Quando o TODO nos sorri

Por Cristina Vergnano

A vida tem um jeitinho todo especial de nos presentear, principalmente quando os momentos estão mais duros. Digamos que constitui uma tentativa de o universo nos brindar com certo refresco. A dúvida é se conseguimos assimilar esses presentes, incorporá-los ao nosso cotidiano e sermos gratos.

Na atualidade, vivemos tempos difíceis. Após um ano de privações e isolamento devidos à covid-19, quando parece surgir uma luz no fim do túnel (a esperança da vacina para sanar todos os males), incertezas vêm e povoam as mentes; agressões brotam de bocas e vídeos; a angústia volta a crescer. É que vírus não dorme no ponto: muda. Tais mutações geram novos questionamentos. Será que as tantas opções de vacina darão conta das novas cepas? As versões “2.1, 2.2 etc” são mais contagiosas e/ou mais mortíferas? As inoculações tão esperadas darão conta do recado, impedindo o adoecimento, a transmissão e o contágio? Ninguém sabe ao certo, na verdade. As respostas possíveis parecem, em certa medida, ser só isso: possibilidades desconcertantes e contraditórias.

Seja como for, quando escrevi esta crônica, quadros que se nos apresentavam em meados de janeiro de 2021 (em Manaus, por exemplo, tantas mortes, sofrimento e desamparo, falta até de oxigênio) assustam (a alguns, pelo menos). Também deixam patente uma realidade (negada), em contraste com as praias lotadas do verão, as festas insurgentes, a troca de ofensas entre grupos antagônicos, a politização e monetarização da doença.

Só quem perdeu (e continua perdendo) alguém amado, próximo ou apenas conhecido, sabe a extensão da dor. Entende o vazio do luto não completado. Percebe a urgência do medo e insegurança. Avalia a seriedade e premência da situação. Para os demais, isso é manipulação, oportunismo de quem quer fazer seu nome ou seu bolso, abuso de poder, obstrução da liberdade nossa de cada dia. Enfim… conto de fadas de baixa qualidade.

Em meio a tudo isso, no sábado, 16 de janeiro, minha sogra me mostrou umas fotos e um vídeo desanuviadores. Meus sogros vieram ao Rio de Janeiro para buscar minha cunhada e sobrinha que estavam por aqui, na casa de outros cunhados. A menina, com quase oito anos, está de férias (depois de um ano de ensino remoto) e pôde curtir o contato com outras crianças, seus dois primos, na segurança do lar. O irmão do meu marido mora com a família numa casa no Alto da Boa Vista, bairro da zona norte do Rio. Têm o privilégio de seu quintal fazer fronteira com a borda da Floresta da Tijuca, separados por apenas um riachinho. Claro que por lá aparecem umas jararacas (medão!!!). Mas, nesse fim de semana, o pessoal foi brindado com algo especial: nada mais nada menos do que um bicho preguiça!

Foto de Carolina Ambrosio, 2021. Preguiça no meu quintal.

Pois é… Parafraseando Drummond , no meio do muro tinha uma preguiça; tinha uma preguiça no meio do muro. A coitada devia estar tentando fugir do sol, procurando trepar na tal parede, seguindo a sombra. Na certa, teria descido de uma árvore para fazer suas necessidades fisiológicas, como costume da espécie, e se viu naquele quintal humano, no limite da mata.

Foto de Cristina Vergnano, 2009. Preguiça com filhote em Manaus.

Eu já tive a oportunidade de observar um desses animais em liberdade, numa viagem a Manaus. Embora sejam bem lentos, surpreendi-me na época com o que eu classifiquei de uma reação algo rápida (ao menos, segundo a minha percepção e imaginário). Foi quando nos aproximamos dela, meu marido e eu. Era uma preguiça fêmea carregando um filhotinho. Suponho termos representado uma ameaça à sua cria, pois apontou-nos a pata com as grandes garras (devagar, porém nem tanto), sem descuidar do filhote, nem se soltar da planta onde estava.

Foto de Carolina Ambrosio, 2021. Preguiça no muro.

No caso da preguiça carioca, ao ver-se rodeada de tantos bípedes curiosos, assim que pôde, saiu do local. Segundo minha cunhada, o fez rapidamente. Num momento estava ali perto do muro; no outro, já ia embora, quintal a fora, rumo à floresta. Mas sua filha achou-a lenta mesmo! Chegou até a dar-lhe uma cutucada para ver sua reação (criança às vezes tem pouca noção, né?!). Então, avalio a “celeridade em se afastar” como apenas uma impressão de adulto, no calor da excitação com a novidade…

Nem preciso dizer que a garotada (não só ela: minha cunhada confessou que sentiu o mesmo impulso) amou a experiência e queria segurar aquele bicho tão simpático. Quem já viu uma, sabe! Sua carinha parece estar sempre sorridente e sua mansidão nos dá uma sensação de confiança, uma vontade de carícias. Fofa, diria eu, é o termo ideal para descrevê-la. A preguiça, contudo, ao contrário da meninada, não parece ter gostado dessa socialização e reagiu, retornando ao seu habitat.

O vídeo, compartilhado aqui com vocês, foi feito por outra sobrinha, de sete anos, moradora da casa no Alto. Representa um pedacinho de natureza, em meio a tempos conturbados e realidades ocupadas pela tecnologia, pelos produtos da engenhosidade humana e tudo o que implicam. Acho gostoso compartilharmos essas maravilhas. Melhor ainda é recuperarmos por alguns momentos nosso eu mais natural, em comunhão com a mãe-terra.

Apoiada nesse episódio inusitado, proponho duas reflexões, a fim de nos consultarmos com nossos travesseiros. Primeiro, preguiças são animais silvestres. Aparecer, assim, num quintal, surpreende. Não era ela, contudo, quem estava fora de lugar. Por mais romântico que seja o encontro, é pertinente pensar sobre suas implicações e os impactos que as ações perpetradas sobre o meio-ambiente geram.

Foto de Daniel Junger, 2021. Preguiça carioca.

Em segundo lugar, retomo o argumento inicial desta crônica. Para mim, nos deixamos envolver por aspectos secundários da vida, tornando-os principais e abandonando, com frequência, o realmente importante. A pequena preguiça no muro do quintal chama atenção para prazeres simples, contemplação sem pressa, contato com o telúrico. O verde, o céu, o oxigênio, o ruído do riachinho e o sorriso lento da preguiça nos lembram que somos parte de um todo. E este pôde ser compartilhado, com ares de aventura e brilho nos olhos de crianças e adultos, num certo domingo de janeiro, ainda em plena pandemia, na borda de uma mata tropical, na metrópole do Rio de Janeiro .

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2 comentários em “Quando o TODO nos sorri

  • 25/01/2021 em 22:14
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    Amei o texto!!! Aproveitar o simples, o que temos por perto é o que importa. O problema é que somos impelidos a buscar o amanhã e não paramos pra perceber que o amanhã será aquilo que temos hoje, que fazemos hoje, que aproveitamos hoje! Obrigada por nos presentear com belas reflexões!

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