A dor ensina a gemer Publicado em 22/09/202322/09/2023 Por Cristina Vergnano Por Cristina Vergnano — Boa tarde, senhor Justino. Só concordei em atendê-lo dada a sua insistência. Por isso, diga logo a que veio. — Boa tarde, senhorita Clotilde. Vim com o desejo de revê-la e folgo em encontrá-la com as faces tão rosadas. — Pois seu desejo foi atendido. Passe bem. — Por favor, espere! A senhorita abandonou os bailes. Sentimos muito sua falta. — Sentiram? E por que iria eu frequentar os salões? Sei o quanto falam de mim, do ocorrido. — Não tenha cuidados, pequena Clotilde. Sua inocência e doçura são voz corrente. — Façamos de conta que lhe creio. E, com licença, pois estou ocupada. — Mais um momento, sim? Queria contar-lhe: ontem encontrei o Rodolfo. — Agora basta! Não me fale naquele, naquele, — Monstro? Com certeza. Ele é isso e muito mais. — Ora, vejam só que surpresa! Pois não era seu melhor amigo, o indivíduo? — Não se pode ter amizade por tal degenerado. Ferir alguém tão delicada, uma pombinha. — Poupe-me dos seus galanteios. — Não o são. Representam a mais pura verdade de meu peito. — Sei. Terminamos? — Bem, gostaria de dizer-lhe algo mais, se me concede a ousadia. Encontro-a mudada. — O que esperava? Ninguém passa pelo que passei impunemente. — Decerto, no entanto. — Fiquei, de fato, arrasada a princípio. Então, conheci uma nova amiga e tudo se transformou. — Amiga? E sabe-se quem é essa ilustre pessoa? — Claro, chama-se Aurélia, Aurélia Camargo. — Não me diga que… Oh, por favor, aquela mulher não serve como companhia para uma donzela como a senhorita. — Muito pelo contrário, abriu-me os olhos a um mundo que eu teimava em ignorar. O senhor sabia que há mulheres lutando pela participação política, que escrevem, criam arte, trabalham e gerenciam, inclusive, negócios? — Serão imprestáveis para usar os atributos femininos. Não, a senhorita! — Faça-me o favor! O que esperava de mim? Que eu definhasse de tristeza até morrer, me encerrasse num convento, ou, melhor ainda, aceitasse de bom grado a piedade de algum cavalheiro (o senhor, talvez?), vindo em seu corcel branco livrar-me do jugo da solteirice? — Eu não diria com tais palavras, porém… — Quer saber, senhor Justino, passe muito bem; ou mal! Pouco me importa. Deixe-me e nunca retorne. O senhor não é melhor do que aquele estrupício a quem quase cometi a loucura de me entregar. — Mas, mas. — Amélia, traga o chapéu e a bengala do visitante. Ele está de partida. Notas da autora: O livro Dentro da Noite, de João do Rio, foi publicado pela primeira vez em 1910. Contém dezoito contos lançados entre 1904 e 1910, em A Gazeta de Notícias. Suas temáticas envolvem desvios de comportamentos da sociedade da época, incluindo aspectos sexuais, uso de drogas, compulsão por jogo e cleptomania. O tom da narrativa é mordaz e crítico. O livro, em domínio público, pode ser acessado em: https://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/dentro_da_noite.pdf O conto dialogado que criei, cena inexistente na obra original, desenvolve uma conversa entre dois personagens do conto “Dentro da noite”, da obra homônima de João do Rio. Localiza-se, temporalmente, após um encontro entre Justino e Rodolfo, ex-noivo de Clotilde. Este jovem se afastou do convívio de seu meio, devido a um comportamento sádico, o qual ocasionou o rompimento do compromisso e vários disse-me-disse no círculo de amizades. Aurélia Camargo, citada no meu conto, é a protagonista do romance Senhora, de José de Alencar, também em domínio público, disponível em: https://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/senhora.pdf Visualizações: 340 Compartilhe! Narrativas breves cantadaconto dialogadospin-offsuperação
Agouro Publicado em 13/08/202113/08/2021 Por: Cristina Vergnano Todos diziam que superstição era coisa de gente antiga ou com pouco estudo. Ele, contudo, não gostava de dar mole para o azar e, naquele dia, estava incomodado. Tinha pegado a escala noturna, saindo já passada a meia-noite. “Justo numa sexta-feira treze, em agosto!” De repente, todas… Compartilhe! Leia mais
Espontaneidade Publicado em 27/05/202127/05/2021 Por: Cristina Vergnano Rui se orgulhava de ser racional: tudo decidia com lógica e reflexão. Um dia, viu uma moto passando no vermelho e atropelando um molecote. Não pensou: sentiu. Correndo pela calçada, pulou amarelinha nas lajotas. Assobiou um samba antigo. Tomou sorvete e um chopp. Roubou a rosa dum… Compartilhe! Leia mais
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