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No recreio

Publicado em 05/03/2022 Por Cristina Vergnano

Por: Rodrigo R. Mansor

— Tá faltando cinquenta centavos aqui…

Os risinhos que ouvi por trás de mim, mesmo que não fossem sobre mim, me deixaram constrangido. Não olhei de quem eram, para não me sentir ainda pior. Queria fugir dali depressa: vermelho como um pimentão, devolvi o lanche e o suco. Tentei sair da fila sem me virar, mas minha vergonha virou irritação quando senti uma mão tocar o meu ombro. Ela não tinha força, mas firmeza.

— Eu completo para você!

Aquela desconhecida voz feminina, por mais baixa que tenha sido, provocou mais risos, agora claramente discriminatórios e dirigidos a mim. Fechei os olhos, acreditando que eu pudesse ter o poder de me teletransportar dali. A garota que me impediu de sair da fila percebeu meu vacilo, tomou a nota que eu tinha nas mãos e, junto com uma moeda, entregou à tia da cantina.

Fui convidado a comer meu lanche ao lado da minha benfeitora. A todo momento, me pegava tentando não deter meus olhos sobre ela. Sempre que cogitava olhar a menina, eu desviava os olhos para a coxinha em minhas mãos – aquilo ainda me fazia corar, mas a comida não me encararia de volta: esperava pacientemente que eu a degustasse – teria sabor de humilhação, ou de novidade?

Comecei minha alimentação em silêncio. A cada mordida, eu pensava em criar coragem para puxar assunto – ou pelo menos perguntar o nome dela, já que nem isso eu sabia ainda –, mas, por mais que eu mastigasse de cabeça baixa e devagar, sempre que minha boca esvaziava, percebia que olhares curiosos, que a minha companheira rejeitava com um sorriso desafiador, estavam prontos para nos devorar. A situação deixava minha boca seca, e eu recorria a um gole do suco, seguido de uma nova mordida.

Eu mastigava lentamente – por mais constrangedor que fosse ter ao meu redor olho famintos por informação, queria estender o tempo com aquela nova companhia. Mesmo quando o sinal para o fim do recreio tocou, enrolei para dar fim no lanche. E ela ainda estava ali – parecia disposta a me esperar. Sorri tímido e comecei a morder pedaços cada vez menores.

Quando restou apenas a última pontinha do lanche e mais nenhum gole do suco, passei a língua pelos lábios e fiquei como um bobo admirando do restinho da comida. Minha nova amiga se levantaria para ir embora em silêncio quando aquele momento chegasse ao fim? Olhei para ela. Eu ainda sentia fome, mas nunca comi aquele último pedaço.

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