Dia internacional da mulher: uma data para reflexão

Por: Cristina Vergnano

Quando acordei hoje, não estava me dando conta do dia em que estávamos. Depois, liguei o celular e vi várias mensagens de felicitação pelo dia internacional da mulher. A maioria delas era edificante, positiva, falando da força feminina. Passei todo o dia pensando se deveria ou não escrever algo para postar aqui no Tecendo o verbo por ocasião da data comemorativa. Agora, quase no finalzinho de 8 de março, decido-me a escrever algo e postar, mesmo que entre no ar só no dia 9. Antes tarde do que nunca, certo?!…

A data foi oficializada pela ONU em 1975, ano internacional da mulher. Segundo muitos creem, teria sido escolhida em memória da morte de 129 operárias de uma fábrica têxtil em Nova York, que faleceram num incêndio, supostamente provocado pelo dono da própria empresa em represália a levantes das mulheres. Mas trata-se de um fato falso. A real inspiração da comemoração foram os protestos e greves femininos, tanto por condições trabalhistas mais dignas quanto por direitos eleitorais. Tais manifestações foram bem amplas; se deram nos Estados Unidos e na Europa. O dia 8 de março, especificamente, foi definido em função de uma greve de operárias da tecelagem, na Rússia, iniciada nessa data no ano de 1917. Mas também o mês foi reforçado por outro incêndio ocorrido numa companhia em Nova York, no ano de 1911, no qual morreram 125 mulheres e 21 homens.

Não resta dúvida de que, ao longo da história, a mulher tem tido papel relevante de diferentes maneiras. Era ela que ficava nos acampamentos e aldeias, cuidando das colheitas e dos filhos, enquanto os homens iam à caça ou à guerra. A senhora do castelo medieval estava responsável pelo andamento das questões domésticas. Com as grandes guerras do século XX, vemos muitas mulheres assumindo importantes papéis como enfermeiras no front e, em casa, cobrindo os postos de trabalho que haviam sido deixados vazios pelos homens enviados para a luta. Com o fim desses conflitos de grande amplitude e o regresso dos homens aos seus países, as mulheres já não se satisfaziam em apenas ocupar o lugar de donas de casa. Gradualmente, foram galgando espaço nas universidades e nas empresas, mostrando que são plenamente capazes de desempenhar funções que antes eram consideradas território exclusivamente masculino.

Certo! Mas tais conquistas não foram livres de conflitos. Muitas mulheres sofreram, foram humilhadas e perseguidas, ou mesmo morreram defendendo o direto à igualdade de oportunidades e tratamento. E, ainda hoje, em pleno século XXI, podemos constatar desigualdade nos ganhos entre mulheres e homens para a realização de iguais tarefas. Ouvi dizer, por exemplo, para minha surpresa, que mesmo num país avançado como a Suécia, os salários das mulheres são inferiores aos dos homens por igual trabalho!!! Da mesma forma, bullying e assédio são ainda comuns. No imaginário popular, piadas e comentários desrespeitosos tidos como cômicos continuam a ser ouvidos. Mas, o pior: a violência, doméstica ou não, chegando ao assassinato, com desculpas infames como ciúmes, continua a ocorrer contra mulheres de diferentes camadas sociais e locais de nascimento e residência. Em países (ou localidades) com maior índice de subdesenvolvimento e baixa educação, tudo isso se agrava. Sem contar com aspectos de ordem sociocultural que impõem restrições a mulheres, simplesmente por serem do sexto feminino, com relação ao vestuário, à possibilidade de acesso ao estudo ou trabalho, ao direito de gerir sua própria vida, a sair sozinha etc.

Vocês me perguntarão, se estou colocando tudo isso aqui, por que tive alguma resistência em escrever sobre o tema. A questão é que me incomoda que haja (necessidade de) um dia específico para nos lembrar de direitos que deveriam fazer parte de nosso modo de pensar e agir sempre. Que neste dia se distribuam flores, mensagens, presentes, homenagens que caem no vazio para a maioria, imediatamente no dia seguinte, quando o relógio bate meia noite (como na magia de Cinderela). Até mesmo abusadores e autores de diferentes tipos de violência de gênero são bem capazes de propagar “mensagens cor de rosa” nessa data, para logo retomarem seus atos desrespeitosos usuais.

Outro aspecto é que a busca por direitos iguais (eu diria melhor, equivalentes) não significa que mulheres e homens sejam de fato idênticos. Ah, sim… somos ambos seres humanos, com capacidades cerebrais, físicas, intelectuais, emocionais equivalentes. Mas nunca iguais! E o que isso significa? O que quero dizer com tal afirmação? Que ao buscar “igualdade”, não deveríamos entendê-la como homogeneização.

Acredito firmemente que o mundo precisa da diferença. É importante que não sejamos iguais para que possamos complementarmo-nos. Se, ao lutar por igualdade, a mulher se “masculiniza”, assumindo o mesmo discurso, a mesma forma de agir que critica, então sua luta perdeu o sentido, porque já não é mais o que era, já não é a mulher, o lado feminino que pede para ser respeitado, que demanda tratamento equivalente em direitos.

Por outro lado, quando nos deixamos levar por discursos falaciosos a favor de uma liberdade sem limites, acabamos por assumir uma conduta desrespeitosa semelhante àquela dos homens a quem acusamos, pois já não nos importam as consequências de nossos atos sobre outros e outras. Só nos interessa nós mesmas. Isso é igualmente daninho, a meu ver.

Às vezes, também, nos deixamos usar. Acreditamos que estamos dominando, por termos muitos seguidores, mas somos apenas objetos (de prazer ou de outra coisa qualquer), abrindo mão de nossa individualidade, de nossa essência em favor da mídia, do glamour, do dinheiro, de status, do poder. O problema é que tudo isso é passageiro e o que sobra depois costuma ter um gosto bem amargo. Pergunto-me como algumas mulheres podem assumir esses discursos e ainda se vangloriarem deles… Fico pensando se se dão conta da manipulação, do uso que fazem delas aqueles que continuarão por cima, puxando as cordinhas… Considero que talvez não se deem conta, que se embriaguem com certos ganhos e percam a visão mais ampla do conjunto….

Vejam bem, não estou aqui para julgar! Apenas observo… E, do lugar de mulher que teve o privilégio de estudar, de viver com relativo conforto e segurança, que escolheu uma profissão na qual não chegou a sofrer assédio ou abusos em função do seu sexo, que conseguiu ter uma relação sem conflitos, acredito que esta não é uma data para comemorações, mas para reflexões. Reconheço e parabenizo aquelas que até hoje enfrentaram as dificuldades necessárias para alcançar o direito para todas as mulheres! Precisamos mesmo lutar para que haja respeito e equanimidade. É urgente, no entanto, que todas as mulheres (assim como as crianças, os idosos, os homens, os pobres, os marginalizados, enfim, toda a raça humana) possam olhar-se, a si e aos demais, com confiança, dignidade, solidariedade. Que a paz e o direito sejam a bandeira comum. Que as diferenças não precisem ser apagadas. Que, cada qual, segundo sua natureza e vocação, tenha equivalente lugar ao sol. Que sejamos, por fim, membros da humanidade e que todos os dias sejam nossos dias!

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