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Rei morto, rei posto

Publicado em 02/11/2026 Por Cristina Vergnano

Por: Cristina Vergnano

Para minha mãe e meu pai, com carinho e recordação

O ditado parece cruel. Ele faz referência a uma alternância de poderes, de maneira, inclusive, um pouco brutal. No entanto, nos fala, também, de finitude e do caráter descartável do ser humano em vários contextos.

Costumamos nos assustar com a ideia de morrer. Como diz a canção de Gonzaguinha, “ninguém quer a morte, só saúde e sorte”. Lembra-nos que temos um tempo para ser vivido nesta terra e tudo passa. Provavelmente, por isso e até para manter sanidade mental, afastamos o tema, tentando todos os meios possíveis de driblar o inevitável.

A morte, contudo, não é vista de forma unânime. Apesar da representação soturna da caveira de túnica escura e capuz com uma foice na mão, a despeito de evitarmos recordá-la e das ausências nas visitas aos cemitérios, essa realidade comum a tudo o que é vivo, ganha, segundo a cultura e a sociedade, feições distintas.

Entre as comunidades indígenas brasileiras, por exemplo, embora se diferenciem entre si e tenha havido muita influência de religiões cristãs, as tradições funerárias, além do luto, estão relacionadas às conexões entre os mundos físico e espiritual, possuindo significados profundos. Nunca estive no Japão ou na Coreia, mas vejo, nos filmes, altares domésticos e columbários com fotos e pertences dos mortos. No México, o Día de Muertos é festejado com altares coloridos, doces, música e os parentes falecidos são cultuados. Entre os católicos, há missas específicas do Dia de Finados. Em todos esses casos, aceita-se o aspecto finito da nossa existência, mesmo admitindo-se a tristeza pela perda, a saudade e o medo, e celebra-se a vida, trazendo à lembrança a riqueza de quem veio e se foi antes e tudo o que as relações com eles ensinaram.

Costumo ouvir que, “para morrer, basta estar vivo”. Verdade. Sei bem, todavia, que é raro crianças e jovens pensarem a respeito. Talvez seja pela minha idade, começo a me dar conta, mais intensamente, dos vários falecimentos à minha volta, de familiares, conhecidos e gente famosa. Isso me leva, às vezes, a pensar na minha própria morte. Claro, não é algo agradável. Porém, incomoda-me mais a constatação de estarmos nos tornando humanos sem memória. Legamos nossos saberes, sentimentos e passado à nuvem. Já não precisamos recordar, apenas dar um clique e rolar uma barra. Está tudo lá, apesar de, com frequência, (re)construído.

Enquanto formos capazes de guardar sons, imagens, pessoas e fatos em nossas mentes e corações, tudo se manterá vivo e a humanidade continuará humana. As celebrações de finados são, também, um pouco sobre isso. Lamentam-se as ausências, reconhece-se a terminalidade da vida, espera-se (para quem crê) o que virá depois, conecta-se o visível e o invisível, mantém-se vivo, por meio da recordação, o que se foi. Mas, acima de tudo, se conserva, junto com a memória, nossa natureza de ser.

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