Coisa de avó Publicado em 05/03/2022 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano Como a gente sempre fazia, pelo menos uma vez por mês, a família estava na serra, visitando meus avós paternos. Eu já sabia que, no domingo, voltaríamos pra casa ainda com tempo de ver algo da luz do dia. Minha mãe não gostava de chegar à noite. Acho que tinha sensação de o fim de semana ter escoado pelos seus dedos. De qualquer maneira, ninguém sairia antes do almoço domingueiro na grande mesa da sala. Nunca fui de acordar cedo, nesses domingos, porém, despertava com o canto do galo no galinheiro e o cheiro de orvalho nas plantas do quintal. Depois do café da manhã, brincava até cansar, esperando a hora da comida. Naquele dia, me fartei de correr, pegar folhas para fazer comidinha, jogar pedras com a atiradeira que meu avô tinha feito pra mim e resolvi me sentar na varanda, bem na porta da cozinha, virada pra dentro. Eu devia ter uns cinco anos. A minha irmã era pequena e estava deitada no colo da mamãe, tomando ar fresco e sol perto da parreira. Não sei o que me deu então, mas me sentia hipnotizada pela figura frágil, quase quebradiça, da minha avó. Longas tranças (que eu só podia adivinhar, já que estavam sempre presas em coque), saia plissada de lã escura, blusa de manga três-quartos, tão magrinha e calada. Ela estava batendo manteiga, com a nata tirada da garrafa de leite deixada pelo leiteiro na porta. Por que ela não usava batedeira, meu Deus? E como podia alguém tão miúdo bater depressa daquele jeito e com tamanha habilidade? Terminada a manteiga, eu a segui até o fundo do quintal, atrás de ovos fresquinhos, pois, era a vez de bater bolo. Depois dessas tarefas, ela foi para o fogão fazer o feijão gordo, o talharim do vovô (não podia faltar pra aquele italiano de cara rosada e barba por fazer), as batatas fritas e terminar a carne assada. Por fim, pegou na horta o necessário pra salada e uns dois chuchus no pé que trepava nas telas do galinheiro. Tudo isso ela fazia diligente, silenciosa e com um sorriso muito tênue nos lábios. Por volta de uma hora da tarde, todos foram chamados pra ocupar seus lugares à mesa. Estava linda como de costume, super cheia de coisas gostosas. Sentei-me orgulhosa ao lado da mamãe. Nesse dia não era o caso, mas eu sabia que tinha uma deferência da qual nenhum de meus primos podia gozar: sentar junto com os adultos pra comer (não antes deles, na mesa da cozinha). Logo, o quadro ficou completo: papai numa cabeceira, pois seu irmão mais velho não tinha ido naquele fim de semana, vovô na outra, minha tia solteira diante de mim. Ao lado do vô, o lugar da vó. Ela, contudo, ainda não tinha ocupado seu lugar. Continuava colocando coisas e mais coisas sobre a mesa e sobre o aparador, deixando tudo arrumado e apetitoso, inclusive as sobremesas: doces de gemas, de leite, de mamão verde. Tudo saído daquelas mãozinhas. Por fim, depois de entregar ao vovô a garrafa de vinho, veio trazendo uma pequena panela sem cabo, toda amassada, que colocou ao meu lado. Era meu chuchu ensopado, especialmente feito para mim. Ela nada disse. Sentou-se ao lado do meu avô para quase não comer, como era seu costume. Calada e tranquila. Sorria sutilmente e eu, maravilhada, me sentia a pessoa mais amada do mundo. Visualizações: 508 Compartilhe! Traçando entre nós contos gastronômicos
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