Prevenir o suicídio requer solidariedade, cuidado e ações… para além do setembro amarelo!

Por: Cristina Vergnano

Eu tinha planejado escrever sobre o “Setembro amarelo” há várias semanas, aproveitando a ocasião e a campanha. Como não foi possível, compartilho com vocês reflexões para fechar o mês e fomentar a relevância da discussão e de ações permanentes sobre o tema. Vamos lá, então!

Dia 10 de setembro foi (e é anualmente) o “Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio”. Aqui no Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria junto com o Conselho Federal de Medicina instituíram, desde 2014, a campanha “Setembro Amarelo”. Ela, mesmo com a ênfase neste mês, desenvolve-se ao longo de todo o ano. E, em 2020, adotou o lema: “É preciso agir!”

Tal campanha se trata de uma iniciativa que podemos considerar como educacional, no sentido de procurar esclarecer profissionais de saúde, doentes, familiares e sociedade a respeito do que está por trás do ato final do suicídio e/ou de suas tentativas. No site são disponibilizados vários documentos os quais esclarecem e orientam a respeito: a Cartilha Suicídio: Informando para prevenir; as diretrizes para a divulgação e participação da campanha; logo da campanha; panfleto e cartaz; modelo de camisa; folheto; carta aos pais, educadores e responsáveis etc.

O suicídio é uma prática que existe em todo o mundo. Em cada sociedade adquire um caráter e um sentido distintos. Mas, excluindo talvez aqueles casos em que se suicidar é culturalmente aceitável e natural, o ato deliberado de tirar a própria vida está associado a uma série de circunstâncias envolvendo morbidades, situações traumáticas, uso de álcool e de outras substâncias tóxicas e viciantes. Sua incidência vem aumentando, em especial entre jovens e idosos. O Brasil é o 8º país em números absolutos no hanking de suicídios, sendo esta a terceira causa das mortes entre jovens.

Os fatores de risco para o suicídio são: as tentativas pré-existentes de cometê-lo; doenças mentais, incluída aqui a depressão; o uso de drogas e os sentimentos de desesperança, desespero e desamparo. O suicida está submetido a três sentimentos, em termos de seu funcionamento mental. A sua percepção distorcida da realidade, a avaliação negativa de si, do mundo e do futuro, com um medo irracional e preocupação excessiva, o levam a perceber-se como: (1) sofrendo uma situação intolerável, (2) da qual não pode escapar e (3) que não tem fim. Esse “buraco negro” ou “poço sem fundo” envolve o doente levando-o, num ímpeto ou desespero, à ação de tentar ou, de fato, tirar a própria vida.

Não é, necessariamente, contudo, uma condição que dure muito. O que quero dizer com isso?!? Que a crise a qual leva ao suicídio pode ser algo de um breve momento. Uma ajuda oportuna oferecida poderia contribuir para evitar o ato fatal. Ainda assim, a questão não pode ser tomada de forma leviana, como uma situação passageira, ou como se o falar a respeito de matar-se indicasse que a ação não seria levada a cabo, por exemplo. E o fato de ignorar-se os “fatores disparadores”, de não se tratar as causas, só complica o cenário e promove o aumento da incidência de suicídio. Por isso, apoio, acompanhamento e tratamento são imprescindíveis. E não apenas cabem ações do sistema de saúde, mas de escolas, de igrejas, de iniciativas governamentais no planejamento das cidades, da promoção de campanhas preventivas e educativas com uso estratégico das mídias. É muito importante que o assunto seja discutido, que tabus sejam desconstruídos e a prevenção seja facilitada.

E as pessoas podem e querem sensibilizar-se. No início deste setembro, um vídeo com as pequenas Celine e Bettina viralizou nas redes sociais. Elas, com seu encanto, tocaram corações e (esperamos!) contribuíram para mover a sociedade a pensar a respeito do problema, buscar soluções, abrindo-se, ao mesmo tempo, àqueles que precisam de nosso auxílio, compreensão e suporte. Da mesma forma, iniciativas podem ser encontradas em diferentes instituições visando à prevenção ao suicídio, como, por exemplo, o PRODIN da Uerj.

Não sou especialista no assunto. Na verdade, nem pertenço à área de saúde e minha atuação no âmbito educacional não esteve relacionada ao tema. Por isso mesmo, achei que seria bastante rico entrar em contato com algumas psicólogas e fazer-lhes 3 perguntas que nos ajudassem a problematizar a questão. Duas se prontificaram a dar suas perspectivas a respeito: Daisy Martins e Carla Portugal, ambas do Rio de Janeiro. Trago, portanto, as questões:

  1. O ser humano tem um grande instinto de autopreservação, ao menos é o que supomos no senso comum. Ainda assim, as taxas de suicídio crescem em todo o mundo. Mas o tema não costuma ser abordado com frequência e ainda envolve muito preconceito e desinformação. O que lhe parece mais importante trabalhar na sociedade para entender o problema e ajudar a resolvê-lo?
  2. Qual a relevância de campanhas como a “Setembro Amarelo” para a prevenção e tratamento dos fatores de risco para o suicídio?
  3. O que você destacaria sobre o tema como aspecto importante para a vítima e para aqueles que com ela se relacionam? O que gostaria de acrescentar a respeito?

Com relação ao instinto de autopreservação versus suicídio e a relevância da sociedade nesse quadro, ambas as psicólogas, embora de modos distintos, indicam que o trabalho não é pontual nem momentâneo. Trata-se de esforços longos, lentos, demandando reflexão, estudo e consciência de si, dos demais e da vida ao redor. Em suas respostas, dois aspectos chamaram minha atenção.

O primeiro, trazido por Carla, é que o sofrimento da alma é algo inerente a nós, seres humanos, mas nem sempre é aceito como tal. Também que, como nossa sociedade “celebra o descarte”, não costuma escutar o outro nem “compreender a sua desesperança”. Destaca, ainda, que a pessoa nesse contexto, desesperançada, vive uma “ausência de si” e não consegue “lidar com as demandas que o horizonte histórico que a cerca solicita”. Pontua, contudo, que tais demandas são “cobranças da própria pessoa que, por estar com dificuldade de dar sentido ao que está vivenciando, apresenta carência de expressar seus sentimentos, suas vontades, seu propósito de vida.”

O segundo aspecto, apresentado por Daisy, cuja resposta ressalta também a relação entre suicídio e sentido da existência, chama a atenção para a importância de cultivar “a vivência de valores” ao longo de toda a vida. Mais ainda, conforme sua colocação, “é preciso desenvolver o que somos – seres de relação. (…) Quanto mais nos isolamos e nos desagregamos, mais o sentido da vida se perde e com ele o instinto de sobrevivência.” Afinal, “se a vida fica sem sentido, por que lutar para sobreviver ao nada?”

Outro ponto que me pareceu, igualmente, relevante foi sua advertência sobre “ficar falando sobre suicídio e tentar catalogar as pessoas”. Na verdade, o que pode parecer uma contramão ao estímulo das campanhas para abordar explicitamente o tema é um alerta sobre o perigo de que tais ênfases possam acabar tendo “sentido até inverso, dependendo de quem vê ou ouve.” Esse trabalho cuidadoso e lento, necessário para ajudar as pessoas que sofrem as consequências do isolamento e perda do sentido da vida, em sua opinião, é muito “difícil de ser implementado num mundo que vive correndo e apostando na propaganda como algo eficaz.”

A pergunta dois remete especificamente à campanha e a outras iniciativas semelhantes. Concordo com o cuidado necessário ao enfocar o tema, destacado no parágrafo anterior. Ainda assim, é sempre bom ter em mente, como destaca Carla, que as campanhas descortinam “uma possibilidade de falar sobre um sintoma que está oculto por muitas pessoas na sociedade; falando que se abrem as possibilidades de cura.” Em última análise, sempre é válido buscar formas de sensibilizar a população e auxiliar a quem precisa. No entanto, e a nova advertência vem de Daisy, cabe estarmos atentos para que as ações não virem “idolatria e não seja(m) apenas para movimentar dinheiro em projetos e mais projetos”, sem o retorno e o cuidado humano devidos. Uma sugestão adicional que esta nos dá é que se monitorem “certos jogos infantis e juvenis que estimulam essa prática.”

Finalizando, Daisy nos leva a associar toda a problemática a um posicionamento educacional, convidando a investir numa educação como sinônimo de formação “(não de instrução)”, desde o início da vida. Comenta que, na atualidade, há uma grande preocupação de que as crianças tenham tudo, sem necessidade de esforço, sem colaborar com a rotina familiar e caseira. Também ressalta que “não podem ser contrariadas e, assim, ficam sem nenhuma resistência à frustração.” Junta a isso, uma ausência de autocrítica e a tendência a “criticar e denunciar tudo, sem se inserir como responsável.” Ilustra tal questão da fragilidade que a falta de esforço nos impõe com a fábula da borboleta, mostrando como as dificuldades podem nos ajudar a crescer.

O suicídio é mesmo uma realidade preocupante, séria e triste. Acima de tudo, requer de todos nós compreensão, apoio, compaixão, solidariedade, amor para com aqueles que sofrem as angústias dessa (digamos) “falta de propósito”. No entanto, um alerta importante fica: as ações para minimizar o problema devem envolver uma mudança de paradigma e atitudes educativas voltadas ao aprendizado de enfrentamento dos obstáculos tão normais na existência humana. Não estamos sós. Precisamos desenvolver autoconsciência, autocrítica e viver em comunidade, cultivando relacionamentos, dando sentido à vida.

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