Opinião

Uma força que se reinventa… apesar de nós (Por que não nos juntamos a ela?)

Por: Cristina Vergnano

Como é grande e bonita a natureza…

(Sivuca e Glória Gadelha)

No finalzinho de novembro de 2019, fomos pegar o carro que tinha ficado quase todo o mês estacionado num larguinho na rua vizinha, para ir à minha sogra. Como os prédios nesse entorno, inclusive o nosso, são muito antigos, a maioria não tem garagem. Então, o jeito é deixar os veículos na rua mesmo. E, já que as vagas são disputadíssimas, não usar o carro, exceto em caso de real necessidade ou viagem, passa a ser o nosso padrão. E nem chega a ser um problema, pois o bairro é bem servido de muitas facilidades. Além do mais, andar a pé, tomar metrô ou outro transporte público é até bom e saudável.

Bem, voltando ao tópico inicial, a rua é asfaltada, embora haja uns buracos, fendas e desníveis aqui e ali. Sendo assim, o mais comum é ver vegetação apenas nos canteiros das calçadas, na pracinha ou nas janelas e varandas dos edifícios. Por isso mesmo, foi uma surpresa gratificante descobrir esse matinho da foto brotando em meio ao asfalto, quase sob nosso carro parado há tanto tempo.

Reparem que não havia ali nenhuma fresta, nem rachadura. A plantinha tinha crescido num montinho de terra, poeira e folhas secas que estavam acumuladas naquele lugar. Como houve umas chuvas bem fortes, que arrastaram alguns detritos e os acumularam nos desníveis do asfalto e o carro tinha ficado paradinho, sem passar com seus pneus sobre possíveis brotos, a natureza achou por bem aproveitar a ocasião. Alguma terra, umas sementes trazidas pelo vento ou por pássaros, algo de sombra, algo de água, o sol moderado de uma primavera cheia de outono e inverno até aquele momento e… “aí está!”: vida florescendo desavergonhadamente, com direito a incipientes florezinhas (bem miúdas mesmo!).

Isso me leva a refletir… Ouvimos tanto sobre a destruição e devastação do planeta pela ação do homem… (o que é pura verdade.) Mas, ao observar o poder da natureza de rebelar-se, resistir e reinventar-se, fico imaginando se algum dia de fato conseguiremos matar definitivamente nosso lar comum. Quem já não viu, aqui no Rio de Janeiro, brotos rompendo brechas em edificações, lançando raízes nas construções e folhas ao ar, numa teimosa insistência em contrapor natureza e cultura de aço e concreto? Sempre olho maravilhada esse milagre. Penso tanto na fragilidade dos prédios e calçadas, que serão inevitavelmente rompidos pela força das plantas em crescimento se nada fizermos a respeito, quanto na beleza da vida, insinuando-se em meio à obra inanimada do ser humano.

Essas reflexões me fizeram lembrar de um documentário, “O mundo sem ninguém”, sobre o qual, infelizmente, não consigo recordar em que emissora de televisão foi veiculado, ou que produtora o realizou. Podem ser achados, contudo, vídeos dele na internet e vários artigos em diferentes blogs tratando do tema. Não parece restar dúvidas, após assistir o documentário, de que, depois de alguns poucos meses ou anos, nossas pegadas começariam a desaparecer e, com o tempo justo, ninguém teria qualquer prova de nossa existência. Chega a ser deprimente!

Mas o que mais me surpreende são os comentários daqueles que veem os vídeos ou leem os artigos nos blogs. Falam que o ser humano é a pior das pragas. O detalhe é que o dizem em terceira pessoa, como se eles próprios não fossem humanos e não fizessem parte dessa raça de praga. É de fato impressionante!!!! Não há uma “humanidade” que não nos inclua, a todos e a cada um de nós. Então, todos somos corresponsáveis, com gestos maiores ou menores, pela degradação que tanto execramos

Um dos fatores, na minha avaliação, que contribuem para isso é a cultura econômica que nos convence a comprar sem parar. De que “ter é preciso, ser não é preciso”, parafraseando Fernando Pessoa. Se formos sinceros conosco, vamos concluir que não precisamos de pelo menos metade do que temos para viver dignamente e felizes. Mas os argumentos são muitos em contrário.  “Se podemos, por que não adquirir bens? Afinal, não estamos roubando ninguém! ” “Se ninguém comprar, a economia ruirá e haverá miséria, com o desemprego em massa.” “Eu compro, mas não fabrico. As coisas já estão aí mesmo!…”

A questão é que, como se disse na série de fantasia Once upon a time, “a magia sempre tem um preço” e nossas ações reais também. Não existe produção de bens ou comodidades que sejam isentas de impacto ambiental (mesmo as mais ecológicas). A ação do ser humano incide sobre e altera a natureza sempre. O detalhe é avaliar em que grau e escolher a opção mais ecológica, menos daninha. Um bom exemplo dessa responsabilidade pela destruição é um episódio do desenho animado Capitão Planeta. (Se conseguirem achá-lo por aí na rede, sugiro que o vejam, principalmente com suas crianças. Vale muito a pena!). Nele, um agente do mal (sempre há um inimigo externo a nós, gente comum) seduz uma cidade com uma máquina que pode lhes dar tudo o que desejarem. Uma verdadeira lâmpada de Aladim. O problema é que, e um dos moradores o descobre, para isso, os recursos em volta da localidade estavam sendo dilapidados numa velocidade inacreditável, transformando tudo num enorme deserto devastado. Pois é… Cada novo celular mais moderno, cada computador, cada carro, cada sapato ou roupa tem um preço, cobrado pela natureza num primeiro momento, mas que, a seu tempo, será pago por nós, que coabitamos a Terra, nosso lar comum.

Por isso tudo, surpreendem-me a ingenuidade e os arroubos dos comentaristas de blogs e vídeos sobre o desaparecimento da humanidade e a supremacia da natureza. Eles também são responsáveis, logo, também são a praga que criticam e acusam.

Se penso assim, por que, então, decidi escrever sobre isso e enaltecer a plantinha arrojada que nasceu sobre escombros trazidos pelo vento e a chuva em meio ao asfalto? Eu também consumo, não é?! Porque acho que a vida é um milagre maravilhoso e nós fazemos parte dele. A plantinha não é uma acusação; é um doce canto de esperança e uma lição silenciosa. Realmente, temos dilapidado nosso planeta e corremos o risco, como bem o anteveem os livros e filmes distópicos pós-apocalípticos de ficção científica, ou denunciam cientistas e ecologistas, de perdê-lo e perdermo-nos para sempre. Mas somos parte da cadeia da vida e do planeta. Só precisamos convencermo-nos disso e começar a buscar formas de entrar em harmonia com toda a natureza e o cosmo. Se o fizermos, a tal plantinha já nos mostrou que reverter o mal é possível. Basta que ponhamos mãos à obra! Nossa transformação do entorno é uma das maravilhas de nossa capacidade criadora.  Sendo assim, não precisamos abrir mão dela. Só precisamos descobrir e trilhar os caminhos da conciliação responsável entre cultura e natureza.

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