Reminiscências

Por: Cristina Vergnano

“Ai, no meu tempo…” Quem, com mais de 40 anos, nunca se pegou dizendo essa frase? Tal saudosismo não costuma corresponder de fato à realidade, mas ser uma leitura. A questão, eu diria, é que as reminiscências tendem a enviesar nossa perspectiva sobre o mundo, os fatos as pessoas e nós mesmos; viés esse ampliado na mesma proporção com que avança nossa idade.

Pensando na metáfora da montanha (já batida, eu sei), costumamos associar a primeira etapa de vida a uma franca subida, um crescimento. No auge de nossa caminhada, alcançamos um platô, maior ou menor segundo a natureza de cada um e as circunstâncias. É quando muitos se percebem no topo da beleza, das capacidades intelectuais e físicas, confiantes e potentes. Chega, porém, como em tudo, a hora da descida. Isso não é necessariamente ruim, dada a experiência acumulada e o quanto podemos dela desfrutar. Arrisco dizer, contudo, que os olhares se voltam, nesse momento, com certa frequência para as etapas anteriores da jornada e suspiram. Este é o terreno fértil para lembranças e o valor positivo a elas atribuído, apoiado na saudade.

Bat-beg com bolas amarelas de acrílico, cordão de nylon e argola de metal.

Tomemos, por exemplo, o caso do bat-beg, aquelas duas bolas ligadas por um fio grosso de nylon. Quem, na minha (pré-)adolescência, lá nos anos 1970, não queria um? E os de acrílico, pesados, brilhosos e transparentes, eram os mais cobiçados. Eu tinha um amarelo. Aliás, bem apropriado, considerando o fato de amarelo e roxo serem cores complementares. Afinal, os hematomas no meu braço eram frequentes. Mas eu ligava? Claro que não!

Olho a foto do tal brinquedo e me lembro, com um sorriso discreto, o legal que era, como desejávamos executar os movimentos mais complexos e continuados com ele e, por fim, penso que aqueles eram tempos ingênuos. Acidentes, machucados? Faziam parte do show!

Hoje, 1º de outubro, num programa de tevê enfocando o Dia Internacional do Idoso, Carlinhos de Jesus, dançarino e coreógrafo carioca, comentou sobre a expressão com a qual iniciei a crônica, que para ele não procede. Afinal, enquanto estiver por aqui, diz, o seu tempo será cada tempo vivido. Ou seja, não ficamos perdidos em algum lugar longínquo e pretérito à medida em que envelhecemos, a não ser que o desejemos. Reinventar-nos está no âmago da afirmação do artista.

O que quero enfatizar é o caráter quase mítico dessas recordações saudosistas. São cultuadas como tesouros de épocas mais bonitas e agradáveis e nos ancoram num momento que já passou. No entanto, se olharmos com lupa, teremos de admitir tratar-se de uma ilusão. Qualquer passado poderá ser o melhor dos tempos.  E qual seria o momento histórico dessa utopia? Dependerá sempre do ano de nascimento do observador e de quando ele chegará à etapa de descida da tal montanha da vida. A questão é: até que ponto desejamos nos abandonar nesse não-lugar perdido no tempo?

Compartilhe!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *