A vida nos nossos tempos – 1: Moderna escravidão

“Série pecados sociais”

Por: Cristina Vergnano

Hoje, 1º de maio, comemoramos o “Dia do Trabalhador”. Quando eu era pequena e estava na escola, lembro-me de chamar a data como “dia do trabalho”, o que talvez reforçasse uma visão algo equivocada sobre a instância dessa atividade humana. Ou seja, se valorizasse mais o ato de trabalhar do que os indivíduos que o praticavam…

Neste ano de 2020, devido à pandemia Covid-19, o tema do trabalho adquire dimensões bem dramáticas, pois a quarentena, necessária ao retardamento da expansão do contágio, impede várias categorias de exercerem suas funções laborais. Embora eu não seja economista, nem socióloga, nem gestora, ou política, tenho a opinião de que a questão envolve aspectos muito mais sérios, complexos e anteriores à crise atual. Na verdade, a situação gerada pela epidemia favorece a reflexão e o lançamento de um olhar crítico sobre toda a complexidade dos problemas relacionados ao contexto trabalhista na sociedade moderna.

Hoje é, também, o dia em que a igreja católica celebra São José operário, o homem que com sua atividade de artesão carpinteiro manteve a si e a sua família, cuidando e educando o menino Jesus. Em sua homilia desta sexta-feira, lembrando ambas as datas, o Papa Francisco, além de rezar por todos os trabalhadores, ressaltou que o trabalho é inerente à condição humana. Mas, principalmente, que o trabalhador precisa ser tratado com dignidade, gozar de empregos com condições e remuneração respeitosas e do devido, reparador e prazeroso descanso.

O problema não está, a meu ver, em se trabalhar muito, ou duramente. Está no tratamento desigual e desumano pelo qual as pessoas são reduzidas à condição de máquinas ou ferramentas. Onde são descartáveis… E isso não é exclusivo da presente crise!

No que se refere à quarentena, preocupa, sem dúvida, o fato de que há vários trabalhadores na informalidade (muitos dos quais têm sido estimulados a isso em nome de um alardeado empreendedorismo), se encontram, agora, sem ter como obter seu sustento. Preocupam, ainda, todos aqueles cujas funções não podem ser desempenhadas remotamente e cuja “prioridade relativa” não justifica pô-los, e aos demais, em risco de contaminação. São indivíduos cujo produto do trabalho está diretamente ligado a outras pessoas, fisicamente: cabeleireiros, manicures, treinadores e preparadores físicos etc. O que fazer, quando o peso na balança pende perigosamente para ambos os lados? Neste momento, resta-nos ser solidários e procurar formas de ajudá-los sempre e o mais integralmente possível.

Em termos mais amplos e abrangentes… bem… sobre os informais, parece ser que a crise está pondo manifesto o risco tremendo que é não adotar uma organização social que se preocupe com a segurança e estabilidade de seus membros. Quanto aos autônomos e empregados de serviços presenciais, caberia, talvez, pensar que também eles precisariam de mecanismos de proteção para tempos de exceção. Para ambos os casos, é necessário planejamento sério e um compromisso de toda a sociedade, voltado para o bem comum (e não só de certos grupos).

O problema dos trabalhadores, contudo, não para por aí. Os baixos salários, a informalidade, as jornadas duplas, as condições desgastantes, tudo isso é pauta de discussões frequentes de sindicatos, parlamentares, cientistas sociais, religiosos, sociólogos, psicólogos e outros profissionais. Teríamos, no entanto, que passar da fala à prática o mais rápido possível. E, nisso, espero que a pandemia ajude: que desperte as consciências e as leve a promover soluções.

Há, contudo, outro aspecto menos visível a considerar. O que eu chamo de moderna escravidão. E, por que tão invisível? Porque está revestido de legalidade e naturalizado por práticas cada vez mais inerentes à vida social de hoje em dia.

Por exemplo… numa tarde, estava eu conversando com um conhecido que trabalha para uma empresa de petróleo. Ele voltou a embarcar em plataformas. Quem faz esse tipo de serviço, tem, como amparo legal, o direito a folgas no mesmo número dos dias trabalhados. Ou seja, quem embarca por 15 dias, teria direito a 15 dias de descanso. Isso se justifica em função do alto risco, do estresse e do fato de que tais profissionais ficam confinados nesse ambiente durante todo o período de embarque. O tal conhecido havia desembarcado e chegou em casa no domingo. Para minha surpresa, deveria voltar ao trabalho (dessa vez em terra) na segunda-feira! Perguntei-lhe, então, sobre os dias de descanso (tinha ficado fora uma semana, mais ou menos). A resposta foi ainda mais surpreendente! “Sim – disse ele –, o direito existe, mas ‘pega mal’ pedir para ficar em casa.  Além do mais, alguém irá para lá fazer o trabalho. Nesse caso, eu passaria a ser ‘prescindível’ e, por conseguinte, poderia acabar perdendo o emprego.” Como assim?!? Perder o emprego porque estaria gozando seu direito ao descanso?!?! Isso é escravidão, mesmo que remunerada!!!! Mais grotesco foi o fato de que o interlocutor, até concordando, afirmou que as coisas são assim…

Este caso, provavelmente, é desconhecido da maioria, posto que é muito específico de determinada carreira. Mas, o que diremos do fato de que, hoje em dia, as pessoas estão conectadas a todo instante e que seus chefes esperam que elas respondam para ontem?!? E não importa que seu horário de trabalho já tenha terminado, que seja feriado ou fim de semana… Em certas empresas, inclusive, se disponibiliza um celular para o funcionário estar sempre a postos. Já ouvi argumentos de que esses profissionais são muito bem pagos. Por isso, nem podem reclamar. Como assim (de novo)?!? Não há dinheiro que pague a saúde física e mental de uma pessoa! E, depois que ela “quebrar”, será descartada, pois há muitos na fila, disputando o seu lugar.

O que somos? Máquinas? Peças passíveis de reposição?

Como podemos observar, se, claro, se toma um tempinho para refletir sobre a questão, a escravidão ainda está bem viva na atualidade. Apenas revestiu-se de roupagens mais sofisticadas. Ao lado dos escravos de fato (esses ainda estão por aí, em geral sob a forma de imigrantes ilegais, crianças etc), estão os novos escravos (ou servos). Mal remunerados; subempregados; informais sem quaisquer direitos; trabalhadores bem especializados e caros que, porém, não têm mais vida privada, pois todo o seu tempo precisa estar disponível ao estalar dos dedos da sua autoridade superior… E nem falemos das ameaças de suspensão e redução de salários ou outros direitos que, volta e meia, entram em pauta trazidas e defendidas por determinados grupos.

Somos (muita gente já o afirmou) uma sociedade doente. Vivemos viciados por celulares, redes sociais, exercícios físicos, adrenalina, festas com muitos participantes e muito ruído, aparência (visual, vestimentas, posses). Deixamo-nos enganar pela publicidade, que coloca nessas coisas e situações um status de prestígio, sem percebermos que, no roldão, consentimos em que nos escravizem e coisifiquem. Transformam-nos em máquinas substituíveis, e, além de não nos darmos conta, ainda endossamos tais condutas, orgulhosos de pertencermos a um mundo tão evoluído.

Não estamos evoluindo… Estamos parados na mesma condição escravagista do passado (só que mais colorida e disfarçada de alegre e glamorosa). Não temos consciência (a maioria de nós) de nossa condição de gado, de máquina, de escravos. Não percebemos que fazemos parte de um conjunto e que, se há gente explorada e doente nesse todo, a totalidade corre sério risco de sucumbir. O “dia do trabalhador” precisa ser isto: dia de indivíduos que exercem uma atividade social remunerada qualquer, mas inerente sempre à condição de seres humanos. Que seja o dia da dignidade, do reconhecimento, da valorização da humanidade. Que nunca mais seja sinônimo de exploração e escravidão consentidas e naturalizadas.

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