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O porre da pandemia

Publicado em 05/03/2022 Por Cristina Vergnano

Por: Rita Rodrioli

– Olha, seu caso é bem simples de se resolver. Socialização! Ou melhor, distração! Eu sei que estamos numa pandemia, sei que todo cuidado é pouco. Mas no seu caso, seria melhor sair um pouquinho. Comer ou beber algo, mesmo que seja sozinha, vai te ajudar muito. Se tiver uma companhia, ótimo. Mas se não tiver, ótimo também. Escolha a sua companhia, vista uma máscara e se divirta um pouco. Você está precisando!

Essas foram as palavras de quem entendia um pouco mais sobre viver e sobre pessoas do que eu – minha psic. Quando me despedia dela, recebi uma mensagem que estava para receber antes de a pandemia ferver no Brasil. Um colega chamando para comer. Fazia tanto tempo desde que nos falamos da última vez…valeria a pena responder? Um mar de confusão mental…

– Qual o problema com você? Acabei de receitar uma saidinha e você está negando resposta a um colega que deseja comer? Me poupe! Responde logo, o que há demais nisso? Aceite a comidinha. Ou melhor, o convite. Não é todo mundo que está recebendo convites como esse numa pandemia não. Você está sortuda! – disse a psicóloga, sorrindo sarcasticamente com o trocadilho que fez entre convite e comidinha. Ela é desse jeito, tem um riso meio sem vergonha que deixa a gente com vergonha, às vezes.

 Resolvi atender aos anseios da psic. e fui ver o que tinha para comer ou beber perto de casa. Nada! Tudo fechando muito cedo… Aliás, tudo fechado. Só delivery. E eu não curto o motoboy do delivery, nada contra quem gosta, nada contra motoboy, a música é engraçada, mas não me agrada. Também não me agradava chamar alguém para fazer algo, o medo de contaminar meus amigos e familiares era bem intenso.

Eu respondi meu colega pelo WhatsApp de forma bem normal, sem dramas, sem expectativas, só com um oi tudo bem sem pontuação porque o aplicativo permite isso. Já tínhamos marcado outras vezes e a comidinha não fora servida. E máscara… qual usar? Menina descolada? Garota sangue bom? Estampada? Moça de família? 3D, 3M ou cirúrgica simples? Piriguete? O melhor era ficar em casa mesmo e tentar meditar. Menos complicado. Meses sem sair de casa, não sabia nem que roupa vestir, nem que máscara escolher. Mas para comer, a roupa pouco importa, não é mesmo?! A psicóloga sempre me contamina com o sarcasmo dela por algumas horas após a consulta. Depois passa. O oi fora respondido de volta com um tudo e você sem pontuação também.

– Mensagem apagada. – era o comedor ansioso, nem esperou eu dizer se estava bem ou não.

Ele parecia que queria miojo como resposta, coisa instantânea, rápida. Eu detesto comida rápida. Responder rápido também não é meu forte, porque sempre procuro deixar o celular um pouco distante e quando vou responder a pessoa já esperou segundos demais.

– Mensagem Apagada. – ele outra vez e eu não respondi nada.

Eu já tinha esgotado os livros de receitas vegetarianas, veganas, alternativas, sem glúten, sem açúcar… Sim, porque ainda sou do tempo em que livro de receita não era canal do Youtube. Era livro de receita mesmo. Depois das mensagens recebidas apagadas, nem deu tempo de postar um Deus viu o que você apagou. Decidi hibernar in my house. O melhor era vestir a máscara de pessoa que medita e que está toda equilibrada e ficar em casa. Ommmmmm! A cada Ommmmm eu ficava me lembrando de coisas que já tinha feito antes da pandemia, algumas dignas de reprise, outras de desgosto. Depois, acenava mentalmente para coisas que eu queria fazer quando a pandemia acabasse. Meditando, pensei que eu nunca tinha tomado um porre na vida. Seria a minha chance? Sair sozinha às 19h num barzinho ali pertinho de casa, tomar um porre na calçada e em pé ou sentada na beira da praia fiscalizada e deserta até as 20h e chegar em casa às 20h10min. Plano mentalmente perfeito, virginianamente arquitetado e astrologicamente fora do padrão. Parece que meu poder mental era tão grande naquele momento que meu plano fora telepaticamente capturado pelo comedor ansioso.

– Te passo a pegar às 19h – ele de novo, mostrando seu portunhol sexy.

Respondi só com um tá bem, vamos beber vinho sem pontuação. A comida seria diferente hoje… resolvi jantar horas antes de sair. Meu objetivo era o porre. Ainda faltava muito para 19h e eu estava com fome como sempre. Jantei comida vegetariana qualquer. Tomei banho. Vesti máscara de moça comportada em crise na pandemia e às 19h eu estava no portão, com um pouco de fome já.

– Oi.

– Oi.

E ele desandou a falar. E eu que achava que só eu estava em crise na pandemia. Bem que a psicóloga me disse que seria importante eu sair de casa. A minha grama também era verde, eu é que não estava vendo. Antes de chegar ao restaurante para onde ele queria me levar para beber vinho, e não para comer, eu já estava de porre. Um porre de palavras em meio ao porre que estava a pandemia. Como eu sou boa ouvinte, melhor que falante, estava confortável, mas de porre. E eu também queria falar, queria deixá-lo de porre.

Naquela noite pandêmica, inicialmente sem contato físico, sem dois beijinhos na bochecha, sem pretensões, com muita máscara e com horário de recolher à meia-noite, recebemos um pó de piripimpim de alguma fada com um presente extra. Aceitamos de bom grado todo o pacote: uma tigela com algum pó mágico e uma garrafa com um líquido cor de uva bem madura. Ela podia ter aspergido álcool em gel sobre nós, só que não. Quis nos embebedar com álcool de vitis viníferas e nos pintar com pó de piripimpim. Um pouco fora de nós com aquele presente, sentimo-nos encorajados a pegar a flecha da mão de um cupido (indígena também usa flecha, né?! Mas pegamos a do cupido mesmo…) e poupar o tempo dele, para que lhe sobrasse hora de flechar em outra freguesia.  Flechamos um ao outro e não queríamos ali nem o cupido, nem a fada, nem a lua, nem o mar… queríamos estar só nós dois ali com o vinho e as taças. Mais ninguém. Mas para não parecermos tão antissociais, decidimos deixar o mar entrar.

– Você é nosso convidado especial, só você! – Àquela altura da noite, já estávamos a falar em voz alta com o mar. Parecia que nós dois queríamos agora deixar o mar de porre. Mas com o passar do vinho, o objetivo inicial passou a ser outro. Até o menu principal havia mudado. Bem que diziam que a pandemia veio para transformar tudo muito rápido.

Nós já estávamos nos braços de Baco. A cada gole um suspiro. A cada olhar um encantamento profundo. A cada pegada na haste um carinho que não se sentia no toque, mas que envelopava sutilmente a alma. A cada girada do bojo uma tonturinha da boa invadia o labirinto e, por alguns momentos, o corpo parecia entrar numa rotação própria que se descompassava do giro que a Terra dá ao redor de si mesma. O corpo de ambos era o mais puro e bruto cristal sem chumbo, recebendo vida através do vinho que fluía por todas as minúsculas sinuosidades internas. O coração? O coração passava bem, mas não acreditava que o corpo fosse merecedor de tanto desfrute. A mente? A mente passava mal, não sentia que poderia estar ali perdendo o compasso e a compostura. O corpo? O corpo todo ardia, queimava e enrubescia, queria estar ali, mas também queria estar em outro lugar para tentar acalmar o sangue e esperar os efeitos colaterais do vinho diminuírem com uma comidinha.

Os braços de Baco pareciam nos apertar ainda mais e o mais completo sentir do sangue era servido em copas, à beira do mar noturno e pandêmico! E era tanto o amar, que o mar sentia que trazia dentro de si tanto quanto podia caber, ou até mais. Sobejamente preenchido de calor e amor, o mar ia e vinha contra as pedras, ia e vinha compartilhando o amor que já transbordava por sua beira, ia e vinha trocando o azul frio por um azul queimante, ia e vinha esperando o brinde… e ela, que não tomava nem licor, entregou-se à dança do mar e se deixou brindar ali, junto das ondas quentes e da brisa fresca. Tintin! …e ele, convicto de seus conhecimentos enólicos e alcoólicos, encantou-se com a entrega e se deixou ensinar sobre o malbec que custava muitos consideráveis reais.

Tintin! A fala ia ficando mais leve. As flechadas já estavam indolores. Risos iam saindo mais fáceis. As máscaras iam aos poucos caindo. A vida estava mais prazerosa. Os momentos de diálogo frouxo iam cedendo voz para monólogos intensos de cada lado. Ouvidos e bocas se respeitavam ainda. Um brinde! E por milimétricos instantes, a pandemia parecia ter vindo para nos fazer brindar e porrear. Sentíamos as ondas como quem sente que o choque do mar contra as pedras sempre representa um brinde. O mundo parecia brindar à nossa volta! O tempo transpassou o vidro do relógio e parou para admirar nosso brinde com o universo. Estávamos de porre!

O que parecia um delicioso deleite o era realmente em nossa mente, em nosso corpo e em nosso coração. Nosso brinde era verdadeiro. Às vezes precisamos degustar um zinfandel em tulipa ou um malbec em copo americano, para depois valorizarmos um cabernet de guarda em sua mais pomposa taça. Quem vê assim de fora e de longe um casal brindando não sabe quantos copos, taças e pratos já brindaram com a parede! Todo brinde que fazemos deve, por isso, ser sagrado, ser comemorado, ser de verdade brindado, porque brindar com a parede é passar raiva, é meio terapia, não é brindar. Tintin! Mais um gole! Um pouco mais de porre!

O fato é que, durante uma pandemia, para conter, mostrar ou até mesmo contemplar as emoções enquanto as vivíamos, era necessário ou estar de porre, ou estar embriagado pela vida, pois não havia tempo para parar de viver. Não havia tempo para se isentar da vida e deixar um certo espaço de imparcialidade para reflexão sobre nossos caminhos. Ninguém sabia o que iria acontecer! Esse era o grito da mente aos brindes… ninguém sabia o que iria acontecer…

As únicas deliciosas certezas eram ver o vinho sendo derramado nas taças, o mar brindando suavemente com as pedras, o frio do meio do ano acarinhando a pele devagar, a noite nos procurando cada vez mais fresca e os olhos um do outro se tocando. As luzes de barcos, lanchas e transatlânticos eram pretas enlutadas com os números pandêmicos. Mas ali naquela beira de península do interior, por mais que as estatísticas já tivessem aportado, a pandemia ainda não tinha se ancorado. Era cedo demais para os problemas globais desejarem viagens para um lugar tão pequeno. Aproveitamos para brindar mais uma vez. Tintin!

A cada gole, o porre ficava mais forte. O paladar tânico prendia a língua, ao mesmo tempo que a acidificava. O sabor amadeirado encantava minha boca. O cheiro de frutas vermelhas muito maduras confundiam meu cérebro porque eu já não sabia se era cheiro ou sabor.

A cada gole uma vontade de… A cada olhar um fogo que dava para alimentar milhões de foguetes. Uma tentativa de pegada na haste e, desta vez, a pegada foi no corpo, e não na taça. As mãos se tocaram. Foi preciso que o vinho fizesse efeito para esse toque acontecer. Minutos que duraram horas! O toque das mãos fez o corpo todo reagir liberando hormônios e libertando amarras. A pele dele era como de um veludo agasalhador. A mão quente, em chamas, a rosto pegando fogo. O estômago sem fome, com muitas borboletas. As pernas dormentes. Outras partes do corpo reagiam como era de se esperar. Por que em toda a minha vida eu não havia experimentado ficar de porre? Por isso tantas pessoas ficam de porre… era um mar de delícias aquelas sensações todas.

– Não, não. Você está confundindo. O nome disso tudo não é porre, é vinho, efeito colateral do vinho. – alertava a psicóloga.

A vontade era de sair dali. E a comida? O vinho havia libertado a corpo da fome de comida. Agora a fome era de vinho. A vontade era de sair dali, realmente. Mas como levantar? Como andar?  Era o corpo que fazia o bojo da taça girar? Ou era o bojo que girava o corpo? E eis que os pés conseguiram se equilibrar parados, mas para andar foi preciso o ombro amigo. O abraço pela cintura. Um tropeço na calçada e veio uma pegada mais veemente. Com o correr das mãos dele, percebi que tipo de jantar teríamos. Algo meio tailandês, tântrico, sei lá. Só sei que goz(st)ei. Apreciamos o corpo um do outro. Saciamos nossa fome quase antropofagicamente.

– Não, não. Você está confundindo. O nome disso tudo não é vinho, é amor, efeito colateral do vinho. – a psicóloga tentava definir.

Ela estava de porre? Ora ela me contaminava com seu riso sarcástico, ora eu a contaminava com meu porre? O amor seria o efeito colateral do vinho? Que importava? Eu era agora uma apreciadora de vinhos e de jantares exóticos, sempre com o mesmo comedor ansioso! A pandemia trouxe um novo viver, um novo amor e um novo comer. O comer da fome saciada pelo vinho, pelo desejo e pelo amor!

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