Transitoriedade, efemeridade, maravilha…

Por: Cristina Vergnano

No verão, costumo ver florescer em algumas casas aqui no meu entorno, uma planta que conheço como “coroa imperial”. Vi na internet que também recebe o nome de “flor estrela de Natal”. E faz todo o sentido, porque ela desabrocha lindamente nessa época de dezembro a janeiro.

Trata-se de uma planta que brota de batatas. Surgem primeiro as folhas (que duram mais tempo), verdes, alongadas, apontando para o alto. Em meio a elas, surge uma haste cilíndrica de certa grossura, de onde brota só uma flor por pé (quando acontece de nascer alguma). E, simplesmente, chega um momento em que tudo desaparece. Ou seja, morrem as flores, com vida bem curta, depois as folhas e só vemos no vaso a terra aparentemente vazia. Mas a vida continua ali, oculta, latente, nas batatas enterradas, apenas em espera.

Tenho umas num pequeno vaso em minha janela, mas, neste verão, mal e mal vi se abrir uma única coroa, bem minguadinha… Uma pena! Mas, num prédio ao lado, num vaso grande de concreto, várias floresceram desde dezembro de 2019 e ainda continuam a florescer neste início de 2020, sucedendo-se ou aparecendo em conjunto.

Olhar essas flores, tão vistosas, de um vermelho vivo em perfeita harmonia com o verde das folhas, sempre foi para mim um belo espetáculo. Dá prazer vê-las. Faz parte da maravilha do viver e, mesmo com o incômodo do calor da estação, esses momentos de encanto vital preenchem, alegram… e fazem pensar.

Desculpe(m) se vou voltar a bater numa mesma tecla, um tema que tem sido recorrente em algumas das minhas reflexões transformadas em artigos… Mas é que não dá para ignorar o ciclo da vida, alternando-se em nascimento, crescimento, apogeu, definhamento e morte. E tudo é tão rápido!!!

Num dia, passei e vi o vaso do vizinho repleto de redondas bolas de delicadas hastes vermelhas. Eram tão lindas e cheias de vigor… Alguns dias depois, a maioria daquelas esferas estava murcha, num tom desbotado e escurecido. Todo o esplendor havia sido substituído pelo declínio. E, no entanto, havia ainda um tênue sinal de vitalidade, pois em várias das hastes, se percebiam, insinuantes, bolinhas (sementes, ovário fecundado, talvez?!?), prenunciando outras vidas futuras.

Um tempo após esses dias, voltei a passar por ali e observar que novas coroas floresciam, tão alegres e vibrantes quanto as anteriores. Compartilhavam o mesmo espaço. Vida e morte lado a lado, compondo um único quadro.

Então, estava claro que os estados são transitórios, alternam-se, coexistem, formando o mosaico da existência. São também efêmeros. Num piscar de olhos, tudo muda, já não é como era, como foi. Deixam-nos, contudo, rastros de si e promessas de amanhã.

A vida, em sua transitoriedade e efemeridade, é dinâmica. Nesse sentido, poderíamos conjecturar que o estático, o imobilismo é um tipo de morte. Ainda assim, se considerarmos que morrer e viver são eventos complementares, que nada nasce sem antes passar por um tipo de morte (estão aí as sementes que não nos deixam mentir) e que morrer é mudar de estado, então a morte também é dinâmica e faz parte dessa roda. Apenas não conhecemos os estados subsequentes que lhe são peculiares.

Somos um com o universo. Ou, pelo menos, deveríamos sê-lo. Cada suspiro, cada olhar, cada sentido nos aproxima (ou deveria aproximar) do todo do qual fazemos parte. Estamos todos em trajetória, dinâmica e contínua. Transitoriedade e efemeridade fazem parte do que vivemos, porque são parte do nosso mundo e do jeito como as coisas se arranjam. Por isso é tão importante buscarmos harmonia e comunhão. Por isso a máxima “não faça ao outro o que não deseja para si” deveria ser um mantra vital, repetido à saciedade e incorporado a cada consciência, a cada prática cotidiana.

Nossa existência é apenas passagem e é muito breve. Mas acredito que continua, continua e continua… Só não sabemos como, nem para onde, ou quando. De qualquer maneira, ao ser finita em sua infinitude, mudança e continuidade, é maravilhosa, desde que encontremos e incorporemos esse segredo da afinidade com o todo.

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