Cadê o docinho que estava aqui???…

Por: Cristina Vergnano

Ana Patrícia acordou tarde naquele dia 27 de setembro. Já que estava mesmo aposentada, apesar de seus muitos afazeres e atividades, podia dar-se ao luxo de esticar o tempo na cama. Além do mais, o clima estava convidativo.

A manhã estava tristonha e cinzenta, nada parecida com o que se esperaria do período de primavera. A única vantagem real que via era o arrefecimento do calor que, para essa época, já deveria estar incomodando. Ela não gostava de clima quente. Preferia os amenos ou até frios.

Levantou-se preguiçosamente. Fez a cama, como de costume, foi para a cozinha preparar o café e, depois, perdeu-se no computador, revendo as contas para o próximo mês, lendo notícias em jornais digitais, recebendo e respondendo e-mails.

Após uma boa jornada disso, sentiu o pescoço reclamar. Para variar, estava abusando e a coluna, já não tão jovem, começava registrar suas queixas com a devida razão. Ia levantando e colocando o computador no modo repouso para se preparar para sua habitual caminhada diária, quando olhou casualmente para a data. “Nossa! Que distraída! Até então não tinha me dado conta… 27 de setembro! Dia de Cosme e Damião!!!”

A mente começou a vagar em direção ao passado e um leve sorriso desenhou-se nos seus lábios. Ainda lembrava da correria atrás dos doces, apesar de estar tão distante na sua infância. “Era tão divertido!!!” Junto com os irmãos e coleguinhas, corriam as ruas vizinhas e recebiam montões de saquinhos, recheados de guloseimas, que iam sendo acomodados na sacola que cada um levava ao ombro. Quando tinha escola, a atividade acontecia pela manhã e no final da tarde, após as aulas (eles estudavam de tarde).

Depois, voltando para casa no final do dia, vinha a parte mais legal: a separação e organização daquela “doceria” toda!!! A mamãe cedia dois dos maiores tabuleiros de fazer bolo e neles depositavam todos os doces derramados dos saquinhos. Aí era a hora de ver o que era mais gostoso para eles (marias-moles, paçocas, torrones, suspiros, doces de batata-doce, bananadas, doces de abóbora, cocadas) e o que não apreciavam tanto (gelatinas de duas cores cobertas de açúcar cristalizado, cocô de rato, balas, pés-de-moleque). Era tanto doce junto, que poderiam passar mais de um mês, tranquilamente, comendo e ainda sobraria!!! O resultado disso, era uma distribuição para conhecidos, principalmente daqueles que não eram tão desejados. Até porque, embora gostassem das guloseimas, não eram de fato de comer muito. A caçada e o desejo de ganhá-los enchia mais os olhos do que o paladar, a barriga ou a gula. Toda a criançada das redondezas juntava-se à farra. E eram momentos de curtição inocente, sem brigas, nem alvoroço maior do que a excitação da corrida e a ansiedade ante a surpresa do que viria em cada saco.

Ana Patrícia tinha também uma tia de sua mãe que aniversariava nesse dia. Sendo assim, às vezes, iam de visita e podiam maravilhar-se com uma mesa dos sonhos de qualquer garota e garoto: montanhas de deliciosos doces e bolos caseiros, preparados pela tia com o maior carinho e distribuídos fartamente. O que mais chamava a atenção eram as fabulosas cocadas que ela fazia, bem molhadinhas!…

No momento da caminhada, com todas essas lembranças a adoçar seu fim de manhã, a Ana saiu de casa, agora recebida por um tímido sol que começava a insinuar-se entre as nuvens que cobriam o céu. Não sabia bem o porquê, mas algo crescia em seu peito… uma vontade louca de vivenciar (ou ao menos presenciar) aquele ritual mágico da sua infância. Passou por ruas pequenas e retiradas, por avenidas movimentadas. Muitos carros, motos, adolescentes uniformizados indo de lá para cá, adultos com compras de supermercado ou pastas de trabalho, pais com suas crianças, muitos celulares nas mãos e nos olhos… Mas nada de correria, nada de doces, nada de saquinhos, nem de meninadas com sacolas a tiracolo juntando seus preciosos tesouros.

Encontrou-se com alguns conhecidos e sempre perguntava: “Viu algum movimento de entrega de doces hoje?” E a resposta era sempre e invariavelmente a mesma: “Que nada!”

Houve uma exceção. O empregado do prédio disse que tinha visto uma mulher distribuindo doces ali perto. Mas não era muito e havia poucas crianças em volta. Foi tudo bem rápido…

Uma moça da padaria que frequentava disse triste que as coisas não eram mais como antigamente. Já nada dos doces e brinquedos distribuídos para a criançada da comunidade… “Tudo está muito violento! Muito tiroteio… A distribuição de doces pode, também, ser pretexto para passar drogas, ou até para sequestro de crianças!”- completou.

Uma faxineira que conhecia, cumprimentando-a na calçada, acrescentou às observações de violência uma questão, surpreendente, de cunho religioso… “Ah! Tem muita gente que diz que é coisa de macumba, que não agrada a Deus, e, por isso, não deixa mais os filhos pegarem nem comerem os doces!”- arrematou lamentosa.

“Que coisa!…”, pensou Ana Patrícia. “Era uma brincadeira tão inocente… E que falta de respeito com a fé alheia. Duvido que Deus se aborreça com isso…” – concluiu para si.

Ana parou pensativa numa praça no caminho de volta. “O que estava acontecendo? Cadê o docinho que estava aqui????” Repassou o que viu no seu trajeto: os passos apressados, a indiferença, os olhos vidrados nas telas dos celulares, o trânsito intenso… Depois, refletiu sobre o que tinha ouvido: violência, intransigência, desinteresse por algo que era uma tradição popular e fazia a alegria descompromissada de tanta meninada…

“É… os tempos mudam! Nada é para sempre. A cultura é dinâmica e novos conceitos, modos de pensar e pressões cotidianas têm uma grande força transformadora…”- pensou, dando um suspiro e preparando-se para voltar para casa.

Cadê o docinho que estava aqui? Definitivamente, não tinha sido o gato que comeu!!!!

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