Estado de graça
Por: Cristina Vergnano
Tinha decidido não escrever nada pelo 3 de agosto, por ser um dia especial só para mim, mas não resisti. Afinal, sempre considerei meu aniversário um evento digno de muita comemoração. Uma colega escritora me alertou para o fato de, a cada festejo, eu ganhar um ano extra. Seguindo o gracejo, respondi que tudo bem, pois, assim, eu chegaria mais fácil aos 100. Enfim, limitei-me a escrever, sem publicar na data exata. Passados uns dias, compartilho minhas reflexões.
A despeito do que fazem parecer as redes sociais, todos temos bons e maus momentos ao longo da vida. Não existe cenário perfeito, tampouco apenas desgraças. Olhando em retrospectiva, consigo encarar os problemas do passado como parte de um aprendizado e considerar positivo o saldo de minha existência. Por isso, me sinto, a cada aniversário, renovada, pronta para celebrar, mesmo constatando meu envelhecimento, as desagradáveis dores articulares, as antiestéticas rugas, ou o incômodo aumento de peso.
Quando Gonzaguinha, na música O que é o que é, afirmou ser a vida bonita, captou um sentimento que pode não estar à flor da pele, mas existe: nós dificilmente desejamos morrer. Mesmo em face às dificuldades, tentamos dar a volta por cima e curtir os episódios agradáveis. Imagino o horror que deve habitar o coração e a mente daqueles cujo desespero os leva a desistir e procurar a morte. Há, sem dúvida, situações extremas a motivá-lo. Por outro lado, em alguns contextos, poderá ser tido como ato de misericórdia. Impossível generalizar. O importante, me parece, é tentar compreender, ajudar e se solidarizar com o outro.
Em um dos livros de Tolkien, o Silmarillion, creio, se fala da longevidade dos numenorianos. Eram humanos habitantes da Ilha de Númenor, a meio caminho da terra imortal dos Valar (poderes angélicos do universo tolkieniano). Dada sua natureza superior, viviam séculos. Quando, com cerca de quatrocentos anos, percebiam seu cansaço, se entregavam e morriam naturalmente, indo habitar com Ilúvatar (Deus). Ao longo das eras, porém, começaram a ambicionar mais: poder, riquezas e, claro, a eternidade, como os elfos possuíam. Tal comportamento os degradou e provocou, entre outras consequências, a diminuição de seu tempo no mundo.
Acho interessante termos alcançado conhecimentos, recursos e procedimentos capazes de prolongar a vida com qualidade. Lamento, contudo, não serem conquistas universais. O fato de se limitarem a uma parcela da população torna a vantagem injusta, submetendo muitos à penúria, como peões dispensáveis a serviço de poucos. Esse modo de ver as coisas nos aproxima dos numenorianos decadentes e mancha a beleza de nossa presença na Terra.
O estado de graça que nos leva a comemorar e agradecer o grande presente da vida precisa ser compartilhado. Sorrisos, palavras amigas, aconchegos, atos de criação, o caminhar sob a brisa num dia de sol, o cheiro de terra molhada sob a chuva, o brilho das estrelas à noite, pequenas coisas que fazem diferença e não têm preço, embora custem quase nada.
