O uropígio de Natal Publicado em 05/03/2022 Por Cristina Vergnano Por: Rita Rodrioli Não sabemos se, quando estava lá no refrigerador do supermercado, ela ou ele imaginava as aventuras natalinas pelas quais passaria. A verdade é que uma ave congelada, produzida somente para ser devorada na Noite Feliz, chega à mesa sem sexo definido na embalagem e não está mais viva para imaginar nada. Então, vamos melhorar nossa prosa! Não sabemos se essa mesma ave, quando estava lá no galinheiro sendo criada – seria um galinheiro de galinha feliz?, imaginava o que seu corpo – ou melhor, partes dele – poderia causar na mente e no coração de seres humanos tão envaidecidos pelo espírito natalino. Era uma singela e agradável noite de Natal, como deveriam ser todas e quaisquer noites. Mas aquela era especial, como toda 24 de dezembro de qualquer ano. A ave já não habitava o galinheiro feliz, nem o congelador do super. Ela agora repousava sobre um lindo leito de folhas de alecrim, gordura de manteiga, cebola, hormônios industriais que saíam de suas vísceras quentes, alho, limão e farofa, muita farofa. O cheiro que ela exalava fazia qualquer carnívoro arder de desejo e tentar pular a oração para apreciá-la insaciavelmente. A educação e a religião estavam quase cedendo espaço para as delícias de se viver o momento presente sem pensar em ninguém. Não fosse o Natal, essa cessão teria ocorrido. Mas vamos considerar que era uma noite especial. O aroma de outros leitos ao redor da ave suscitavam o mesmo profundo querer em esquecer convenções e avançar o sinal fechado das horas que não passavam. Bacalhau com nata, bacalhau com batata, peru, presunto defumado, salpicão… os narizes faziam os estômagos pulsarem. A fome se confundia com a vontade de comer. A noite de Natal se confundia com a vontade de poder. Mas não era o mesmo poder de uma criança que está ao redor de um bolo e quer poder para passar o dedo no glacê. O poder era de outra natureza. Era o poder de uma pessoa que, se pudesse, comeria uma outra pessoa, antropofagicamente mesmo. Não era mais a noite especial. Era a noite do poder. Cálices cheios e tilintando davam o tom da felicidade e ajudavam a distrair os olhos para que o crime ficasse perfeito. Risadas altas e amarelas deixavam qualquer ruído criminoso imperceptível a delações. A decoração brilhante e cintilante se confundia com o brilho prateado da faca amolada se movendo. O momento era propício e convidativo. O crime aconteceu. Sambaram com a sambiquira e a guerra estava agora declarada. Quem havia sumido com o uropígio do Natal? Aquela protuberância triangular assada era a parte mais desejada por Clarice e mamãe. Ambas disputavam o poder para ver quem mandava mais na noite de Natal, quem rezava mais bonito, quem fazia a oração mais forte, quem ganhava mais e melhores presentes, quem vestia a melhor roupa, quem trabalhava mais para que a ceia ficasse pronta, quem comia mais e engordava menos, quem era mais centro de atenções, quem conseguia alisar mais os cabelos. E agora, o quesito que seria o indicador de poder era o uropígio da ave do galinheiro feliz. O sobrecu intacto sobre a mesa do Natal era o sinalizador da paz. Após seu sumiço, o dia virou noite, ou melhor, a noite virou mais noite ainda e a educação e a religião foram para o espaço mais baixo que podemos pensar. Acordos de paz não faziam parte daquela geopolítica familiar. Usar justificativas das redes sociais que indicavam que o consumo de sobrecu deveria ser reduzido para o bem da humanidade não resolvia nada. – Quem pegou o sobre? – esbravejava Clarice, ainda branca. – Eu não fui! Não sei! – respondiam todos e todas, incluindo mamãe. – Todo mundo sabe o quanto gosto de uropígio! Quero que ele apareça agora! – gritava Clarice, já com a cara toda vermelha e as veias do pescoço engrossadas ao extremo. Essa havia virado uma pergunta retórica e, como tal, já não precisava de respostas, apenas de reflexões e mãos na consciência. Sorte foi que a oração da meia-noite ajudou a acalmar os ânimos. Mas quanto tempo durou a oração feita por mamãe? Cinco minutos no máximo. A tensão continuava. A ave permanecia sem ser esquartejada, apenas sem a sambiquira. Quem come sambiquira e uropígios fica enxerido e rapariguento, vulgo homem galinha, diz a sabedoria popular da internet. E quem queria saber de sabedoria naquele contexto? As duas ali queriam era saber de poder, e nada mais. Enquanto os demais só queriam saber de comer, e não podiam fazê-lo enquanto o crime não fosse resolvido. Afinal, as duas matriarcas haviam lançado um duelo. Brigavam por um território extremamente pequeno, o sobrecu da ave natalina que de repente havia se tornado tão grande quanto as pernas e os pés do abapuru de Tarsila. Elas não se olhavam no espelho, a verdade era essa. Se fizessem esse esforço reflexivo, todos já teriam comido e as duas perceberiam o quão pequenas eram diante do Natal. Mas não. Preferiram continuar. Um aparato bélico trazido à tona por Clarice colocaria fim ao jejum: as câmeras da casa. Por essa, ninguém esperava. A mesa ficou pequena diante do tamanho das cenas que passavam na tevê. As câmeras da varanda conseguiram captar o momento exato em que o uropígio fora brutalmente cortado por um faca extremamente amolada e prateada. A vontade de comer logo fora abduzida pela vontade de ver quem cortara o sobrecu, quem sambara com a sambiquira, quem sumiu com o uropígio. Todos ficaram boquiabertos quando a cena fatal apareceu: a posição da câmera pegou exatamente a lâmina da faca em direção à mesa, mas não pegou da lâmina para cima. E como o objetivo da câmera era a varanda, e não a sala de jantar, as pessoas não saíram nas cenas, apenas uma parte da mesa e a lâmina da faca cortando o uropígio e um garfo espetando o pequeno grande território. Outra estratégia para que todos pudessem enfim comer? Claro, deixar a guerra pelo poder, comer, e depois deixar pra lá. Clarice não conseguiria sobreviver até o próximo Natal para dar o troco em alguém. Precisava de revanche ali naquela hora mesmo, assim que descobrisse quem roubou o seu uropígio. – Uma caçada. Vamos revirar a mesa toda! Se vocês dizem que não comeram o uropígio e nós vimos que alguém o cortou, então ele pode estar caído por algum local da mesa. Não?! – Sim, claro – alegraram-se todos pensando que a caçada seria simples. Ao revirarem a mesa, acharam o sobrecu encolhido dentro de um guardanapo há alguns milímetros da fronteira do prato de mamãe. Pronto. O mistério estava revelado. Mamãe havia cortado o uropígio! Agora deveria confessar seu crime. – Óbvio que não! Alguém cortou e colocou aí pertinho do meu prato para me incriminar. E eu vi quem o colocou aí. Foi a própria Clarice. Por isso ela iniciou a busca pelo uropígio, pois já sabia onde ele estava e queria me deixar mal na noite de Natal. Cabelos, brincos, taças, pratos, talheres e ofensas voavam de um lado para o outro. E há quem chame os presentes comilões de desalmados, pois deixaram as duas se pegando e foram comer a ceia da noite especial. Alguém comeu o uropígio, e não foi a Clarice, nem a mamãe. Algum carnívoro faminto queria perpetuar o crime do sobrecu até o dia seguinte e decidiu comê-lo. Decisão tomada e aceita pela maioria dos presentes. Então, viva a democracia! Um brinde aos Natais animados e especiais da nossa família! Que Deus continue abençoando. Amém! Visualizações: 648 Compartilhe! Traçando entre nós contos gastronômicos
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