Impressões

Por: Cristina Vergnano

Estamos, mais ou menos, a meio inverno. A estação começou no dia 20 de junho. Enquanto registrava essas ideias, 51 dias se haviam passado e faltavam ainda 43 para a primavera, que só iniciará em 22 de setembro. A sensação quando saí para caminhar naquele dia, no entanto, foi bem distinta do esperado para a estação.

Por volta das 13h, numa rua sossegada, banhada de sol, sob um céu límpido e azul, reinava uma temperatura de morna a medianamente quente. Boa para estar de bermuda e camiseta sem mangas, aproveitando a claridade e os raios solares tão necessários à produção de vitamina D e à fixação do cálcio no organismo. Parecia que a primavera já havia chegado, tanto pela claridade e o calor, quanto pelas borboletas, dando seus volteios entre a vegetação, e pelas flores abundantes em algumas árvores. O curioso é que, na semana anterior, no mesmo cenário, chamou-me a atenção um certo tom de outono, marcado pelo vento suave e pelo azul profundo do céu em contraste com o verde de uns grandes arbustos copados. Naquela ocasião, pensei nisso e em como as aparências de diferentes estações do ano estavam se sucedendo em curto espaço. Faz pouco, tivemos vários dias chuvosos, frios e cinzentos, bem invernosos, com noites de baixa temperatura… Ao que tudo indica, as previsões para o inverno 2020, mais suave aqui no Rio, eram acertadas!

Gosto do inverno, pois aprecio as temperaturas mais frias. Tenho que confessar, contudo, que a paisagem cinza e deserta acaba por me deprimir um pouco com o passar dos dias. Acho o (que eu chamo de) “sol frio” bem mais interessante. Trata-se de um cenário composto por vegetação verde com toques das cores de algumas flores, céu bem azul (se houver alguma nuvem, será discreta, apenas para compor a paisagem, com seu branco claro e tênue) e um sol que ilumina bem, aquecendo, no entanto, muito ligeiramente. É agradável para caminhar e estar, não gera suores extenuantes e ainda nos brinda com uma alegria colorida.

Nesse sentido, a caminhada da semana anterior foi mais prazerosa do que a dessa tarde, por ter sido mais próxima a esse clima ameno e iluminado de que tanto gosto. Ainda assim, não esteve de todo mal. Até porque, como pontuei a princípio, estamos no inverno, certo?!

Considero-me uma criatura urbana. Vivi toda a minha vida em apartamentos, embora tenha tido a sorte de que fossem no térreo, ou no primeiro andar com uma pequena área. E isso fez toda a diferença, creio eu… Plantas sempre foram uma presença, seja porque minha mãe gostava muito delas, seja porque eu também adquiri o gosto por essas companheiras silenciosas. Meu bairro, mesmo que com os anos isso esteja mudando, tem bastantes árvores e, como consequência, pássaros, borboletas, cigarras, abelhinhas, micos, morcegos… Um belo conjunto natural com fauna e flora, convivendo com a frieza cinzenta de concreto e cimento. Isso me traz à reflexão a relevância que para nós, animais humanos e urbanos, continua tendo o contato íntimo com a natureza silvestre.

E, nessa trilha de reflexões, despertada pelas caminhadas ao sol nada invernoso, começo a pensar que os sentidos se confundem e entrelaçam quando nos abrimos a tais contatos. Cigarras cantando em novembro e dezembro, por exemplo, têm para mim cheiro e gosto de abacaxi e uma sensação de Natal e de férias. Isso vem da infância. De um tempo em que brincávamos na rua com a garotada e o tempo quente do verão próximo anunciava que as aulas logo terminariam e as festas de final de ano abririam o período de férias. Também não era tão fácil encontrar todo tipo de vegetais nas feiras e nos mercados, como o é atualmente. As coisas eram bem mais sazonais. Logo, os  (melhores) abacaxis abundavam em especial nos meses quentes, com mais sabor e aroma. Hoje, são produzidos o ano todo, mas não naquela época…

É curioso isso! Essa capacidade que temos de mesclar as coisas. Essa sinestesia, que pode ser um distúrbio neurológico, ou uma figura de linguagem, me soa, de fato, à capacidade de criar e perceber impressões, fazendo entre elas associações de caráter afetivo e/ou simbólico. Cigarras + abacaxis terão sempre para mim efeito positivo, indício de festa, de descanso, de luminosidade e alegria. Vento + azul intenso + frescor serão sinônimo de paz outonal. E as impressões fluem por diversos sentidos: a visão, principalmente (no meu caso particular); mas, também, a audição, o tato, o olfato e o paladar. Este último tem bastante força… nem sempre, contudo, associado aos demais, me parece…

Às vezes, temo que, em nossa ânsia pelo moderno, acabemos esquecendo os caminhos que nos levam a essas experiências algo telúricas, meio lúdicas, muito significativas em termos emotivos. Corremos demais! Preocupamo-nos demais! Desejamos muito! Buscamos afoitamente! E esquecemos de parar para ouvir, para sentir, para sonhar… Impressões, sempre as teremos. A qualidade que terão e o que significarão para nós, para nossa memória, nossa afetividade… isso dependerá de quão dispostos estaremos a parar e deixar fluir esse rio sinestésico de vida.

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2 thoughts on “Impressões

  • 18/08/2020 em 13:00
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    Realmente o canto da cigarra me remete aos dias de calor e às férias… Acho que a garotada de hoje não consegue entender algumas dessas coisas e quando me vejo tentando explicar, por exemplo, que algumas frutas só estavam disponíveis em determinadas épocas do ano ou quando me espanto ao ouvir uma cigarra cantando fora de época, me sinto meu avô me contando suas histórias de menino de 1918…

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    • 18/08/2020 em 17:20
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      De fato!!!! As diferenças geracionais aparecem nos mínimos detalhes, né?! Mas o bom é que podemos viajar para outras épocas e lugares quando pessoas queridas nos contam histórias… Eu espero, sinceramente, conseguir ser um desses veículos para convidar imaginações a viajarem comigo e com outros. Bj.

      Resposta

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