Uma questão de tempo?

Por: Cristina Vergnano

Na semana passada, meu marido me passou o link de um vídeo do YouTube sobre o Blinkist. Na hora, dei apenas uma olhada muito rápida, decidida a assisti-lo mais tarde. O resultado é este artigo.

O que exatamente é o Blinkist? Trata-se de um aplicativo de acesso a resumos (escritos e/ou em áudio) de livros de não-ficção, em alemão e inglês. Disponibiliza textos breves, organizados por assuntos, cuja proposta é agilizar o acesso à informação e a aprendizagem, em especial para profissionais. Possui uma alternativa gratuita, embora limitada, e planos pagos.

Para falantes de português, há um equivalente: o 12min. Este serviço oferece também o acesso a ampla gama de resumos de livros de não-ficção, os microbooks, por meio de assinatura anual. Promete textos de qualidade, legíveis em doze minutos no máximo.

Ambos os exemplos acima propõem favorecer o aprendizado com a menor perda de tempo. Ou, em outras palavras, que cada usuário aproveite sua breve disponibilidade para um leque de leituras de formação e aperfeiçoamento.

Há muitos anos, lendo sobre o contexto da escrita e compreensão leitora, encontrei que, na Idade Média, as pessoas tinham um problema de espaço, enquanto, na atualidade, sofremos uma carência de tempo. Mas, o que isso significa? Antes da produção em massa de papel e da invenção da imprensa, os textos eram escritos e copiados à mão, primeiro em rolos, depois em códices (formato de folhas coladas ou costuradas em cadernos), de papiro ou pergaminho (pele de animais). Portanto, mesmo a vida dos copistas tendo um ritmo mais lento, eles não possuíam um vasto material no qual escrever. Livros eram mais raros.

A imprensa e a produção de papel forneceram a matéria sobre a qual os escritos podiam ser reproduzidos e distribuídos em quantidade. A industrialização e modernização das sociedades, contudo, trouxe outra dificuldade: a falta de tempo livre. Se hoje temos à nossa disposição cada vez mais suportes de leitura e escrita (o boom informático expandiu as possibilidades), estamos sempre tão sujeitos a demandas urgentes, que carecemos de muitos momentos para a leitura profunda e reflexiva.

Neste contexto, somos tentados a considerar tais aplicativos de resumos como uma solução quase mágica. Afinal, nos oferecem acesso às sínteses de vastos conteúdos publicados, de forma objetiva e pontual, economizando nossos preciosos minutos. A promessa é ler mais em menor tempo, incrementando o conhecimento e formação. Será?

Pensemos. O que é um resumo? Em última análise, o produto da leitura de alguém. Consideremos que cada atividade leitora funciona como uma atualização de um texto. A despeito de, dependendo do gênero de texto, por exemplo, haver uma limitação para a quantidade de interpretações possíveis de um mesmo escrito, os sentidos construídos não são únicos. Sempre haverá um aspecto pontuado de forma particular por alguém, enquanto outro o ignora. Dependendo do texto, as percepções podem ser bastante diferenciadas. Talvez por isso, esses apps enfoquem textos não-ficcionais, pois, na escrita técnica, há menor variação e espaço à interpretação pessoal. Ainda nesses casos, no entanto, o caminho inequívoco nem sempre está garantido.

Outra questão é que, apesar de a leitura ter grande importância na conformação do cérebro e no aprendizado, segundo Maryanne Wolf, ela precisa ser profunda para fazer diferença positiva. Não basta ser breve e fragmentada.

Devemos, também, nos perguntar até que ponto ler o resumo elaborado por outra pessoa favorecerá significativamente a construção de nosso próprio conhecimento. É verdade que, ao lê-lo, aspectos significativos para nós podem ser incorporados à nossa bagagem. Todavia, ao não manusearmos o texto completo, não o explorarmos, hierarquizarmos, selecionarmos o considerado relevante e tirarmos nossas próprias conclusões, o conhecimento se apoiará apenas na visão do outro, nos fragmentos que este considerou válidos. O resultado será uma perspectiva enviesada e parcial de um todo o qual desconhecemos. O aprendizado nascido daí pode acabar sendo menos produtivo e duradouro.

Isso significa que estou descartando definitivamente a utilidade de tais aplicativos? Não de todo. A leitura é vital para a aprendizagem em um mundo tão complexo, com tantos saberes novos em constante mutação. O volume do que se produz é tanto, que seria impossível acessar tudo disponível sobre determinado tema. Menos ainda, se considerarmos seus desdobramentos. Resumos preexistentes, portanto, podem ser um ponto de partida bastante útil. Ajudam a identificar, de forma ágil, o que existe sobre um assunto, inclusive quanto à sua maior atualidade e relevância (caso haja esta preocupação nos autores das sinopses). Também nos dão acesso às referências, para consultá-las se houver interesse em aprofundamento. Constituem, assim, um guia, uma ferramenta de seleção e um organizador de leituras e do processo de aprendizagem.

Uma vez feita a triagem e descobertos os materiais mais relevantes para cada leitor, porém, o aconselhável seria dar um salto qualitativo para o estágio mais avançado: a exploração profunda dos textos originais selecionados. Isso ofereceria uma experiência mais plena dos diferentes enfoques do livro fonte, pois favoreceria uma reflexão autônoma do leitor. Nesse processo, seria possível a comparação entre texto-mãe e resumo, texto-mãe e outras leituras afins, texto-mãe e conhecimentos prévios de quem lê.

“Ok, me dirão, mas quando fazer tudo isso?” Aí é que está o problema. Voltamos a uma das crises dos nossos dias: falta de tempo. Fica difícil lutar contra o sistema. A sociedade pós-moderna está construída desta forma: velocidade, superficialidade, dispersão, fragmentação. Apesar disso, temos opções. Podemos ceder e seguir com a maré, ou tentar encontrar alternativas que nos garantam viver em plenitude nosso potencial de aprendizagem. Isso passa, entre outras coisas, pelo ato de ler, por meio de uma leitura mais consciente, profunda e refletida.

Não estou falando agora dos livros de ficção, cuja existência se liga à fruição e ao prazer, embora igualmente contribuam para nosso desenvolvimento cognitivo, reflexivo, crítico, estético e humano. Estes e sua leitura dariam matéria para outro artigo! Somente enfocando os textos técnicos, acadêmicos ou informativos, já temos bastante material com o que trabalhar, buscando enriquecer nossa bagagem cultural e profissional. Como vamos fazê-lo, depende de cada um. Se nos deixaremos levar pela corrente, abraçando apps como os citados como principal fonte de referência, ou se os utilizaremos como ferramenta inicial de um processo, esta é uma escolha com suas respectivas consequências.

Compartilhe!

Deixe um comentário