Série metamorfoseando o dia a dia – 3. Cotidiano: mesmice e yakisoba Publicado em 25/03/202211/03/2022 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano — Vamo logo, mulhé! Tô roxa de fome. — Já vou. Tá nervosinha hoje, né? — A gente vai só pro almoço. Depois volta pro trabalho. Adianta se arrumá toda? — Vai sabê, miga. E se aparece um gato? A gente tem que tá preparada pra tudo. — Com licença. Será que eu posso ir com vocês? — Você… é a senhora que acabou de entrá na contabilidade, né? — Sou, sim. Desculpem eu me meter, mas ainda estou um pouco deslocada. — Vamo nessa. E não liga pra cara da Mô. Ela tá com fome e fica mal-humorada. — Obrigada. Prazer. Sou Alice. — Então, dona Alice, gosta de yakisoba? É o que eu vou pedi. — Pode me chamar só de Alice. Acho que nunca comi. — É gostoso, mas engorda. Só que não tô nem aí. A vida tá uma m mesmo. — Prazer pobre, né, miga? É um macarrão japonês, dona Alice, com legumes e carne. — Gosto muito de macarrão. E tudo bem para o resto. Também não estou muito preocupada com a aparência. — Olha, tem uma mesa vaga ali. — Moço, três yakisobas. De frango? Isso. De frango. Tô um caco, Lia. — Tá na cara. Que que aconteceu? — Nada. Aliás, nada acontece faz tempo. Tudo do mesmo, como sempre. — Ué? E qual é o problema? — Eu tava sonhando com um resort maneiro: água de coco, espreguiçadeira, cheiro de verde. E o maldito despertador me acordô pra realidade. — Fala sério. Sonho? Me poupa, vai. — Cara, tudo sempre igual. O despertador, a cara no espelho, a cozinha uma zona, a yoga, o trabalho. E hoje ainda tenho que ir no mercado e enfrentá o buzum lotado. — Tá incomodada com a cara? Pinta o cabelo de vermelho, faz uma progressiva e dá um rolé em vez de ir pro mercado, oras. — Vermelho? Cruzes, tá pensando o quê? — Que que a senhora acha? — Eu? Na verdade, acho que não deveria estar aqui. Vocês duas têm coisas íntimas para conversar e mal me conhecem. — Desencana! A Mô reclama dia sim e outro também. Reclama da mesmice, mas não faz nada pra mudá. — Bem, todo mundo se ressente da rotina de vez em quando. É chato mesmo. Importante é se reinventar. — Viu só, Mô. Se reinventa, mulhé! — A gente aqui jogando conversa fora em vez de curti o yakisoba. Viu o que você fez? Eu nem acabei e já tá na hora de voltá. Tudo de novo. Visualizações: 332 Compartilhe! Narrativas breves cotidianopontos de vistarotina
SÉRIE: GLOSSÁRIO IMPROVÁVEL (1) Publicado em 25/11/202225/11/2022 Por: Cristina Vergnano Letra A ABRAÇO– s.m. (etim. Termo derivado de “a” + “braço”, parte do corpo necessária para torná-lo concreto, ainda que, de fato, o ato só se possa efetivar com a colaboração de ambos os membros superiores. A etimologia é duvidosa quanto ao uso da vogal inicial “a”…. Compartilhe! Leia mais
Ano e meio de pandemia Publicado em 03/09/202102/09/2021 Por: Cristina Vergnano Despertei no meio de um sonho ruim. Primeiro, pensei: que horas são? Ah, 14h! Que me importa?!? Depois, nem sei por quê: detesto sujeira e desordem. Dei de ombros e levantei me arrastando. No banheiro, a pia branca estava amarela. No quarto, alguns cotões me fizeram pensar… Compartilhe! Leia mais
Perspectivas Publicado em 08/10/202108/10/2021 Por: Cristina Vergnano Karine tinha passado a manhã ansiosa para mostrar à sua melhor amiga algo no celular. No pátio do recreio, puxou-a e disse: – Ouve que legal o meu irmão gravou de madrugada. – O quê? Barraco? Gemidos apaixonados? – Não, Lara. Que mania de fofoca! Escuta. –… Compartilhe! Leia mais