Ir para o conteúdo
Tecendo o verbo
Tecendo o verbo

A palavra criativa em versão hipertextual

  • Pra começo de conversa
  • Quem sou eu
  • Seções
    • Digicrônicas
    • Opinião bit a bit
    • Hipercontos
    • Narrativas breves on-line
    • Web-papo
    • Folhetim virtual
    • Garotada Tec
    • Projeto Crianças na quarentena
  • Novidades
  • ToV Interativo
    • Outras vozes
    • Outros pensamentos
  • Grupo Traçando
    • Traçando para o mundo
    • Só entre nós
    • Documentos do Traçando
  • Políticas do ToV
    • Política de privacidade
    • Política de uso do blog
    • Política de publicação de outras autoras e autores no ToV
Tecendo o verbo
Tecendo o verbo

A palavra criativa em versão hipertextual

Siga-me

Um (entre vários) dia da mulher

Publicado em 08/03/202108/03/2021 Por Cristina Vergnano

Por: Cristina Vergnano

Desde a semana passada, estive pensando sobre se postaria ou não algo pelo Dia Internacional da Mulher aqui no ToV. Vocês se espantarão e perguntarão por que, pois, afinal das contas, sou mulher (e com muito orgulho) e todos e todas estão trocando mensagens pela data: nos jornais, na tv, nas redes sociais.

Tenho, para minha hesitação, dois motivos básicos. Primeiro, apesar de eu reconhecer o mérito da comemoração, incomoda-me o fato de alardearem um dia determinado para festejar quem continua sendo alvo de violência e preconceito cotidianos. Em segundo lugar, fico triste ao perceber a comercialização de uma data que representa luta e engajamento por direitos sociais, humanos, econômicos e políticos. Enfim, a banalização do significado profundo que motivou e motiva esse tipo de homenagem me faz questionar a validade de engrossar as fileiras dos elogios de ocasião.

Mas, como podem constatar, optei por escrever assim mesmo e compartilhar com vocês essas linhas. Por qual razão? Para me somar a outra fila: a daqueles que fomentam alguma reflexão a respeito da mulher e do conceito de feminino.

Em outros tempos, lugares e circunstâncias, houve sociedades nas quais a mulher era respeitada e considerada como detentora de sabedoria e força. Hoje, ainda é possível encontrar grupos sociais baseados no matriarcado, embora caiba destacar que o termo não pode ser visto somente como contrapartida do patriarcado. Ou seja, a sociedade matriarcal ou matrilinear não é aquela na qual as mulheres mandam e detêm o poder, subjugando os homens. Trata-se de comunidades onde, em linhas gerais, há maior igualdade, o respeito à natureza e às pessoas é uma tônica e a terra é de uso comunitário, sendo gerida pelas mulheres (não, simplesmente, possuída e exaurida por elas). No passado, a referência à Grande-Mãe, à Deusa, estava presente em diferentes culturas. Por analogia à maternidade humana, a deusa era associada à criação e à renovação. Talvez por isso, os ecos dessa perspectiva deem a direção a esses grupos modernos baseados no matriarcado, entendendo que posturas pacíficas e igualitárias fomentam a criação, renovação e manutenção de recursos e da vida em si em todas as instâncias.

Talvez esse seja o verdadeiro e mais intrínseco sentido do feminino. Não a fragilidade, a beleza estética (que é passageira e depende da época e do lugar) ou mesmo a maternidade em si, mas a força (re)criadora, a comunhão com a vida (todas as formas dela), o respeito ao outro, a busca pela paz e igualdade.

Apesar dessa possibilidade tão atraente, como disse mais acima, a data que hoje comemoramos surgiu a partir de lutas pela igualdade, porque as mulheres, numa sociedade patriarcal, são, no mínimo, tolhidas e, mais comumente, tratadas como coisas, propriedades. No final do século XIX e durante o XX, movimentos pela justiça social, direito ao voto e participação na vida política, demandas por contextos trabalhistas mais equânimes cresceram e geraram importantes ações e conquistas para as mulheres.

Muito se alcançou. No entanto, ainda podemos constatar as marcas da desigualdade nos salários inferiores, nos postos de trabalho menos prestigiosos, na baixa incidência de mulheres em posições de comando, na ausência de creches e efetivos apoios às trabalhadoras com filhos, entre muitos aspectos. Outro dado alarmante é a violência concretizada nos frequentes feminicídios, nas agressões domésticas, no bulliyng e assédio em empresas e escolas. São ataques físicos, psicológicos, morais, emocionais e ideológicos. Lamentavelmente, os perpetradores desses atos incluem, além dos homens (óbvio), também algumas mulheres: o machismo não se limita aos machos da espécie. Eu diria até que, como educadoras e mães, muitas são aquelas que reforçam essa tradição de ódio e desvalorização.

Não sou especialista no assunto. Permito-me, porém, enquanto mulher, incluir um outro tipo de violência silenciosa. Ao menos, eu a vejo assim, pois se propaga por meio do discurso, disfarçada de conquista. Falas, por exemplo, apregoam o direito a escolhermos uma liberdade sexual total, a nos mostrarmos com (ou sem) as roupas que queiramos. Não há no que digo, entendam bem, qualquer intenção de julgamento de caráter moral. Concordo que precisamos ter o direito de escolhas. Mas sempre fico pensando… A quem interessa ver as mulheres, em especial as jovens de corpos bem feitos, (semi)nuas? A quem dá prazer criar e dar ampla publicidade a músicas que veiculam as mulheres como “cachorras” , “cadelas”, “piranhas safadas”, ou outros termos pejorativos? Quem lucra com videoclipes de homens passando a mão na bunda de mulheres em roupas transparentes? Será mesmo que uma mulher só vale pelo seu corpo, pelo seu aspecto sexy? O intelecto, a ciência, a capacidade gestora só são próprios de homens ou de mulheres feias, sem atrativos físicos? Recuso-me a aceitar isso como verdade.

Vejo certa perversidade nesse constructo, pois as próprias mulheres o acabam incorporando e propagando. Ao fazê-lo, creio que se compatibilizam com a imagem do feminino-coisa que as militantes dos séculos passados tanto lutaram para combater e destruir. Quando o MC Leonardo admite o machismo nas letras do funk, mas argumenta que elas refletem a sociedade onde surgem, não se pode tirar-lhe a razão. Realmente, essas letras não aparecem do nada. São indícios de uma cultura que permanece aí: a mesma cultura contra a qual os movimentos feministas lutaram. O problema não é a música em si, mas o que está por trás dela, os sentimentos de que as mulheres são mesmo objetos e não merecem respeito.

Nasci mulher na segunda metade do século XX. Muito do caminho social e profissional já havia sido aplainado por minhas antecessoras, de modo que tive a sorte de não sofrer, como muitas delas, as humilhações e agressões as quais tanto abominamos. Pude estudar, concluir a pós-graduação e entrar para a academia, formando educadoras e educadores, pesquisadoras e pesquisadores. Minha escolha pela área do magistério e dos estudos de linguísticos provavelmente contribuiu para eu não sentir pressões sexistas no ambiente de trabalho. Não as vivi, tampouco, na família e entre amigos. Posso considerar-me afortunada, pois uma infinidade de mulheres ainda não consegue afirmar o mesmo em pleno século XXI. Por essas e por outras, a data continua atual e necessária, como recordatório das lutas do passado e incentivo ao engajamento necessário no presente. Esperemos que, num futuro (não muito distante) nossas sociedades encontrem sentido num viver feminino, configurado no respeito à diversidade, à natureza, à sustentabilidade e à vida. E que o “Dia Internacional da Mulher” seja apenas mais um entre os vários dias dela (e de todos os demais seres, humanos ou não).

Visualizações: 968
Compartilhe!
Opinião dia internacional da mulhermatriarcadopatriarcadosociedade matrilinear

Navegação de Post

Postagem anterior
Próxima postagem

Postagens relacionadas

Brinquedo de criança, brinquedo de adulto…

Publicado em 07/01/202007/01/2020

Por: Cristina Vergnano Em janeiro de 2019, há quase um ano atrás, viajei para São Paulo com meu marido e minha sobrinha de, então, 5 anos (quase 6). Entre as várias atividades que vivenciamos na capital paulista, esteve uma visita ao zoológico, no qual havia um espaço “jurássico” com representações…

Compartilhe!
Leia mais

Era uma vez a escrita…

Publicado em 17/03/202017/03/2020

Por: Cristina Vergnano Dedico este texto a todas as crianças que embarcaram, estão embarcando ou vão começar a embarcar nessa maravilhosa aventura da escrita! Há muito, muito, muito tempo atrás, as pessoas já se comunicavam, mas não tinham inventado a escrita. Elas, então, só podiam mesmo falar umas com as…

Compartilhe!
Leia mais

Concisão e densidade: apresentando os microcontos

Publicado em 30/04/202130/04/2021

Por: Cristina Vergnano Recentemente, participei de um concurso de microcontos. Achei a experiência tão interessante, que decidi inserir uma nova seção aqui no ToV, dedicada aos micro/minicontos. Mas, do que se trata exatamente? Os contos, de modo geral, devem narrar uma história breve, marcada por um único conflito. Esta é…

Compartilhe!
Leia mais

Deixe um comentário Cancelar resposta

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.

Acessar o site

  • Cadastre-se
  • Acessar
  • Mapa do site

Postagens recentes

  • Meditação
  • Encanto lunar
  • Nós em vídeo # 60
  • Ata da quinquagésima nona reunião do Grupo Traçando
  • Ata da quinquagésima oitava reunião do Grupo Traçando

Comentários

  • Cristina Vergnano em Meditação
  • Paula Piano Simoes em Meditação
  • Cristina Vergnano em A palavra tecida faz aniversário
  • Ale Ramos em A palavra tecida faz aniversário
  • Cristina Vergnano em Tempo que flui

Arquivos

Categorias

©2026 Tecendo o verbo Tema WordPress por SuperbThemes