Direitos e limites: a internet e a nossa criticidade quanto à intolerância e ao respeito aos demais

Por: Cristina Vergnano

No dia 1 de fevereiro, recebi um e-mail com uma lista de tuítes. Diariamente recebo uma mensagem dessas, como newsletter, com possíveis perfis de meu interesse, para segui-los se for o caso. Até agora, não me animei a seguir qualquer um deles, mas sempre dou uma espiada, principalmente naqueles que trazem matérias de divulgação científica.

Com frequência, aparece algum tuíte que eu classificaria como “fofoca sobre pessoas com destaque social” (artistas, músicos, políticos etc), mas dificilmente me interessam. Acontece que, mesmo nesses casos, às vezes, algo me chama a atenção e eu acabo dando uma espiadinha.

Foi o que ocorreu nesse sábado passado. E nem sei por quê!!!! Talvez fosse a referência à nova secretária da cultura, Regina Duarte, ou a curiosidade em saber que recado Carolina Ferraz enviava a ela. Mas, seja lá por qual motivo tenha sido, cliquei no link e fui para a página que me possibilitou ouvir o recado em áudio.

Bem, quem tiver interesse, deve encontrá-lo com certa facilidade na rede. Esclareço apenas, brevemente, que Carolina, de forma polida, embora incisiva, pediu que Regina não veiculasse sua imagem em seu Instagran. A justificativa?… Ela não era partidária do presidente Bolsonaro e não gostaria que sua imagem ali presente desse a entender um apoio político de sua parte.

Não quero discutir a posição de nenhuma das duas. Independentemente de minha opinião pessoal, reconheço que, por mais difíceis que certos posicionamentos ideológicos sejam, cada pessoa tem o direito, concedido pela liberdade democrática, de assumir a crença que lhe pareça mais adequada e correta. Claro que também precisará assumir as consequências advindas de sua opção! Mas isso é outra questão que deixaremos para a história e seus autores, relatores e divulgadores.

Prefiro lançar minha lente de aumento sobre um aspecto que talvez passe despercebido da maioria das pessoas: os comentários de quem vê uma postagem. É muito interessante lê-los e analisá-los. Abrem-se para uma gama variada de visões e leituras da postagem motivadora, embora, alguns sequer sigam por aí e assumam o espaço de tribuna particular para quem comenta (fugindo mesmo ao tema em pauta).

Com o advento da internet 2.0, tudo se tornou mais interativo. Já não apenas recebemos dados estáticos ali postados por alguém, alguma autoridade… Somos também autores, divulgadores, formadores de opinião (não é isso que muitos se arvoram em ser?!?), críticos… e policiais, júri, juízes (infelizmente). É fácil publicar. E todos temos uma chance de cavar nosso lugar ao sol (ou à sombra), nosso pedacinho de fama, por assim dizer. Mesmo sendo apenas uma em milhões, nossa voz não precisa mais calar ou soar tímida num cantinho oculto. Bradamos aos ventos virtuais e milhões podem nos ler, ouvir, ver, comentar, curtir, seguir. Deixamos de ser anônimos, ainda que nenhum desses interlocutores nos conheça para além do perfil virtual que postamos.

Pois bem… Talvez seja por essa facilidade, ou porque, na verdade, nosso contato com os demais é apenas um monte de bites e bytes imateriais, circulando num espaço impreciso, efêmero, mutante e mutável, que observamos uma certa falta de cortesia (para ser sutil e delicada) nos comentários da rede. É bastante comum que comentadores se agridam, usem palavrões ou adjetivos grosseiros para se referir tanto a outros comentadores quanto a quem fez a postagem original. É como se o objeto de nossa ofensa não fosse uma pessoa real, passível de ser ferida ou desrespeitada. Também parece ser que há uma crença não dita de que o que falamos nesse meio não tem consequências ou implicações.

Até onde vão nossos direitos enquanto usuários da internet 2.0? Quais são os limites que não devemos nem podemos cruzar? Não estou pregando uma censura externa ao que pode ser veiculado. Estou, isso sim, defendendo ardentemente a nossa autocensura, o bom senso que nos mostra que toda a liberdade libertina voltada aos demais é agressão, invasão dos direitos do outro. Portanto, não pode ser cultivada, nem praticada, aceita ou mesmo cultuada.

O que significam essas minhas últimas afirmações? Que considero que estamos perdendo nossa humanidade. Rendendo-nos à uma existência etérea, incorpórea, irreal, que, por conseguinte, não poderia ser ferida e não requereria maiores cuidados éticos no relacionamento. Só que não!!!! Ainda somos pessoas, com uma existência física e psíquica. Temos sentimentos, fortalezas e fraquezas. Podemos ferir contundentemente e sermos feridos. E isso tudo não tem graça nenhuma, embora muitos façam piadas irreverentes da situação. A postura agressiva ante a opinião dos demais, que não se contenta em, ao expressar sua própria opinião contrária, oferecer críticas construtivas e contraposição de posicionamentos é uma forma de intolerância. Não sabe respeitar. Não consegue argumentar. Não é capaz de conviver e construir na diversidade.

E, na esteira dessa tendência, está outra forma de avanço dos limites. O que, aliás, foi o objeto da queixa de Carolina Ferraz. Trata-se dessa permissão que muitos se outorgam para divulgar, sem a delicadeza de pedir licença, fotos, voz, vídeos, frases, pensamentos, atos da vida e histórias dos outros. Que um queira expor-se (embora eu ache imprudente, para dizer o mínimo, ou até doentio em alguns casos), temos que respeitar. Está em seu direito. Talvez busque fama, talvez algum proveito, possivelmente, apenas afeto… Seja lá como for, pode fazê-lo, pois se trata de dar publicidade a si mesmo. Mas, quando o elemento tornado público se refere a outra pessoa, o ato, na minha avaliação, passa a ser abuso, invasão da privacidade, até mesmo roubo. Se isso ainda não é crime, ou contravenção, pelo menos será desrespeito ao direito alheio, uma total falta de posicionamento crítico e ético.

Sou favorável aos aspectos positivos das tecnologias digitais. Acredito que têm o potencial para aproximar pessoas, democratizar o conhecimento, dar voz aos que antes viviam condenados ao anonimato, divulgar diferentes formas de cultura. Se não fosse assim, não optaria por ter um blog e divulgar minhas ideias e criações. Mas creio, também, que nessas práticas digitais está faltando criticidade, sensibilidade e, principalmente, ética.

Que sejamos, então, capazes de nos expressarmos com liberdade, mas usando de justeza e respeito aos limites dos demais. Que consigamos desenvolver uma capacidade argumentativa limpa, coerente, lógica, sadia, tolerante, que saiba dialogar, respeitar e dar-se ao respeito. Nesse momento, a internet 2.0 será de fato a maravilha interativa que lhe atribuem e nós, mantendo nossa humanidade, estaremos mais próximos uns dos outros de fato (não apenas virtualmente).

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2 comentários em “Direitos e limites: a internet e a nossa criticidade quanto à intolerância e ao respeito aos demais

    • 07/02/2020 em 21:24
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      Fico muito contente que tenha gostado!!! 🙂
      A postagem do Twiter me chamou muito a atenção e, mais ainda, os comentários. Na verdade, creio que ainda não aprendemos a fazer um uso plenamente correto da internet. E, como tudo o que o ser humano cria, tem potencial enorme tanto para coisas positivas, quanto para as negativas. Por isso desenvolver criticidade e ética é tão vital.
      Espero que você possa continuar curtindo os artigos. Sinta-se livre para comentar sempre. Críticas também são bem-vindas, pois ajudam a aperfeiçoar temas e textos.

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