Sabor de infância Publicado em 05/03/2022 Por Cristina Vergnano Por: Marcelo Pimentel A princípio pensei estar sonhando. Imaginava nem existir mais, ter sido retirado para sempre do mercado. Mas lá estava ele – o Mandiopã – relançado na mesma embalagem (agora já com ar indiscutivelmente vintage) e bem ao meu alcance na prateleira de uma antiga mercearia do subúrbio. Comprei logo seis caixas e fui pra casa assim que pude, ansioso por reviver aquela sensação crocante guardada na lembrança, por sentir talvez um sabor adormecido de infância. Diante da frigideira, constatei que o produto ainda era o mesmo. O óleo quente fez as unidades inflarem, transformando os pequenos pedaços duros como plástico em salgadinhos tenros e, ao mesmo tempo, tostados. Fiz da experiência revivida um ritual, com direito a paninho forrando a mesa de centro. Longe de me decepcionar, a prova me levou de volta aos lanches vespertinos entre os colegas de rua, reunidos no meu quintal. Lá pelas quatro da tarde a brincadeira era interrompida pela minha mãe ou pela Zezé. Todos esquecíamos as oposições de nossos personagens bonecos ou as rivalidades das peladas de rua. Unidos em torno da larga bandeja de plástico, dividíamos o Mandiopã e a jarra de suco ou groselha. Talvez eles tenham esquecido dessas tardes já distantes. Minhas recordações, ao contrário, vão se tornando mais e mais vívidas, como se eu pudesse voltar no tempo e realmente estivesse naquele quintal dos anos setenta. Ao meu redor, vejo cada detalhe do quintal reconstituído pela lembrança. Coisas de sabores e memórias – penso, antes de olhar, atônito, para minhas próprias mãos, agora do tamanho das de uma criança. Visualizações: 781 Compartilhe! Traçando entre nós contos gastronômicos
Bolo da vida Publicado em 07/11/202107/11/2021 Ingredientes: 01 pitada de tristeza; 02 colheres de sopa de paz ½ xícara de reflexão; 10 gotas de ânimo; ½ colher de chá de medo Em um refratário largo, junte a pitada de tristeza com meia xícara de reflexão e deixe descansar por algum tempo. Aos poucos, acrescente lentamente as… Compartilhe! Leia mais
Profundeza azul Publicado em 03/11/202104/11/2021 Por: Cristina Vergnano Acordei com um arrepio. A cama estava vazia. Uma fria brisa marítima entrava pela janela, sacudindo a cortina de chita e trazendo cheiro de sal. Enrolei-me no cobertor e fui até a porta. Divisei, na luz difusa do amanhecer, a figura dela. Lá estava, de novo, sozinha,… Compartilhe! Leia mais
Conto – Companhia Publicado em 08/06/202214/09/2022 Por: Ana Paula Bellot Chovia forte. Ele havia esquecido o guarda chuva. Correu para o metrô com a pasta preta em cima da cabeça. Era uma prática comum: todos tentavam proteger o rosto dos pingos. Já no meio da escada e embaixo da cobertura, reparou em seus sapatos e viu… Compartilhe! Leia mais