Compartilhe! Opinião
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