Doce nostalgia e um pertencimento que fica gravado no ser Publicado em 16/11/202016/11/2020 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano No dia 11 de novembro de 2020, fui convidada pela atual diretora do Instituto de Letras da UERJ (ILE), Janaína Cardoso, a participar da recepção aos novos professores que, após longo tempo, foram efetivados. O evento seria no dia seguinte, todo on-line, claro, dada a pandemia. Três entre os empossados são os mais recentes aprovados em concurso do Setor de Espanhol, no qual atuei por 25 anos, até o início de 2018. A minha vaga, depois da aposentadoria, já havia sido preenchida. Outras companheiras, contudo, também saíram da instituição nos últimos 3 anos e esses docentes vieram para cobrir sua ausência; fato bastante esperado. Esses novos colegas (permitam-me chamá-los assim, embora eu mesma não vá trabalhar ao seu lado, considerando meu status de aposentada), passaram por uma verdadeira jornada de heróis, uma odisseia digna dos clássicos, para conseguir tomar posse. E não foi apenas a pandemia que dificultou as coisas. Questões burocráticas e administrativas, apoiadas nas restrições impostas pelo Regime de Recuperação Fiscal do Rio de Janeiro, assinado em 2017, vetaram sua efetivação imediata nos quadros públicos do estado. Posso calcular todo o estresse, a incerteza, frustração e indignação pelos quais passaram. Licitamente concursados (e olhem que tais provas são duras!), viram seus projetos (momentaneamente) abortados em função de tecnicismos de ordem político-econômica. Tais argumentos ignoravam regras mais do que consagradas, como as de suprir vacâncias legítimas (as de aposentadoria, por exemplo). Durante os muitos meses em que esperaram (segundo o depoimento de uma dentre esses docentes, foram 9, como numa gestação), lutaram incansavelmente para serem ouvidos e fortaleceram os laços do trabalho em conjunto. Foram apoiados pelo ILE, que também sofria o impacto provocado na atuação docente e no aprendizado discente, pela diminuição de seus quadros. Vivenciaram uma jornada penosa, incerta, por vezes, sufocada de desesperança. Mas o dragão foi vencido. A demanda resolvida. A vitória alcançada. O prêmio, a posse, veio no segundo semestre de 2020, já quase ao final do ano. Bem, dirão vocês, o que tem de extraordinário que funcionários públicos concursados tomem posse e assumam seus cargos? A questão vai além da burocracia ou do fato corriqueiro de assumir um cargo público. Concursos para a universidade são, como já pontuei, provas exigentes. Requerem tremendo investimento de tempo, esforço, estudo e do emocional. Nada é certo ou seguro. Porém, quando se é aprovado dentro do número de vagas disponíveis, espera-se logo tomar posse e começar a atuar. Ocorre que, neste caso, isso não aconteceu. Então, a tensão estendeu-se por vários meses, enquanto a vida se congelava, suspensa, aguardando o que ocorreria, se mudaria ou não. Daí a relevância do fato. A necessidade de registrá-lo e festejá-lo. A UERJ tem um não sei quê. Impregna a gente, seduz. Vai muito além de ser uma das mais conceituadas universidades do Brasil, com pesquisa, ensino e extensão reconhecidos, ademais de uma importante militância social (vide seu pioneirismo com o sistema de cotas). É comum que seus ex-alunos tenham como meta retornar a ela na qualidade de docentes. Aconteceu comigo, por exemplo, e com muitas e muitos outros que conheço. Entre o grupo de professores que assumiam seus cargos nesse novembro, havia alguns em tal condição. Mas não apenas. E o curioso é que aqueles que nunca haviam estudado ali, nem eram do estado do Rio de Janeiro ou mesmo do Brasil, também manifestaram seu desejo de ingressarem no seu corpo docente. Era como um namoro a distância, um querer subjetivo. A posse oficial foi o de sempre: um evento administrativo, com tudo o que isso representa, acrescido dos cuidados excepcionais da época de pandemia. A surpresa veio depois, iniciativa específica do ILE, sob a forma de calorosa festa, pese o distanciamento e o recurso virtual para realizá-la. E eu pude estar lá! Foi assim… Como em todo evento institucional, houve discurso de representantes das instâncias diretivas. Neste caso, contudo, o que vimos e ouvimos foram falas breves de solidariedade, satisfação pela chegada de novos colegas, reconhecimento da sua luta, exaltação do espírito de união e do trabalho em equipe. Tudo em clima informal e caloroso. Acabadas as falas, começou a festa! Tivemos sambinha ao violão… Como em todo o bom sarau de Letras, declamação de poesia. E houve o fechamento belíssimo com mais MPB e Bossa Nova, na voz de uma funcionária. O bonito foi ver representados os três segmentos da universidade nessa homenagem-show: professores, alunos e técnicos, respectivamente, nas pessoas do Alexandre, do Samuel e da Karine. Muito inclusivo! Um delicioso presente para todas e todos ali reunidos. A direção do ILE está de parabéns pela ideia e execução! Enfim, chegou o grande momento: os 9 recém-incorporados (Alejandra, Ana Paula, Ceres, Cristiane, Jefferson, Levy, Maurício, Phelipe e Wagner) ganharam a palavra! Apresentaram-se. E, principalmente, falaram da jornada, da emoção, da felicidade e do sentimento de acolhimento e pertença, o que estava sendo para eles uma grata surpresa e recompensa após tantos desafios. Enquanto tudo isso acontecia, nós, assistentes-participantes, trocávamos ideias, cumprimentos e comentários no chat do ambiente virtual, numa aproximação calorosa, cheia de saudade e comoção. Sim… Dois anos e nove meses após eu ter-me aposentado, pude participar dessa festa. E foi bom sentir-me de novo parte disso, do meu querido ILE, no qual atuei como aluna e como professora. Vivenciar a emoção daqueles “colegas a distância”, com os quais não trabalharei, mas por quem senti proximidade naquele momento. Rever e “reouvir” os companheiros de jornada durante meus tempos de UERJ. De repente… bateu uma pequena nostalgia. Uma saudade de ser membro daquela comunidade. Sei bem que o mundo não para. Que, em seu dinamismo, requer e abraça com entusiasmo a novidade, o movimento, a renovação. Sem a saída dos antigos, não haveria espaço para os novos. Restaria a imobilidade, que não é criativa, nem construtora de realidades. Quando saímos, as lacunas são preenchidas. Um ciclo se encerra; inicia-se um novo. Sempre faremos parte dessa história. Conquistamos o direito a essa pertença. No entanto, novos mares serão por nós singrados. Outras e outros passearão pelas paragens em que antes pisamos e imprimirão ali suas marcas. Que ambas as realidades sejam muito bem-vindas! Visualizações: 1.023 Compartilhe! Digicrônicas ConfraternizaçãoILE/UERJInstituto de LetrasPosse de concursados
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Vc sempre fará parte dessa história! Vc, Ângela e tantas outras professoras queridas que estarão eternizadas em nossos corações e memórias! Acesse para responder