Houve uma vez um fantoche

Por: Cristina Vergnano

Acho que nunca vou esquecer inteiramente aquela visita à casa da amiga da mamãe e sua marca, em parte sutil, em parte bizarra. Eu devia ter o quê… uns 8 ou 9 anos? Creio que sim. A senhora morava em Jacarepaguá. A casa e o terreno eram grandes, quase uma chácara urbana, com móveis e coisas antigas, imponentes, de madeira escura. Minha irmã e eu corríamos pelo quintal cheio de árvores e pelas salas, brincando animadas, enquanto os adultos conversavam. De repente, fui atraída por uns fantoches de papel machê, alinhados sobre uma cristaleira.

Desde que me lembro, adoro fantoches e contar histórias. Que mágico seria, então, brincar com aqueles bonecos! Que maravilha poder ficar com algum deles! Como qualquer criança, portanto, comecei a chamar atenção para os brinquedos e a expressar com insistência meu desejo de tê-los.

Os olhares dos meus pais foram agudos e avisavam em silêncio sobre a inconveniência da minha atitude. A amiga, contudo, sorriu condescendente. Ela própria tinha criado os fantoches e pareceu feliz com a ideia de tirá-los do seu repouso solitário, permitindo que voltassem à vida. Apanhou-os e nos deu para brincarmos.

Durante o resto da visita, minha irmã e eu nos divertimos com eles, inventamos mil histórias. À noitinha, depois do lanche, nos despedimos para voltar para casa. Foi quando fiz ar de decepção, encarando os brinquedos, e tudo começou.

Meus pais voltaram àquela advertência muda, como quem manda, sem mandar, devolver os objetos que não eram meus. Fiz um gesto tímido em direção à dona da casa, não querendo me desfazer da novidade. Ela, porém, era bastante perspicaz. Logo se deu conta do meu desejo intenso, voltou a sorrir e disse à minha mãe que ficaria contente em me dar um dos fantoches. Afinal, eles tinham sido feitos para atuar e estavam ali sobre a cristaleira parados, pegando pó. Ofereceu-me, assim, o homem narigudo de cartola preta.

 Diante dos argumentos dela, o presente foi consentido e aceito com gosto. Dirigimo-nos ao carro e descemos a serra. Em casa, nos preparamos para dormir e o homem fantoche foi descansar sobre a cômoda do quarto ao lado de outros títeres que eu já tinha.  Ficou ali, virado para nossas camas.

Minha irmã dormiu logo. Eu, no entanto, não consegui. O escuro mudou as feições amigáveis do boneco. O que antes tinha sido festa, se tornou um incômodo que, paulatinamente, se ia transformando em pavor. Na verdade, pensando bem a respeito, ainda no carro, eu tinha começado a sentir um certo enjoo característico dos meus ataques de nervosismo. Uma acusação muda sobre meu mau comportamento flutuava no ar, mesmo que meus pai e mãe não tenham feito qualquer menção ao ocorrido e estivessem conversando sobre coisas bem diferentes e alegres.

Olhei na penumbra para aquela cara, a qual nunca havia sido, de fato, bonita, mas, a partir daquele momento, aparecia em toda a sua deformidade, cheia de asperezas, cores berrantes e formas sinistras. Notei imediatamente: ele cochichava algo ao ouvido dos demais bonecos, às vezes se voltando para mim e lançando um riso debochado. Não entendia nenhuma palavra do que dizia, porém nem faria diferença: a ameaça estava clara. Cobri, então, a cabeça com as cobertas, tremi de náuseas e tive uma noite de pesadelos.

No dia seguinte, a impressão me perseguiu. Não podia olhar para o fantoche sem me sentir enjoada. Tentava me convencer de que estava tudo normal e até experimentei brincar com ele, pra fazer as pazes. Já não era, contudo, possível.

Todas as noites ele presidia as mesmas reuniões, cada vez com mais brinquedos e sempre com seus modos sinistros. Minha irmã continuava alheia à trama e eu preferi deixá-la assim. Mesmo porque, a cutuquei várias vezes naquelas ocasiões, sem conseguir sua atenção. Em algumas ocasiões, arrastei-me chorosa para o quarto dos meus pais, sem coragem de lhes contar a verdade. Recebia afagos para afastar os supostos pesadelos, dormia entre eles, mas, pela manhã, acordava na minha cama, com a figura do homem de cartola me encarando.

Da cômoda eu o exilei para uma caixa. Ainda assim, podia perceber a tampa sacolejando quando a observava. Havia, também, uns ruídos baixos e agudos, como de arranhões, se alternando com sussurros incompreensíveis. Eu andava pela casa, dando pulos por qualquer coisinha. Só escondê-lo não estava sendo suficiente. Contar para a mamãe, nem pensar. Tampouco havia forma de devolvê-lo, ou de jogá-lo fora. Ah, angústia!

Meses mais tarde, em meio a toda essa tensão, foi nossa vez de recebermos visitas. Um casal amigo dos meus pais veio num fim de semana com o filho, mais ou menos da minha idade. O garoto era insuportável: abelhudo, folgado e arrogante. Instigados por minha mãe, fomos os três para o quarto, ele, minha irmã e eu, e pegamos a caixa de brinquedos. Lá do fundo, o menino tirou o tal fantoche, que me encarou com sua cara maliciosa e cruel.

A brincadeira não foi das mais agradáveis, tanto pelo comportamento do pestinha, quanto pela presença incômoda da minha nêmese de papel machê. Eu me contorcia, me agitava, suava nas mãos, fazia caras e bocas, perdia a paciência à toa. De repente, uma ideia luminosa pulou da minha cabeça quando vi o moleque agarrado ao boneco de cartola. Ele o queria para si. Eu conhecia bem aquele olhar…

Imediatamente, opus certa resistência. Era preciso intensificar o desejo teimoso no menino, para ele não acatar a ordem dos pais e desistir do brinquedo. Mas não fui excessivamente categórica, a fim de não dar força aos adultos visitantes e frustrar meu plano. No final, eu mesma cedi, fazendo beicinho e entregando o brinquedo nas mãos do garoto. Senti um arrepio quando o homem de cartola, apoiado no ombro de seu novo dono que saia pela porta, se voltou para mim, sorrindo e esfregando as mãos de feltro.

Afastado o objeto do horror, meus enjoos passaram e a vida seguiu seu rumo. Bem, quase sempre, pois quando a lembrança surgia, reavivava aquela sensação bizarra, escondida no fundo da memória, e trazia à tona o riso de despedida do encartolado. Então, eu ficava imaginando…



Nota da autora:

Este conto foi um dos 10 selecionados na “categoria prosa” do Prêmio Arte e Literatura USP60+, edição 2021. Parte dele foi lida no sarau do Prêmio, no dia 14 de dezembro de 2021, via Google Mett, transmitido ao público pelo canal do YouTube do programa USP 60+. Este foi o meu primeiro prêmio literário.

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