Dor das lágrimas antecipadas Publicado em 18/09/201918/09/2019 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano Meu respeito, carinho e solidariedade às vítimas do incêndio do Badim e suas famílias. No início da noite do dia 12 de setembro de 2019, numa pequena rua no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, próximo ao Colégio Militar, ouviram-se sirenes de ambulância. Depois, ruídos de helicópteros. As janelas do apartamento estavam fechadas, por causa dos cupins voadores. Então, só quando desci, pude começar a sentir um forte cheiro de queimado no ar. Antes mesmo de chegar ao portão de saída do prédio, assim que deixei o elevador, fui chamada pelo porteiro que assistia o noticiário em seu celular. – Olha só! Um hospital daqui de perto, na rua São Francisco Xavier, está pegando fogo! Surpreendi-me e fiquei por um momento pensando que hospital seria… Perguntei a ele, mas o repórter não tinha informado. Cheguei mais perto e tentei identificar pelas imagens onde estaria acontecendo a tragédia. E era próxima, pois sentíamos o ar pesado, com aquele odor de coisa queimada, de fumaça. Vi então o logo do hospital… Não era possível! Era o Badim! Minha mãe tinha estado internada lá por umas três semanas, no mês passado!!!! Saí meio incrédula e olhei para cima, para a janela do apartamento, onde minha mãe e minha irmã esperavam para se despedir e estranhavam minha demora. Então, lancei a notícia: – O hospital Badim está pegando fogo! Creio que a reação de espanto foi a mesma na minha irmã. Minha mãe, uma senhora de 88 anos, acho que não escutou direito, mas deve ter se espantado também depois. Fui caminhando para casa (logo ali perto) e olhei para o céu. Apesar do cheiro, não havia fumaça visível. Só uma clara lua que estava quase cheia. “Quase cheia”, pensei. … Não tenho tv por assinatura e a antena não estava ligada ainda, mas, hoje em dia, a internet é, muitas vezes, um meio de notícias bem mais rápido, quando conseguimos filtrar a verdade das fake news. Mas, mesmo que assim não o fosse, logo, logo uma enxurrada de mensagens começou a brotar pelo zap. Muitas delas eram das meninas (as cuidadoras) que vinham acompanhando minha mãe durante sua pneumonia nos últimos 3 meses. E o mote era sempre o mesmo: “meu Deus, nós estávamos lá há menos de um mês!”. Naquela noite, demorei a dormir e fui assolada por uma tosse insistente e seca: alergia, com certeza! Mesmo há cerca de um quilômetro de distância em linha reta, o cheiro era inconfundível e penetrante. O que seria das pessoas que estavam ali, no local? Que respiravam aquele ar carregado na rua onde as macas e colchões com os pacientes resgatados estavam sendo colocados? E dentro do hospital?!!!!! Tudo o que conseguia pensar, o que pedia, era que não houvesse mortos (se é que isso seria possível, dadas as circunstâncias). Assim adormeci, creio eu… No dia seguinte, a televisão só noticiava o acontecido. Repetia à exaustão imagens da fumaça, do fogo, dos bombeiros, pessoal da enfermagem e médicos correndo de um lado para o outro em atendimento às vítimas. Oferecia as informações que já se tinha e as especulações, apresentava análises, cobrava responsabilidades, dava voz e cara a vítimas resgatadas e a famílias angustiadas. Tudo isso ocorria em meio ao caos que reveste e é cenário de qualquer grande tragédia. Lado a lado com a dor e a tristeza, brotava a solidariedade. Uma creche vizinha recebeu os doentes graves do CTI. Profissionais de saúde de diversos hospitais da redondeza, muitos em troca de plantão, acorreram ao local e prestaram auxílio. Hospitais particulares e públicos receberam os doentes remanejados. A síndica do prédio ao lado, segundo um jornal, oferecia água e cadeiras aos pacientes e socorristas. Colchonetes foram cedidos e colocados na rua para acolher as vítimas. Em meio à multidão, ao sofrimento, à confusão, à perplexidade, dúvidas e angústias, vários heróis e heroínas anônimos realizavam seu incansável serviço. Não havia tempo para glórias… Em meio a tudo isso, de repente, reconheci dois rostos numa cena do jornal da tv, mostrando o pátio do IML. Era uma moça, abraçada à tia. Seu tio tinha estado internado no mesmo CTI que a minha mãe. Já estava lá fazia algum tempo e iria ser transferido para o novo CTI, quando minha mãe teve alta. Esse senhor estava bastante doente, é certo, mas morreu como e quando não se esperava que ocorresse. Na verdade, a tragédia vitimou fatalmente ainda outras 10 pessoas. Todas idosas e idosos. Desse acontecimento, tão triste e doloroso, resta-nos, além da esperança de que aprendamos com os erros e possamos minimizar eventos futuros, a imagem de sobrinha e tia abraçadas em lágrimas, de cada família inconsolável pelas perdas de seus parentes amados. As vítimas fatais eram idosos e idosas, sim. Estavam muito doentes e, possivelmente, poderiam morrer dessas enfermidades. Mas a dor que se sente hoje, após o incêndio, é uma dor das lágrimas antecipadas, pois a sua morte veio de repente, sem aviso, pegando a todos de surpresa. Visualizações: 754 Compartilhe! Digicrônicas incêndio no hospital Badim
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