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O macarrão de Isabel

Publicado em 05/03/2022 Por Cristina Vergnano

Por: Rita Rodrioli

Numa escola ninguém usa faca para cortar o macarrão porque, simplesmente, não se pode levar faca e outros objetos cortantes e perigosos para a escola. Às vezes, até os garfos são condenados e acabam ficando fora do ambiente escolar. Tadinhos… ou não! Mas a verdade é que, na minha época, na minha escola pública havia garfos. Não me lembro de facas, mas do garfo eu me lembro bem, o garfo de enrolar o macarrão cor de ovo. Você pode até achar muita pretensão uma menina de oito anos se considerar dona de uma escola pública e dizer “minha escola” … Mas é que a gente tinha um senso de pertencimento à escola formidável naqueles tempos, a escola era nossa e nós éramos da escola. Era tudo nosso, o mundo era nosso, era essa a sensação, pois o nosso mundo era a escola. Até os garfos eram nossos!

Na minha escola, não existia uma quadra poliesportiva coberta, mas sim um terreno cheio de mato que servia como um campo para jogar, brincar, furar o pé de vez em quando e pegar uns carrapatinhos nas partes mais íntimas do nosso corpo. Imagine um campo muito, mas muito grande, tão infinito que não precisava agendar para usá-lo, era só chegar e dizer que aquele pedaço era seu. Minha escola era formada por umas 4 salas de aula com carteiras de madeira em que cabiam 3 pessoas juntas, 1 sala que servia de secretaria, onde o cheiro era do mais puro álcool escorrendo pelas folhas que saíam do mimeógrafo. Não havia pátio, mas sim um terreno limpo, de terra batida, que pertencia a uma igreja evangélica. Nesse espaço a gente podia sentar na calçadinha da tal igreja para conversar, brincar, brigar e ver uns bichinhos selvagens passando – um gambá perdido à luz do dia atravessava a rua e se escondia no mato escuro, uma aranha grande e marrom que parecia ter pele de veludo passeava devagarzinho pelos cantinhos da varanda de uma casa vizinha (grudada) à escola, um tatu que dava mole e logo virava almoço de alguém e os teiús que também iam para as panelas sem nenhuma cerimônia ou resistência. Mas na escola essas iguarias locais e selvagens não eram nunca servidas… e olha que nem se falava em veganismo e maus-tratos aos animais naquele tempo. A gente achava que os bichos não eram comida, eram bichos, eles existiam e pronto. Não precisávamos matá-los para comer, pois outros bichos já passavam por esse processo. Mas a gente também entendia que muitas pessoas não podiam comprar os outros bichos, então pegavam a comida que se exibia e dava mole.

Assim era a minha escola, não era cercada por muros, não havia campainha porque não existia portão, não era gradeada feito prisão, não precisava de ar-condicionado nem ventilador. A brisa fresca do vento batia desrespeitosamente na nossa pele, mesmo quando a gente estava dentro da sala de aula. Quando a gente ia embora da escola, esse mesmo desrespeito acontecia, acompanhado por um pouco de areia que parecia surrar as nossas pernas. Aliás, não tínhamos a obrigação de vestir uniformes, mas eu ia sempre com uma saia azul-marinho de preguinhas cobrindo as coxas, uma blusa branca bem básica, meia branca e tênis preto. Do tornozelo até os joelhos eu levava surra de areia quando ia e vinha a pé da escola. Às vezes ia de bicicleta e não sentia a surra de areia, só sentia o carinho do suor nas minhas costas e o cheiro bom de comida boa de algumas poucas casas que existiam pelo caminho. Feijão com cheiro de feijão, rabada com cheio de rabada, batata e agrião, essas coisas…

Além das salas de aula, do campo, do pátio, da secretaria, da calçadinha da igreja e da varanda da casa vizinha, os contornos geográficos da minha escola contavam com uma sala isolada e pequena, um espaço em que ninguém podia entrar, exceto duas pessoas: Iva e Silvia, as rainhas da escola. Essas duas mulheres modificavam toda a atmosfera do lugar, até o cheiro do álcool das folhas desaparecia para dar lugar ao mais quente e salgado cheiro que vinha da cozinha. Não tínhamos refeitório, somente uma cozinha, essa sala pequena e isolada. Íamos até a porta para pegar o prato já montado e sentávamos na calçadinha da igreja, ou comíamos em pé tendo a vista do campo como distração. Quando o almoço da escola era uma macarronada, todo mundo se esbaldava, até o garfo. Ele dançava por entre os dedos das crianças enrolando o macarrão. As crianças mais novinhas, recebiam prato de plástico. Os alunos com idade intermediária usavam prato de alumínio. Os adultos e as crianças mais velhinhas já podiam comer em prato de vidro. Uma verdadeira evolução! E eu? Você pode estar se perguntando se eu era a criança do plástico, do alumínio ou do vidro, né?! Então, eu era a criança da garrafinha térmica com suco de caju e do pão com manteiga embalado em guardanapo. Era isso todo santo dia. A monotonia gastronômica escolar era minha rotina.

– Esse pessoal da escola não tem higiene! – exclamava minha mãenipuladora em alto e bom som para a virginiana de oito anos – Você não vai comer essa comida da escola nunca, ouviu bem?!

Apesar de eu ter o sentimento de que os garfos da minha escola pertenciam a mim, eu não podia utilizá-los. Na verdade, eles não tinham função dentro do meu lanche. E mesmo que tivessem, o nojo típico de uma virginiana falava mais alto e eu não teria coragem de pegá-los. Mas sempre que o cheiro quente e salgado da macarronada de Iva e Silvia penetrava meus poros com a ajuda do vento que soprava desrespeitosamente, eu sentia um prazer que fazia arder meu estômago com a mais pura e forte fome de um leão, de um touro, ou de qualquer outro animal zodiacal.

O nojo do tato virginiano dava lugar a um prazer carnal e inebriante que invadia meu ser de uma maneira sem igual. A deusa da gula me saudava e os anjos me tentavam a comer aquele manjar com molho vermelho do mais tenro tomate. Outros anjos vinham na mesma hora e me faziam lembrar das palavras que eu ouvira em casa. Violar os desígnios de minha mãenipuladora? Atender ao pulsante e estarrecedor desejo de preencher minha alma com aquele prato de plástico coberto pelo macarrão cor de gema de ovo, banhado por um molho vermelho suculento e brilhante cheio de coisinhas verdes? Confessar que sucumbi aos prazeres da carne, ou melhor, do macarrão, já seria suficiente para eu entrar no reino dos céus? Eu não aguentaria aquela tortura por um ano escolar inteiro, iria pecar. Via as colegas se deleitando naquele banquete, sentadas na calçadinha da igreja, conversando alegremente, enquanto minha mente pensava em um plano para burlar as normas e saciar a fome do meu desejo.

E eis que o grande dia chegou! Não me lembro de ter ficado durante meses arquitetando o que faria, mas sei que foi algo muito espontâneo e de dentro do coração. Não foi por maldade, foi por necessidade. Passei com minha garrafinha térmica cheia de suco de caju por trás das meninas que estavam sentadas na calçada se banqueteando. Posicionei-me atrás da minha prima Isabel que, além de comer a macarronada sempre, ainda usava o prato de vidro. Não me demorei muito, apenas o suficiente para fazer o cálculo da distância e deixar que a cachoeira de suco de caju corresse para o macarrão de Isabel.

Atônita e tendo a boca aberta no máximo que seus lábios leporinos deixavam, Isabel me olhou sem piedade e foi mostrar sua sopa de macarrão com caju para a minha professora – a tia Giovana. Logo que soube do ocorrido, a tia veio ao meu encontro sem acreditar que uma das alunas mais obedientes teria feito tal atrocidade pecaminosa. Eu, muito infantiloidemente, neguei todas as acusações que vinham da mente fértil e das palavras insanas de minha prima Isabel. Mas eu esquecia do número tremendo de testemunhas. Ah, naquele tempo não havia câmeras para filmar nada.

Fiquei de castigo, a turma foi dispensada mais cedo e ficamos eu e a tia Giovana olhando uma para outra, olhos muito fixos, quase como aquela brincadeira de não piscar até deixar o olho lacrimejar. Não sei precisar o tempo em que ficamos paradas ali na sala de aula, brincando de não piscar. Só sei que eu sentia como que entrando num portal sem fim de tempo que não passava. Levei um bilhetinho, na verdade uma carta feita pela tia, explicando o corrido para minha mãenipuladora. Poderia ter rasgado o bilhete, jogado fora, escondido, mas não fiz nada disso. Como era muito obediente, mostrei o bilhete em casa. Apanhei com palavras. Fui chamada de tudo o que você pode imaginar que uma mãenipuladora chamaria uma criança de 8 anos. Mas a palavra que mais me doeu foi “mentirosa”.

No dia seguinte, a vergonha se abateu sobre mim ao entrar na escola. Parecia que estava sendo julgada e que iria para uma fogueira. Além da vergonha, havia o eco de “mentirosa” no ar, na mente, no coração, nos olhares. Mostrei o bilhetinho-carta para a tia Giovana, com a assinatura de ciência da minha mãenipuladora. Tive que pedir desculpas para Isabel, o que doeu bem menos do que o eco de “mentirosa”. Tive que conviver naquele dia com a vergonha e com a fome, pois repetiram a macarronada e, como mais um castigo, eu não fui autorizada a levar lanche para a escola. Passei fome, passei vergonha, passei raiva e passei lágrimas de verdade, pois chorei quando olhei para a tia Giovana durante a aula. Não foi fácil sentir o cheiro da macarronada sendo levado para dentro da sala pelo vento desrespeitoso.

Na hora do recreio, eu não tinha nada. Só fome, sede e vergonha. Foi quando a tia Giovana chegou perto de mim com um prato de alumínio cheio de macarrão, molho e coisinhas verdes e me deu de comer. A primeira garfada, ela que me deu na boca, eu não segurei o garfo. Não por nojo virginiano, mas porque eu não conseguia. Só tremia e chorava mastigando. Você já comeu chorando? Pois é, foi assim. Eu comi pela primeira vez a macarronada da escola. Segurei o garfo e me saciei, repeti o prato. Ficava pensando que se me dessem como castigo comer o macarrão de Isabel do dia anterior, eu não aguentaria. Era uma sopa. A tia Giovana me disse que ia comunicar à minha mãenipuladora que a escola seguia regras de higiene e que a partir daquele dia eu iria comer sim os quitutes de Iva e Silvia, quando eu quisesse. Isabel ficou um pouco escabriada comigo. E assim, eu conduzia o garfo para a dança no prato de alumínio, sentia felicidade, plenitude, saciedade, leveza e nunca mais menti.

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