Sobre vitrola e montanha russa

Por: Cristina Vergnano

Minha prima veio passar a tarde comigo. Seria perfeito, se o dia não tivesse começado com briga. Escondido no quarto, ouvi a voz do pai, uns ruídos e a porta batida com força. Saí quando tudo acabou e vi o rosto triste da mãe, sem o habitual beijo de despedida. Logo, porém, me esqueci do ocorrido no meio da farra.

Apesar de menina, a prima era ótima companheira. Alternamos entre desenhos, gibis, TV, autorama, queimado, bicicleta e, após o lanche, decidimos dançar. Peguei o disco mais novo, bem dançante e agitado, e corri pra vitrola. Esperava encantar a Pat com o aparelho, no entanto, nada aconteceu.

— Cadê o som? O que foi que eu fiz??? O pai vai ficar uma fera!

Fizemos outras coisas depois, mas o medo estragou toda a brincadeira. À noitinha, ela foi embora e eu comecei com meus enjoos: já esperava pelos gritos e, talvez, algum castigo.

O pai voltou cedo. Não tinha feito serão?!? (E eu que esperava estar dormindo quando ele chegasse!) Estava sorridente. Trouxe uma caixa de mil-folhas pra mãe. Jantamos, eu pensando em como falar da vitrola.

Na hora de ir pra cama, me aproximei ressabiado, torcendo pro bom humor dele não terminar rápido como tinha vindo.

— Pai, sabe? Aconteceu um negócio hoje, quando eu estava com a Pat…

— Você não magoou a sua prima, não é, Rodolfo?

— Não, nunca! A gente curtiu bastante, até que…

— Até quê?

— Bem… a gente foi ouvir música e a vitrola ficou muda, muda! Desculpe.

— Ah, isso? Bobagem! Ela estava com defeito. Não comentei com vocês? No fim de semana eu conserto. Deve ser a agulha. Durma com Deus, filho.

No caminho pro quarto, respirei aliviado. Depois do tumulto da manhã, quem diria? Meu pai é mesmo uma montanha russa!

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