Profundeza azul Publicado em 03/11/202104/11/2021 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano Acordei com um arrepio. A cama estava vazia. Uma fria brisa marítima entrava pela janela, sacudindo a cortina de chita e trazendo cheiro de sal. Enrolei-me no cobertor e fui até a porta. Divisei, na luz difusa do amanhecer, a figura dela. Lá estava, de novo, sozinha, vendo o dia surgir. Isso acontecia há algum tempo. Pensava comigo sobre o que passaria pela sua cabeça. Sentiria uma dor profunda, imagino. Eu podia perceber no seu olhar cada dia mais apagado e no seu crescente silêncio. Sacudi os ombros e voltei para dentro, a fim de preparar a tapioca para o café. Ela entrou. Dei bom dia, mas só recebi um breve aceno. Ela sacudiu a areia dos pés, colocou o chinelo e passou o café ralo. Comemos sem conversar nada. Depois, indo lavar a louça, disse: — Terminando aqui, vou pegar o cesto, buscar uns peixes com os pescadores que chegam daqui a pouco e ir vender no mercado. E, você, conserte aquela rede! O Joca vai precisar dela quando chegar da pescaria. Corei. — Mas, Camila, faz um mês e nem sinal dele. Você não acha melhor… — Já disse pra você: não admito que fale assim. É comum demorar no mar quando a pesca é boa. Ele foi mais longe. Eu sinto. Qualquer hora dessas… — Isso não faz sentido, mana! Ninguém sabe nada dele. Nunca mais o viram. — Digo e repito: a vida segue e temos trabalho. Fale menos e faça mais! Baixei a cabeça. Não sem antes perceber como Camila tremia. Eu tinha certeza de que ela sabia a verdade. Só não podia admitir. Perda de amor dói fundo. Deixei os pratos e canecas sobre a tábua, acabando de secar, e fui pegar a rede, linha e agulha. Eu a vi agarrando o samburá debaixo do braço e murmurando ao cruzar a porta rumo à praia: — Ele volta. Vai voltar. Tem de voltar! ________________________________________________________________________________________________________ Este miniconto foi escrito a partir da atividade criativa do encontro de 27/10/2021 do Grupo Traçando. Os elementos de inspiração foram o segundo movimento do Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo, e a litografia “Ventos de primavera” (1985), de Faya Ostrower. Visualizações: 348 Compartilhe! Traçando entre nós dormarmelancoliapescasolidão
A comunhão no pecado Publicado em 05/03/2022 Por: Osvaldo Otero O conto do Osvaldo foi enviado em formato .pdf, portanto, não foi possível copiá-lo para o post. Ainda assim, pode ser lido e comentado pelo grupo pelo acesso ao arquivo compartilhado pelo autor. Neste link está o conto completo. Visualizações: 487 Compartilhe! Leia mais
EXPECTATIVA Publicado em 05/03/202205/03/2022 Por: Ana Paula “Casquinha! Que delícia! Posso lamber?” “Pode.” “Argh! Muito ruim! É milho verde.” “Quando eu perguntei se você estava com fome, você disse que não. Comprei só para mim, oras.” “Você me trás aqui nesse fim de mundo, me faz assistir um show horrível daquela banda do seu… Compartilhe! Leia mais
Bolo da vida Publicado em 07/11/202107/11/2021 Ingredientes: 01 pitada de tristeza; 02 colheres de sopa de paz ½ xícara de reflexão; 10 gotas de ânimo; ½ colher de chá de medo Em um refratário largo, junte a pitada de tristeza com meia xícara de reflexão e deixe descansar por algum tempo. Aos poucos, acrescente lentamente as… Compartilhe! Leia mais