A peste 2: quando a ficção ameaça tornar-se realidade

Por: Cristina Vergnano

Aviso: Esta, como “A Peste”, continua sendo uma história ficcional. Qualquer semelhança entre personagens, fatos (exceto, claro, a existência tanto do problema da água no RJ, quanto a do coronavírus ao redor do mundo) e lugares da crônica com pessoas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Os acontecimentos gerados pelo problema da água no Rio de Janeiro ainda não tinham sido esquecidos, mas já estava tudo relativamente sob controle. O abastecimento de água mineral seguia a todo vapor em farmácias, supermercados, mercadinhos, vendedores ambulantes e bares. E todos os que haviam aderido a ela pareciam sentir-se mais seguros no atendimento a suas necessidades… Embora, devamos admitir, estavam também indignados por terem que gastar tanto dinheiro, quando cabia ao governo providenciar a água potável e agradável ao consumo, pelo que se pagavam taxas mensais. A empresa responsável pelo abastecimento, por sua parte, havia tratado os reservatórios com carvão ativado e outros produtos e continuava a garantir que a água estava própria para consumo. Síndicos de prédios faziam análises privadas da água de seus condomínios e, na maioria dos casos, quando se tratava de um lugar bem administrado, os resultados batiam com as informações oficiais. O gosto e o cheiro peculiares, porém, continuavam. Contudo, era certo que estavam mais fracos! Ou será que estávamos nos acostumando a eles????… E havia a promessa de que logo tudo voltaria ao normal. Só não sabíamos quando esse logo se efetivaria…

Pensava eu, então, que poderíamos retomar nossas vidas cotidianas tranquilamente (ao menos do modo mais tranquilo que as coisas são possíveis nestes nossos estado e país), quando começou outra enxurrada de notícias alarmantes. Agora era a vez de um terrível vírus, que provoca distúrbios respiratórios e muitas mortes. Surgiu na China, na capital da província da região central do país, provavelmente oriundo de algum animal, mas que passou a infectar também seres humanos. E estava espalhando-se rapidamente pelo mundo! Claro, afinal, somos uma aldeia global, hiperconectada, com as vantagens (e desvantagens) dos rápidos transportes que nos levam de um lado a outro em poucas horas. De um momento para o outro, vi-me transportar para o cenário de um novo filme apocalíptico, do tipo “A epidemia”.  Nova onda de notícias ocupou os meios de comunicação, as conversas do povo e minha mente…

Os jornais e noticiários informavam que o tal coronavírus surgido na China é uma nova variedade dessa família de vírus. Sua transmissão é feita, indiretamente, por via aérea, pela tosse ou espirro, pois está na saliva, nos fluídos do corpo. Mas também é possível contraí-lo pelo contato com objetos contaminados, ou por esses mesmos fluídos do corpo levados à boca, nariz, ou aos olhos pelas mãos sujas. Portanto, não parece nada difícil transmiti-lo, mesmo não sendo ainda conhecida a facilidade dessa transmissão entre as pessoas.

“A sua taxa de mortalidade, apesar de já serem mais de 2000 pessoas falecidas só na China continental, nem é tão alta” – pensei após ler a respeito… As estimativas são de cerca de 3,4% de mortes entre os infectados e, ainda assim, mais entre crianças, idosos e pessoas com baixa imunidade. Outras epidemias com características de comprometimento respiratório, como a síndrome respiratória aguda grave (2003/2004; 9,8% de mortalidade) ou a síndrome respiratória do Oriente Médio (2012; 38% de mortalidade) mataram em muito maior proporção. Os sintomas são: febre, tosse, falta de ar, diarreia, podendo chegar à pneumonia, insuficiência renal e, finalmente, à morte. Alarmante é o fato de que não há tratamento específico, nem vacina. Cabe apenas tratar os sintomas, hidratar bem a pessoa enferma, deixá-la descansar e isolá-la, evitando contágio de outros. As tais máscaras cirúrgicas, outras mais específicas com filtros, luvas, álcool gel 70 para higienização das mãos são alguns dos cuidados para proteção de si e dos demais.

Se a questão da água, que nem era epidêmica, causou tal rebuliço, podem imaginar o que começava a ocorrer agora, com um vírus. “Acho que esses chineses deveriam ficar em seu país e não andar pelo mundo espalhando a epidemia!” – dizia um. “Pois na minha opinião, quem foi se meter por lá, deveria ficar até a crise passar. Quem mandou viajar para a China???!” – complementava outro. “China?!? Qual o quê!!!! Não soube que o vírus acaba de chegar ao Brasil e parece que foi trazido por gente que estava na Itália?!/ Isso já se espalhou e está começando a ficar fora de controle!!! – falou meio que gritando um indivíduo nervoso e com rosto vermelho de excitação.

Eu ouvia essas sandices na banca de jornal, no ponto de ônibus, no barzinho da esquina, diante da televisão ligada no noticiário. Só me cabia sacudir a cabeça. “Como se alguém tivesse culpa de viajar. Como se fosse possível prever que haveria epidemia!!! E onde ela iria irromper… Que gente tosca!”

Voltando para meu apartamento após um dia puxado no escritório e esperando pelo descanso do fim de semana, encontrei um vizinho exaltado conversando com o porteiro.

– E esses pacotes, Ribamar?! Não param de chegar!!!! Vieram da China, não foi?!?

– Não sei não…

– Essa gente não tem consciência?!? Onde já se viu continuar comprando daquele país infectado? Eu ouvi no jornal um médico dizer que a gente tem que limpar a mão com álcool depois de pegar nas coisas. O vírus pode estar lá, passar para nossa mão, de lá para a boca e, aí… Babau!

– Nossa! Sério?!? Vou perguntar ao síndico se não corro perigo. Imagine!!!! Tenho filho pequeno em casa! Posso ficar doente, não!

– E o governo, então?!? Devia mandar de volta todos esses navios chineses, com essas bugigangas que vendem. Os correios deveriam parar de entregar também! Um bando de irresponsáveis!

Enfiei as mãos nos bolsos, baixei a cabeça e entrei no elevador sem dizer palavra. Eu não ia discutir por um non sense total. Imagine! O vírus tinha vida muito curta fora de hospedeiros humanos ou animais. Em objetos, poderia ficar por pouco tempo. Depois, já não ofereceria risco de contágio. Era um medo infundado. Além do mais, imagine o dano que medidas radicais como as que ele sugeria causariam à economia, não só da China, mas global. Tudo estava conectado e, como eu costumava pensar, o mundo hoje é feito na China!!!

A semana tinha sido puxada. Muito trabalho, muito calor, muitas notícias inquietantes, muita gente tensa e alarmada. Comi alguma coisa leve. A fome era bem menor do que o cansaço. Eu esperava poder passar dois dias em agradável recolhimento, relaxando das tensões, preparando-me para a nova maratona na semana seguinte. Pensei mesmo que seria uma ótima ideia desligar o celular, talvez até a tevê, e deixar-me estar despreocupadamente, entre livros, boa música, algum filminho (quem sabe, cult?!?). A televisão ainda estava ligada. No noticiário, comentavam que os dois casos confirmados no Brasil estavam passando bem. Também informaram que a grande experiência que nosso país estava adquirindo com sucessivas epidemias tropicais – dengue, chikungunya, zica, febre amarela – estavam fazendo acelerar a capacidade de nossos pesquisadores em estudar os causadores e vetores de tais doenças. Por isso mesmo, em 48 horas, já haviam conseguido mapear o código genético da variedade do coronavírus aqui do Brasil. Isso agilizaria estudos para possíveis vacinas. Bem legal! E isso apesar de todas as nossas carências e dificuldades… – pensei. Gente boa esses nossos estudiosos!!!! Fui refletindo sobre isso e sobre meu desejo de sossego, ali, no confortável sofá da sala, ao embalo de ruídos distantes e de luzes mortiças. Nem dei por mim e já estava dormindo…

Acordei de um salto. Ruídos altos e destoantes soavam lá fora. Quanto teria dormido?!? Que dia era? Que horas? Droga! O celular estava descarregado. A luz tinha faltado e meu relógio digital estava apagado. A televisão estava apagada. Mas era dia! Disso eu tinha certeza, pois uma luz forte entrava por entre as cortinas semifechadas.

Levantei-me meio aos tropeções. Caminhei até à janela e olhei para fora. O quadro que se me apresentou era bizarro (para dizer o mínimo). Não havia muita gente nas ruas, mas, as que havia, usavam máscaras, luvas e jalecos. Ambulâncias transitavam com sirenes e luzes piscantes. Carros policiais paravam diante de casas e prédios, prendendo placas de “quarentena” nas entradas, lacrando portões com correntes. Outro veículo, por um alto-falante, alertava a todos que se mantivessem calmos e que só saíssem em caso de extrema necessidade. Ainda assim, só usando máscaras, que seriam distribuídas por agentes de saúde designados para cada setor da cidade. Em caso de que as pessoas apresentassem sintomas de infecção por coronavírus (mesmo sendo só suspeita) deveria ser estabelecido um contato imediato por telefone com o número de emergência de saúde. Estávamos em estado de alerta extremo. Quanto ao fornecimento de luz, todos deveriam manter-se tranquilos. A falha havia sido causada por um grupo de protesto, mas o conserto já estava sendo efetuado e, no máximo em meia hora, tudo estaria normalizado.

“Normalizado?” – pensei… O que havia de normal naquela situação? Quanto tempo, afinal, eu havia dormido? Como o estado de coisas tinha chegado àquele ponto em tão curto espaço de tempo?

De repente, senti muita fome. Isso significa que eu deveria ter apagado por muitas horas mesmo! Mas, primeiro, fui tomar um banho frio. Fazia um calor tremendo, abafado e úmido, amplificado pela sensação de insegurança e temor que estava no ar, nos rostos, na paisagem… em mim. E eu precisava relaxar! Se havia dormido o bastante, aquela forma abrupta de acordar e o pesadelo que estava vivendo acabaram com meu estado de ânimo.

No meio do banho, a luz voltou. “Bem – refleti – agora poderei abrir a geladeira, esquentar algo para comer, botar meu celular para carregar, descobrir o que tinha acontecido e por quanto tempo eu havia dormido.”

Quando vi a data no celular, levei um susto tremendo! “Não pode ser!!!! Como posso ter dormido por uma semana inteira?!? Isso não faz sentido!!!” – gemi numa angústia sem precedentes. “Preciso saber detalhes. Na televisão ou na internet terei melhores informações” – decidi. “Também tenho que ligar para o escritório. No meio deste caos, pensarão que empacotei, bati as botas, fui mais uma vítima do tal vírus”. “Isso, ou já perdi o emprego!!!” – concluí por fim com meus botões.

Sentei-me diante do aparelho de televisão e comecei a tentar digerir o quadro insólito que se me apresentava. No fim de semana passado, vários eventos aceleraram a propagação do vírus, numa cepa bem mais mortal do que a originalmente identificada. Vários países, como a Rússia, por exemplo, haviam impedido a entrada de cidadãos chineses em seus territórios. Destes, a proibição foi-se expandindo às nações asiáticas em geral, depois às europeias que tinham casos de enfermos e por aí vai. A Itália, por exemplo, foi um caso icônico. Esse foi o primeiro passo.

A seguir, embargaram o comércio, a troca de mercadorias de um lado ao outro. O abastecimento que já estava prejudicado numa China de mais de um bilhão de pessoas, foi-se intensificando, claro, ao longo da semana. E o reflexo não parou ali. Começou a espalhar-se por outros países.

O vírus, por sua vez, não ficou quietinho no seu canto. Começou um processo acelerado de evolução e as mortes foram ganhando terreno, alterando as expectativas iniciais e ampliando as porcentagens desfavoráveis.

Claro que ele não ficou contido em território chinês continental. As pessoas, acuadas e com medo, começaram a dar um jeito de sair do país, a transpor fronteiras, a contrabandear-se para lugares que consideravam mais seguros. E, naturalmente, os não chineses queriam ser repatriados aos seus lugares de origem, o mais longe possível do perigo. Ainda no final de semana passado, enquanto eu dormia, todos os continentes do planeta já apresentavam casos não só de infectados, mas de fatalidades, tanto da cepa mais branda, quanto da mais feroz, que agora competiam por hospedeiros.

Em vista das notícias alarmantes, o medo tomou conta e as pessoas começaram a tornar-se irracionais e agressivas. Atacavam-se umas às outras. Qualquer um acometido de uma gripezinha banal virava um inimigo, contaminador em potencial. A busca por máscaras, luvas e álcool gel de corrida virou guerra. As autoridades, então, precisaram intervir. Eu estava numa total exaustão e, por isso mesmo, não me dava conta do que ocorria. Até acordei num momento ou outro, mas a cama estava tão gostosa (na verdade, o sofá cama da sala) que só saí brevemente para ir ao banheiro e mergulhei de novo em sono profundo, sem nem perceber os sonhos.

Numa última ação, a população foi colocada para dormir por soníferos em gás, expelidos por veículos militares. Foi instaurado um estado de emergência e a quarentena foi estabelecida. Com o controle das cidades em zonas fechadas e devidamente policiadas pelas forças armadas e agentes de saúde, a população pôde ser acordada lentamente, com a retirada dos soníferos. Aí só nos restava a submissão ao novo sistema e as orações (ou desejos) pela cura rápida.

Eu só via os pontinhos negros crescendo nos mapas mundiais, nas animações dos noticiários a cada meia hora. Era o fim! A humanidade seria reduzida drasticamente. Teríamos, os sobreviventes, que nos readaptar, redistribuir as funções, como na segunda parte do último filme dos Vingadores (o Ultimato). Pelo menos, pensei numa tentativa de ver o lado bom da situação, o planeta teria menos impacto ambiental e, talvez, conseguíssemos parar a escalada de destruição na qual vínhamos nos embrenhando.

Foi nesse momento, em meio às notícias, imagens e reflexões, que comecei a sentir-me mal. Um calafrio percorreu meu corpo. Seria pânico ou febre? A garganta coçou. Tossi insistentemente. Seja pela tosse compulsiva, pelo nervosismo, ou pela doença, comecei a sentir falta de ar. A barriga doeu e percebi que precisava correr para o banheiro! Mas nem tinha comido nada fazia uma semana!!!! Aliás, como poderia ter pego qualquer doença transmissível por outras pessoas, se tinha estado em isolamento voluntário por uma semana e o vírus tinha recentemente entrado no Brasil?!? Teria a mutação do vírus o tornado tão mais letal que se espalhava pelo ar a longas distâncias, por grande espaço de tempo, sem perder sua virulência?

De repente, me vi sem vida. Em tão tenra idade ainda!!!! Pensei nas pragas do Egito, na peste negra durante a Idade Média, que havia dizimado populações inteiras, na epidemia de cólera durante a guerra do Paraguai, na gripe espanhola, na epidemia do ebola… E eu seria mais uma vítima desses microrganismos tão mais poderosos que o arrogante ser humano…

A angústia foi crescendo. A falta de ar aumentando. Era agora… o colapso… Bum!!!!…

Acordei com a manta do sofá enredada perigosamente na minha garganta, no gelado chão do piso da sala, suando em bicas, massageando o corpo moído do sono no sofá. De lá de fora, pela janela, entrava uma suave luz solar de início de manhã de verão. O relógio digital marcava 8 horas do sábado. Apenas o canto dos pássaros e os gritos alegres das crianças chegavam aos meus ouvidos. Levantei-me aos tropeções. Nada de polícia. Nada de militares. Nada de agentes de saúde. Nada de correntes, ou máscaras, ou infectados, ou mortos. Só uma bela manhã do sábado do mesmo fim de semana no qual eu queria tanto descansar. Foi só estresse. Foi só cansaço. Foi só a sugestão motivada pelas notícias do telejornal. Foi só um pesadelo!… Mas, e da próxima vez?!?

Compartilhe!

Deixe uma resposta