Retorno às aulas Publicado em 18/02/202218/02/2022 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano Se não fosse a pandemia… Palavra gozada, essa. Lembra uma batida, pan, pan, pan, ou quase a chacoalhada de um pandeiro, seguida da lamúria de um gato manhoso, que mia, mia e mia no ouvido da gente. Não é tão ruim quanto a coisa. Ao contrário, eu a sinto até um pouco macia do meio pro final. Já quarentena me parece opressiva e mais longa. Explode seca duas vezes. Grita com uma gargalhada debochada – qua, qua, qua – e, depois, me dá um tapa na cara ou um teco nas ideias – te, te, te. Além do mais, sai pelo nariz, como se eu já me sentisse, só de falar nela, entupido da tal covid. Tá, pandemia também é fanha, mas eu sinto diferente. Fazer o quê? Bem, se não fosse a pandemia e a maldita quarentena com isolamento, eu não tinha ficado tanto tempo longe da escola. Daí, o que antes era um aborrecimento, virou desejo e expectativa. Escola. Argola do brinco da Silvinha, tão linda, tão fresca, tão fluida. Marola das ondas da praia que batem no píer do outro lado da rua. Sacola de frutas que a mãe me pede pra levar pra casa, da loja do seu Juca, após a saída. Hoje é o dia! O regresso rola roliço como uma bola rua abaixo, na Ladeira do Escorrega. E me leva, ligeiro, flutuante, faminto de encontros, porque o peito estala de saudades, mesmo da obrigação e do tédio. Na sala, caras novas e antigas. A professora. A chamada. O Dunga, gozado e atrapalhado. O Patrik, alto, arrogante, áspero. A Catarina, sempre tão séria e tímida. E a Silvinha, sinuosa, serena, sentada ao meu lado como se fosse ontem o dia em que uma centelha faiscou no seu olho. A matemática se rabiscava no quadro, enquanto a biologia e a química se esqueciam de vírus, máscaras, álcool e só pensavam que a vida voltava para ser vivida. Visualizações: 647 Compartilhe! Narrativas breves escolaPandemiaquarentenaretomada
Domínio do medo Publicado em 21/05/202120/05/2021 Por: Cristina Vergnano Olhei por sobre o ombro. Achei que estava sozinha, no entanto, podia jurar que uma sombra me acompanhava, esgueirando-se pelos cantos. Tudo o que consegui foi estancar, prender a respiração e esperar pelo pior. Visualizações: 520 Compartilhe! Leia mais
A dor ensina a gemer Publicado em 22/09/202322/09/2023 Por Cristina Vergnano — Boa tarde, senhor Justino. Só concordei em atendê-lo dada a sua insistência. Por isso, diga logo a que veio. — Boa tarde, senhorita Clotilde. Vim com o desejo de revê-la e folgo em encontrá-la com as faces tão rosadas. — Pois seu desejo foi atendido. Passe… Compartilhe! Leia mais
SÉRIE: GLOSSÁRIO IMPROVÁVEL (1) Publicado em 25/11/202225/11/2022 Por: Cristina Vergnano Letra A ABRAÇO– s.m. (etim. Termo derivado de “a” + “braço”, parte do corpo necessária para torná-lo concreto, ainda que, de fato, o ato só se possa efetivar com a colaboração de ambos os membros superiores. A etimologia é duvidosa quanto ao uso da vogal inicial “a”…. Compartilhe! Leia mais