Conto – Companhia Publicado em 08/06/202214/09/2022 Por Ana Paula Bellot Por: Ana Paula Bellot Chovia forte. Ele havia esquecido o guarda chuva. Correu para o metrô com a pasta preta em cima da cabeça. Era uma prática comum: todos tentavam proteger o rosto dos pingos. Já no meio da escada e embaixo da cobertura, reparou em seus sapatos e viu pequenas manchas brancas surgindo. — Ah, que merda… Mais um perdido. Do outro lado, um anúncio colorido na parede contrastava com o tempo cinzas dizendo com uma voz colorida e estridente: —Tenha agora o seu! Legalizados novamente! A mulher ruiva do anúncio se mexia, ninando nos braços um bebê. Nos pés dele, um botão indicava duas cores: vermelho e verde. Quando o bebê chorava, a mulher segurava o botão vermelho. Sorrisos. O anúncio começava de novo. Ele só percebeu o seu transe quando levou um esbarrão no ombro de um homem de quase dois metros. — Sai do meio do caminho! Não pediu desculpas e seguiu as escadas. Foi pegar o metrô deixando para trás a propaganda, as cores e o bebê. Seu apartamento ficava na última estação. Desceu de um vagão vazio e percebeu, chegando à superfície, que a chuva tinha acabado. Puxou do bolso do casaco um cigarro, daqueles antigos onde ainda era necessário um isqueiro. Fumou enquanto caminhava. O chão da rua, limpíssimo e brilhante, estava cheio de poças d’água. Ousou olhar para uma que estava próxima a um poste. Dentro dela, duas imagens: sua própria silhueta e um pombo morto boiando. “A natureza não se acostuma” ele pensou, enquanto saia dali e via piscar em outro anúncio animado, um sinal de alerta para as chuvas ácidas daquele dia. Chegou no prédio, subiu de elevador para seu andar. Tirou os sapatos para entrar em casa e jogou o par no lixo da área. Ouviu sons e bateu com a mão na própria testa. “Merda!”. Entrou no apartamento. Havia deixado a tv ligada. Afrouxou a gravata, passou pelo corredor para chegar até o quarto mas antes, parou. Na mesa, um acessório rudimentar que ele teimava em conservar: um porta retrato. Ele, uma mulher e uma menina. Os três sorriam sentados em um sofá azul. O sofá ainda era o mesmo, a parede ainda era a mesma. — Sou eu. Eu que mudei. O espelho em cima da mesa era diferente da poça d’água. As marcas do tempo, do cansaço, do trabalho. E no fundo, passando na televisão, o mesmo anúncio do metrô cantava a alegria da novidade. Nenhum androide era mais ilegal! Ele caminhou até lá, sentou no sofá. O comercial era maior dessa vez. A mulher dizia: “O antigo modelo tentou roubar minha casa. Agora, finalmente, me sinto segura!”. Era famosa a mulher, mas ele não se lembrava de onde. Artista de cinema ou coisa do tipo. Algumas imagens comparavam os novos e os antigos, apontando a principal diferença: a marca de quatro números no antebraço não existia mais. Agora, o registro era feito por uma série de códigos na nuca com um botão, mais moderno e seguro para o comprador. Ele fechou os olhos. Lembrou-se da mulher da foto. Lembrou-se de seus dois números finais. O comercial e a foto juntaram-se com fragmentos de memórias de uma noite de domingo. Barulhos altos pelas ruas, toques de recolher, invasão aos apartamentos. Os policiais puxaram sua mulher e sua filha da cama. “Deixe-as em paz, deixe-as em paz!” Ele gritava. Junto com a memória, repetiu as palavras dessa vez sozinho no apartamento. O grito virou sussurro, a indignação virou ressentimento em bebidas e cigarro. Passou a frequentar bares e prostíbulos, encontrou um submundo de andróides comercializados, prostituídos e vendidos. Por um tempo, tinha esperança de achá-las, mas parou. A resposta para sua dúvida veio de um outro anúncio, comemorando a abertura do novo incinerador em massa para o recall de todos os modelos. O comercial mudou. Quais as vantagens de ter uma casa em Marte? A repórter discutia com um milionário qualquer. Caminhando pelo corredor, abriu os botões da blusa, tirou a gravata e entrou no quarto. Sentada na cama, nua e com as mãos sob a coxa, ela olhava para frente. Outro espelho. De frente para ela, ele terminou de despir-se. Colocou a mão em sua nuca e apertou. A mulher, agora olhando para ele, sorriu. — Olá, Richard. Eu sou sua nova Android – 1562 Alfa KJL. Meu nome é Lou. Visualizações: 845 Compartilhe! Traçando entre nós
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