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Traumática viagem pelo túnel do tempo

Publicado em 07/10/201907/10/2019 Por Cristina Vergnano

Por: Cristina Vergnano

Sempre gostei de ficção científica. E a desfruto, até a atualidade, em suas mais variadas manifestações: livros, filmes, seriados, desenhos animados, histórias em quadrinhos…

Um dos temas mais atrativos das histórias de ficção talvez sejam as viagens no tempo. Causa atração, muito provavelmente, porque ainda não conseguimos, nem de longe, realizá-las. Mas o é, também, problemático. Em geral, as aventuras acabam dando em becos sem saída se são expostas a um mínimo de reflexão crítica. Isso porque são tragadas pelos famosos paradoxos temporais, que nunca têm uma solução satisfatória em plenitude.

E a que venho eu com essa digressão? Pois bem, senti-me hoje, ao assistir um fragmento de um telejornal do início da tarde, entrando em pleno túnel do tempo. Não foi, no entanto, uma experiência tão agradável como se poderia supor, vindo de uma pessoa amante do gênero de ficção científica. Tudo ao contrário!

Fiquei sabendo que, recentemente, o ilustre prefeito da Cidade Maravilhosa teceu comentários críticos à juíza responsável pela manutenção da interdição da avenida Niemeyer, em decorrência dos desmoronamentos no primeiro semestre deste ano. Que um membro do executivo questione uma decisão do judiciário e a considere inadequada, não é em si um problema. Em especial se a objeção for apoiada em argumentos técnicos. Cabe fazer a petição de revisão, apresentar provas e dados e aguardar os resultados das novas instâncias de julgamento. O problema, e aí entra a viagem no tempo (ao passado, bem entendido), é que o representante da cidade recorreu a argumentos machistas, que nada têm a ver com a questão estrutural da via, para desacreditar a juíza. E isso parece-me inadmissível!

É verdade que foi oferecida, em defesa do posicionamento do poder público executivo, a afirmação de que o próprio prefeito, na qualidade de engenheiro formado, já realizou várias obras que nunca caíram. Isso foi reforçado pela também apontada experiência do secretário de Infraestrutura e Habitação e pelos laudos solicitados pela prefeitura, inclusive os mais recentes, em vista do fechamento. Afinal, o desmoronamento se deu, segundo eles e suas opiniões abalizadas, por fatores de exceção (desde quando chuvas torrenciais no Rio são exceção?!?). Que, em tempo de sol firme, não ocorrem esses deslizamentos. E, para coroar a explanação, que, se houve o que não caiu, é porque o remanescente está firme. (Bem, pode até estar firme agora. Mas, água mole em pedra dura…)

O representante máximo do executivo do Rio de Janeiro, contudo, usou como primeiro argumento o fato de a juíza ter um site que “ensina as mulheres a (…) se vestir, como conseguir um namorado”. E, no final da sua fala, concluiu que ela é uma mulher de uns quarenta anos e “é muito bonita; tem uma beleza de parar o trânsito, mas não precisa praticar…” Se não bastasse isso, afirmou anteriormente na entrevista que os peritos chamados por ela fizeram laudos para agradá-la, pois se trata de rapazes muito jovens que não têm experiência (como ele, o secretário, a Geo-Rio e os peritos que a prefeitura contratou, bem entendido).

Ao lado do posicionamento ofensivo e sexista sobre a competência da juíza para propor e manter o impedimento, acrescenta uma metáfora futebolística, provavelmente parte da sua postura masculina (muito embora, hoje em dia, não possamos mais associar o futebol exclusivamente ao sexo masculino). Ou seja, levado o pedido de reabertura da avenida à segunda instância, dois juízes (homens) posicionaram-se a favor da prefeitura e o terceiro se absteve e pediu vistas de processo para avaliar melhor a situação. Para o prefeito, a questão está ganha: ou bem por três a zero, ou, na pior das hipóteses, por dois a um. Como se o risco à população e a integridade de um membro do judiciário fossem matéria a ser medida por gols…

Para concluir, ainda com base na ficção científica, o acontecimento remeteu-me também a uma série de livrinhos de bolso de origem alemã: sobre as histórias do astronauta Perry Rhodan. Gosto das aventuras e das peripécias em que se envolvem os personagens e, confesso, estou curiosa para chegar às edições mais recentes, do século XXI. É que a obra começou a ser escrita no início dos anos 1960 e continua até hoje, dado seu êxito. A mulher que desenham nos primeiros arcos narrativos é uma caricatura bem construída de uma pessoa que começava a entrar no universo masculino, mas ainda estava associada ao temperamento instável e emocional, ilógico, mesmo quando fosse capaz de grandes feitos. Ok! Afinal, eram os anos 1960, né?! Fico imaginando se, neste momento, os novos autores alemães da série, passado mais de meio século adiante na história, continuam a construir seus personagens femininos com esse traço de machismo. Se assim o for, teremos que assumir que eles também compartilham dessas viagens pelo tempo, a algum lugar do passado, como o excelentíssimo senhor prefeito do Rio de Janeiro.

Apenas um adendo. Hoje, 07 de outubro de 2019, o chefe do executivo do Rio pediu desculpas por suas afirmações a respeito da juíza, dizendo respeitar muito o judiciário. Não sei, apenas, se escolheu bem a justificativa para suas afirmações anteriores. Alegou que se teria deixado levar pelo “espírito carioca”. Bem… eu, como mulher e carioca, não consigo entender que espírito seria esse. Talvez de porco! (Apesar de que os pobres bichinhos não têm culpa de nada, não é?!)

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