Mãezinha Aparecida, rogai por nós!

Por: Cristina Vergnano

Com exceção, talvez, dos católicos e de alguns mais interessados pelo assunto, muitas das pessoas que encontro afirmam que o feriado de 12 de outubro, aqui no Brasil, é o dia da criança. Até comemoramos hoje, de fato, esta data … porém não apenas! Esquecem-se (ou desconhecem mesmo!) que dedicamos o dia 12 de outubro (e o feriado!) à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Não é, portanto, um feriado pelo dia das crianças, assim como não são feriados o dia das mães, dos pais, dos avós, dos idosos etc.

Bem… vamos primeiro entender essa questão de “santo padroeiro” … Se procuramos na internet, achamos muitas páginas que falam em santos e nos oferecem listas de padroeiros. O conceito está, sem dúvida, ligado à religião Católica Apostólica Romana, embora haja referência a santos no anglicanismo (é importante ressaltar, contudo, que não foram instituídos santos próprios no âmbito da Igreja Episcopal) e no luteranismo (neste caso, sempre com a ressalva de que são pessoas comuns, criaturas, exemplos positivos, não intercessores). Por isso mesmo, não é estranho que indivíduos que professam outros credos não saibam a respeito, não se interessem pelo tema, ou o interpretem mal.

Para começo de conversa, santos não são deuses, nem são adorados. Esta é uma impressão equivocada. Trata-se de pessoas que “são exemplo de vida cristã e heroicidade nas virtudes” (CNBB, 2019). Também os consideramos “nossos intercessores junto de Deus” (CNBB, 2019). Isso não significa que tenham tido uma vida totalmente perfeita, mas buscaram o caminho da santidade e se entregaram ao amor misericordioso do Pai e ao bem dos irmãos. Na verdade, o Papa Francisco nos lembra que a santidade é um chamado que está ao alcance de todos. Explica que não há um único caminho para isso, que ela não se alcança no isolamento e pode construir-se por meio dos pequenos gestos e atitudes cotidianos. Um detalhe, esse sim, é vital: a presença do amor é fator imprescindível.

Consideremos, então, os termos “patrono”/ “padroeiro”. Tais palavras vêm do latim (patronariu, patronus) e significam defensor. Na Bíblia, vemos como os anjos estão associados a essa ideia de defesa já no Antigo Testamento. No Novo Testamento e na vida dos primeiros cristãos essa intercessão também está presente. A partir do século VII, tornou-se comum que os santos invocados em orações como intercessores e protetores se tornassem padroeiros do lugar em que se manifestava essa devoção. Claro que (e isso deve sempre ficar muito bem entendido!) as graças e bênçãos vêm de Deus, não dos santos. Estes são figuras exemplares, intercessoras que nos ajudam em nossa caminhada.

Santa Maria, a mãe de Jesus, conta com especial devoção entre os católicos. Não é de se admirar. Ela é a primeira cristã, que se entregou sem restrições ao chamado do Pai, deu à luz o Salvador e O acompanhou em toda a sua jornada aqui na Terra, continuando, depois de sua ressurreição, ao lado dos apóstolos. Pouco fala nos textos do Novo Testamento. Sua presença é marcada pelo silêncio que escuta e reflete, pela humildade, fé, amor e entrega. Ao pé da cruz, Jesus a deu a cada um de nós como mãe. E uma mãe cuida, acalenta, consola, aconselha, orienta, guia, intercede por… Sendo assim, o povo sentiu-se adotado e desenvolveu esse carinho filial, essa confiança. Durante os séculos, ela foi recebendo denominações e títulos, mas se trata da mesma Maria. Cada qual apresenta, na devoção popular e nas celebrações da Igreja, seu momento, seu espaço. Neste contexto se encaixa Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

A história de Nossa Senhora Aparecida está ligada a três pescadores, das margens do rio Paraíba no Município de Guaratinguetá (SP), que, em 1717, encontraram, após uma pesca frustrada, uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Primeiro, acharam o corpo. Lançaram novamente a rede, encontrando a cabeça e, por fim, ao jogarem a rede pela terceira vez, conseguiram uma pesca abundante. A devoção popular cresceu ao longo dos anos e, em 1930, o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora de Aparecida como padroeira do Brasil. O feriado nacional foi promulgado em 1980, pela lei nº 6.802, como dia de culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida.

Fé e religiosidade são aspectos que se manifestam de diferentes maneiras. Todas, independentemente do credo professado, merecem respeito e admiração, pois representam manifestações da instância espiritual do ser humano. No caso dos católicos, o amor e a devoção à nossa mãe celeste têm especial apreço. Ela, mulher como nós, simples, pobre, humilde, amorosa, é um símbolo de acolhimento, um exemplo dessa fé sem limites, da confiança plena no amor misericordioso de Deus. Ela mesma é quem nos ensina, por meio da linda oração Magnificat, que é o Senhor quem opera em nós maravilhas (Lc 1, 46-49). Por isso, guiados por sua mão, rezamos para que ela, nossa mãezinha querida do céu, peça a benção de Deus para o Brasil e todos e todas nós, seus filhos e filhas adotivos.

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