Lei de Murphy Publicado em 09/07/2024 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano Sexta-feira, cinco e meia da tarde, saída do trabalho no centro da cidade. Adamastor (que odeia esse nome sem noção imposto por seu pai) entrou no ônibus com as mãos carregadas. Tinha passado no mercado depois do serviço. Maldito ar-condicionado! Hoje, que nem tá quente, colocaram na toda. Vou acabar pegando um resfriado e já era meu programa de sábado. Mas, daqui a pouco, vou sentir calor. Isso aqui tá ficando cheio e aposto: o ar vai pifar quando a gente nem puder se mexer. O rapaz, com azedume maior do que o habitual, se equilibrava precariamente numa condução a cada minuto mais lotada. A sorte (ou, talvez, azar, dependendo do ponto de vista) era o engarrafamento, pois o ônibus mal se movia. Então, não se requeria grande esforço para se manter de pé, sem deixar cair as sacolas ou a si mesmo. Cara, você viu de manhã a notícia na tevê? Qual delas? A que vai faltar luz no nosso bairro a partir das dezenove, não sei por que motivo. E quanto tempo vai durar? Sei lá! Coisa mais besta, escolher uma sexta à noite pra cortar a luz. Isso deve ser treino pra algum desastre, desses de filme catástrofe. Tu é besta, mané! De onde tira essas ideias? Ai, budega, tinha me esquecido disso! Eu aqui com esse monte de compras e o ônibus devagar-parando-parado. Tenho que chegar antes das sete. Quem mandou alugar um cubículo naquele espigão novo de quinze andares, justo no décimo-quarto. Tô ferrado se chegar e não tiver energia. A condução deu um solavanco. O povo sofreu a ação da inércia e foi-se espremendo, primeiro para trás, em seguida para frente, ao som de xingamentos e gritos de dor. Ô, motorista incompetente, não vê que a gente nem consegue se segurar? Comprou a carteira, é? O Adamastor também gritava, mas era por dentro, incomodado com a cusparada do passageiro ao lado, tentando em vão olhar de rabo de olho o relógio e adivinhar a hora, sem deixar cair nenhum item das suas bolsas. O suor começava a escorrer, não se sabe se do nervoso ou do calor. Por fim, chegou no seu ponto. Pediu que tocassem o sinal para ele e desceu aos tropeções. Ainda precisaria subir toda a rua, uma ladeira razoável. Os minutos voavam, porém, a luz continuava acesa. Cadê a porcaria da chave? Entra desgraçada. Dezoito e cinquenta e nove. Vai dar? Tem que dar! Parece que foi alarme falso. Ufa, enfim o elevador. Dezenove horas e ainda tem luz, que bom, era fake mesmo. Deixa eu apoiar essa tranqueira aqui no chão, botão do 14º, ap, banho, cerva gelada, ligar pra Shirlene, vai dar certo, sextou, o fim de semana começa bem. Seu pensamento for interrompido, subitamente, às dezenove e um, entre o terceiro e o quarto andares. Putz, cadê a droga dessa luz? Visualizações: 70 Compartilhe! Narrativas breves cotidiano cruelironiasufoco
Homicídio culposo Publicado em 30/04/202130/04/2021 Por: Cristina Vergnano Os gêmeos distavam tanto em crenças, quanto se igualavam em aspecto. Um se permitia excessos. O outro gabava-se de sua comida saudável. Um dia, aquele teve um sobressalto. O irmão havia sido encontrado morto em casa! Abatido, quis detalhes. Causa mortis: falência cardíaca; envenenado por glifosato. Visualizações:… Compartilhe! Leia mais
Série metamorfoseando o dia a dia – 1. Cotidiano Publicado em 11/03/202211/03/2022 Por: Cristina Vergnano Acordou sobressaltada em meio a um sonho bom. Confusa e cansada, deu-se conta do despertador. Esticou o braço para golpeá-lo com fúria. Gesto inútil, pois esse continuou tocando, alimentando seu mau humor. Insistia, aliás, sempre, até que ela se levantasse e entrasse no jogo. Karma cotidiano: quilos… Compartilhe! Leia mais
SÉRIE: GLOSSÁRIO IMPROVÁVEL (1) Publicado em 25/11/202225/11/2022 Por: Cristina Vergnano Letra A ABRAÇO– s.m. (etim. Termo derivado de “a” + “braço”, parte do corpo necessária para torná-lo concreto, ainda que, de fato, o ato só se possa efetivar com a colaboração de ambos os membros superiores. A etimologia é duvidosa quanto ao uso da vogal inicial “a”…. Compartilhe! Leia mais