Leitura em tempos de tecnologias digitais: parte 2

Por: Cristina Vergnano

Na primeira parte deste artigo, publicada em 25 de junho, chamei a atenção para a relação entre escrita e leitura, dei uma breve caracterização do processo leitor e provoquei uma reflexão a partir dos resultados do relatório “Retratos da Leitura no Brasil”. Será mesmo que podemos considerar que se lê pouco numa sociedade onde abundam os textos escritos em diferentes suportes? Com que base o defenderíamos? De que leitura estaríamos falando? Continuemos, pois, a pensar a respeito.

Do dito até agora sobre o processo leitor nos tempos de tecnologias digitais, constatamos que alguma leitura tem que acontecer minimamente, hoje em dia, na nossa sociedade. Talvez, então, a questão não resida em se lemos muito ou pouco, mas no que se lê e como.

Com relação ao quê, precisamos considerar que alguns gêneros textuais têm construção mais complexa, seja na forma, no conteúdo ou na sua função comunicativa, sem contar as especificidades do seu suporte. Isso significa uma diferença quanto às demandas cognitivas para lê-los. Ademais, se lemos pouca variedade de gêneros e tipos textuais, podemos limitar nosso contato com recursos mais complexos da manipulação da linguagem, presentes em certos escritos. Isso contribui para as tais dificuldades de compreensão tão incômodas.

Nos gêneros post de Facebook e mensagens de WhatsApp, por exemplo, com tipologias descritivas e narrativas, podemos perder, muitas vezes, contato mais assíduo com: a tipologia dissertativa (expositivo-argumentativa); alguns usos denotativos; recursos como ironia, metáforas, elipses etc; registros linguísticos menos coloquiais e cotidianos; gêneros mais elaborados, como os literários ou acadêmicos, para citar alguns. Outro detalhe é o fato de se tratar de textos, em geral, breves e fragmentados. Isso diminui a intimidade com leituras mais longas, cuja concentração e articulação intra e intertextos precisam ser maiores. Em compensação, o ambiente virtual nos oferece uma hipertextualidade constitutiva e uma variedade de linguagens (imagéticas estáticas ou em movimento, sonoras, verbais) as quais também demandam conhecimentos e habilidades específicos.

Ler requer hábito. A prática e a variedade vão ampliando nossas bagagens de saberes, estimulam a reflexão crítica, formam novas sinapses no cérebro, contribuem para o aprendizado e para a criatividade. É algo que precisa ser começado desde cedo e ter exemplos incentivadores. Afinal, embora não seja impossível, alguém nascido e criado num ambiente sem contato frequente com leitura tende a desenvolver menos afinidade com essa práxis.

Por fim, a forma como nos apropriamos do ato de ler influencia bastante nosso desempenho. A leitura é uma atividade, até certo ponto, solitária. Claro que podemos compartilhá-la com outros, trocar ideias, ler em conjunto. De modo geral, no entanto, se trata de um namoro a dois: cada pessoa (acompanhada de todos os conhecimentos que pode acessar, de seus objetivos e necessidades) e o texto com o qual interage. Essa pode ser uma das razões para a leitura ser preterida em detrimento da comunicação nas redes sociais, bem mais plurais e coletivas.

A leitura também requer uma dose de perspicácia para perceber o quanto precisamos aprofundar nossa atenção e criticidade. Hoje, um dos sinais dessa falta de conscientização sobre nossa relação com o ato de ler eu o encontro no repasse irresponsável das fake news. Nem sempre o leitor deseja realmente transmitir uma mensagem enganosa, apenas não a lê com olhar crítico, nem revisa seu conteúdo, fonte e autor. Para conseguirmos alcançar uma leitura efetiva, precisamos dosar a atenção, avaliar o que lemos, procurar entender em profundidade, quando isso se fizer necessário.

No que se refere ao hábito e estímulo, uma iniciativa recente mostra como os meios digitais podem ser parceiros do processo leitor. Para além do consumo rápido e superficial das pequenas e fragmentadas postagens nas redes sociais, um grupo de jovens vem usando o TikTok para fomentar a leitura literária. Uma trend (tendência) literária da rede social tem viralizado, sob a batuta dos BookTokers, usuários cujos perfis se voltam para compartilhar suas leituras de livros, breves resenhas e amor pela literatura. Em alguns dos vídeos, argumentos de obras são contados em primeira pessoa, como se o toker fosse o personagem, criando expectativa e despertando a curiosidade. Ao final, o livro é apresentado e os seguidores são convidados a lê-lo para saber o que ocorre depois. Há relatos, em comentários às postagens, de que muitos jovens (o TikTok é uma rede frequentada prioritariamente por esse segmento) procuraram a obra apresentada, a leram e apreciaram. Da mesma forma, existem vários blogs, perfis no Instagram e canais no YouTube cuja temática envolve literatura, leitura e contação. Não significa que tais iniciativas garantirão o redescobrimento da leitura literária ou o aperfeiçoamento no processo leitor de forma definitiva. São, porém, um elemento criativo, com forte interação e empatia, capaz, sim, de contribuir para o incremento da prática leitora. O que esses blogueiros, tokers e youtubers estão fazendo, em última análise, é socializar suas leituras, motivando novos leitores.

Nosso país, desafortunadamente, não tem uma trajetória de alfabetização, escrita e leitura tão bem-sucedida, ampla e democraticamente distribuída entre sua população, em decorrência de muitos fatores históricos, políticos e educacionais. Em seu tempo áureo, a televisão foi acusada de prejudicar a relação entre as pessoas e os livros/leitura. Hoje, o mesmo ocorre com as tecnologias digitais, em especial com a internet e, nela, com as redes sociais.

No rápido panorama reflexivo que apresento aqui, parece claro que a questão nunca é tão simples, pois múltiplos elementos entram em jogo. Dois, contudo, me parecem relevantes. Primeiro, que, ao haver vários materiais de leitura e estando a internet recheada de textos (e hipertextos), não dá para assumir de modo radical uma não-leitura fora do contexto livresco e literário. Por outro lado, sim, é verdade a limitação compreensiva gerada a partir de práticas leitoras fragmentadas, sempre breves, com pouca variação de gêneros textuais e baixa preocupação com a criticidade.

Para mim, precisamos assumir uma postura consciente, separando o que é ruim e limitador, daquilo que, independentemente do meio, tem o potencial de promover a leitura crítica, engajada e madura. A própria literatura, enquanto arte, se modifica ao longo do tempo, dos países e culturas. Autores consagrados escrevem no ambiente digital e experiências surgem no formato hipertextual. No momento, os livros e a literatura consagrada fazem parte hegemônica do cânone. Isso pode evoluir para novas formas que conviverão com as anteriores e enriquecerão o fazer humano nesse contexto da escrita e leitura. Ler variados gêneros por múltiplos motivos em tempos de tecnologia digital é possível, desejável e necessário. Além disso, a própria nova tecnologia pode ser um veículo para reencontrar caminhos abandonados: estão aí os BookTokers, alguns blogueiros, donos de perfis no Instagram e youtubers que não me deixam mentir.

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2 thoughts on “Leitura em tempos de tecnologias digitais: parte 2

  • 03/08/2021 em 13:13
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    Sou uma consumidora de TikTok, gosto dos perfis literários, de professores, debates políticos, economia , etc. Já vi alguns perfis interessantes em que eles contam uma parte importante e instigante de um livro, como se fosse um caso real, para despertar nossa curiosidade em saber mais sobre o caso, ao final, eles divulgam o livro. Deste modo, eu já tenho uma lista de livros para ler. Os comentários também são interessantíssimos.

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    • 04/08/2021 em 20:38
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      Pois eu só tinha ouvido falar em TikTok pelos meus sobrinhos, mas nunca tinha entrado, nem tenho conta. Acabei descobrindo esses perfis por acaso, devido a um convite pra participar de uma reportagem que, infelizmente, acabou não acontecendo. Achei genial! E olhe que funciona até com quem já é leitora escolada como você!!! 😉

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