Tudo depende do ponto de vista

Por: Cristina Vergnano

O dia começou como um daqueles em que levantar era complicado. Dormi bem, não foi este o motivo. Apenas acordei com certa preguiça e um desejo de lentidão. Isso não chegava a ser algo problemático, afinal, desde a aposentadoria, tinha conquistado o direito a respeitar meu ritmo. Ainda assim, implicava uma escolha, pois, mesmo aposentada, tenho meus compromissos. Neste caso, devia decidir se levantaria para ir à hidroginástica, ou cederia à tentação de curtir um pouco mais o aconchego da cama quentinha numa manhã fria de outono.

Pensemos nos prós e contras. Fazer atividade física é uma prática saudável, que precisa ser cultivada ao longo da vida, inclusive na terceira idade. Aqui, porém, abro parênteses, pois, apesar da hidro, do pilates e das caminhadas a fim de resolver afazeres cotidianos, considero-me um tipo sedentário. Ou seja, embora me mova, se posso escolher, tendo a desejar um canto confortável para ler um bom livro, desenhar ou colorir, o sofá para filmes e séries de tv, a cadeira diante do computador para escrever. Resumindo, coleciono mais hobbies e interesses que requerem sossego do que aqueles caracterizados pela agitação. Dito isso, segue o contra. Se, por um lado, exercitar o corpo faz bem à saúde, o stress, por outro, lhe causa muitos danos. Como naquele momento eu queria relaxar, ater-me à obrigação de levantar e cumprir todo o ritual prévio para a atividade com hora marcada seria promover um distúrbio da Força.

Conclusão, optei por uns minutos adicionais de cama e um despertar tranquilo para o dejejum. Devagar, fui seguindo minha rotina matinal. Ao terminar de comer, achei conveniente dar um pulo num hortifruti próximo. Havia planejado fazê-lo após a hidro. No entanto, como faltei a esta, bem poderia ter saltado aquele. Acontece que olhei pela janela e percebi um pouco de luz e céu azul, o qual, rapidamente, ia sendo substituído por uma camada homogênea de nebulosidade cinzenta. Bateu, então, o desejo de usufruir esse fim de manhã de junho, ameno, ainda iluminado, enquanto durasse. No final das contas, uniria o útil ao agradável: sem corre corre, aproveitaria o tempo outonal que tanto me agrada, faria as compras e, de quebra, algum exercício.

Foto: Cristina Vergnano. Boné de bojo amplo, em tecido de algodão, cinza claro, com um laço lateral, apoiado sobre uma poltrona de cor vinho.

Troquei de roupa, peguei o cartão de crédito, o carrinho de feira, a máscara (sim, continuo fazendo uso desse acessório!) e um item novo na indumentária, um boné. Explico. Mesmo antes da pandemia, eu tinha criado o hábito de lavar minha cabeça depois de ir à rua, no retorno definitivo à casa. A ideia era não levar poeira de asfalto ou de areia para meu travesseiro ao me deitar. Com a covid-19, encontrei outro motivo para essa prática: evitar contaminação pelo vírus. O problema é que, devido à retomada das atividades externas mais frequentes, o cabelo está ficando prejudicado com tantas lavagens. Portanto, usar o boné iria protegê-lo e poupar-me de lavá-lo por dois dias consecutivos desnecessariamente.

Aqui, chego ao tópico que desejava abordar ao propor o título da crônica. Sempre gostei de boinas, bonés e chapéus, apesar de usá-los pouco, pois os considero incômodos em certas circunstâncias. Colocá-los, segundo essa perspectiva, atendia a um critério de charme, por julgá-los um adorno bonito. Desta vez a razão era bem diferente, mas, logo descobri, não seria a única interpretação possível do fato.

Ao cruzar a portaria, a funcionária do prédio me perguntou se eu havia passado creme de tratamento no cabelo. Eu neguei, estranhando um pouco a indagação. Ela, então, comentou ter pensado isso devido ao boné, usado, talvez, para esconder o produto. Esclareci o motivo e segui adiante, lembrando-me de diversos outros contextos para motivar essa escolha.

Em certa ocasião, por exemplo, uma conhecida me contou que uma amiga sua tinha questionado se ela havia se tornado religiosa, devido à sua boina. A opção da moça, entretanto, se devia aos efeitos de uma quimioterapia pela qual passava, nada tendo a ver com crenças espirituais. Foi quando tomei ciência e aprendi sobre uma lei judaica, seguida na atualidade pelas judias ortodoxas, a qual lhes determina cobrir a cabeça depois de casadas, ocultando os cabelos como um sinal de modéstia.

Só nesses episódios, pontuei várias justificativas para o uso do tal boné. Ele pode ser adorno, barreira contra sujeira e contágios, proteção numa terapia capilar, prescrição religiosa, um tipo de conforto ante um tratamento de saúde que abate tanto o físico quanto o psicológico do paciente. Ninguém, ao nos ver com esse adereço, sabe exatamente o motivo para o usarmos. Se estivéssemos em outros tempos, talvez nem despertasse considerações, visto ser moda cobrir a cabeça. Hoje, contudo, época de tantas tendências no vestir, os sentidos se constroem com base na experiência e no olhar de cada um. Daí a sua variabilidade.

Isso nos leva a considerar o quão fluídas e parciais são as avaliações que fazemos de nosso entorno, das pessoas e dos acontecimentos. Sem o conhecimento pleno do contexto, julgamos a partir de nossa perspectiva particular, o que pode levar a equívocos frequentes.

Segundo um ditado, se temos dois ouvidos (eu acrescentaria, além disso, dois olhos) e uma boca, deve ser para ouvir (e ver) mais do que falar. Nos casos das perguntas sobre a opção religiosa ou a hidratação dos cabelos, citados acima, não houve agressão, nem se chegou a causar constrangimento. Podem ocorrer, no entanto, embates nada suaves quando se trata de aplicar conclusões apoiadas somente em uma observação fragmentada da realidade. Talvez essa constatação possa ser um incentivo para repensarmos nossa famosa veia crítica. Não aquela que avalia criteriosamente acontecimentos, mas a que se deleita em aplicar juízos a torto e a direito. Afinal, onisciência não faz parte das características constitutivas da humanidade e toda leitura se apoia no texto, sim, porém, também, no foco que nossa bagagem de vida permite ajustar a esse material lido.

Compartilhe!

Deixe um comentário