Peço licença para dividir minha alegria com vocês

Por: Cristina Vergnano

Suponho que a muito pouca gente importe a alegria pelo festejo do aniversário de uma desconhecida, ainda mais em meio a um evento olímpico e uma pandemia. Mesmo assim, permito-me um duplo abuso: primeiro, escrever um artigo partindo da comemoração à vida, à minha vida; em segundo lugar, postá-lo aqui no ToV.

Pois é, neste início de agosto de 2021, o segundo ano da pandemia de Covid, estou completando sessenta anos, entro oficialmente para a terceira idade e preciso reinventar o conceito de comemoração, já que não dá para fazer festança e manter a responsabilidade. No ano passado, tentei reunir a família por vídeo chamada. Fui bem-sucedida apenas em parte, embora tenha sido legal. Foi também meu primeiro aniversário sem a minha mãe, o que deixa uma lacuna no coração.

Floresta da Tijuca. Foto: W. Junger, 03.08.21

Neste ano, achei melhor fazer algo intimista, só meu marido e eu, e gostei bastante do resultado. Dormi sem hora para acordar. Tomamos juntos o café da manhã costumeiro. Depois, demos um pulinho na Floresta da Tijuca, vazia num dia nublado e frio, mas repleta de verde, ar puro, vida. De volta em casa, comemos um almoço caseiro e saboroso e eu assisti à missa via YouTube, dando graças por uma existência que considero privilegiada. Encerramos com jantar, seguido do parabéns (bolinho feito por mim) com o marido e a irmã (esta, por celular). Ao longo da manhã e da tarde, li e respondi muitas mensagens amigas, por zap, e-mail e telefone: exemplo de tecnologia aproximando e acarinhando a gente. No final do dia, deitei a cabeça no travesseiro e soube, como disse minha irmã, que a situação limitante vivida por nós neste ano e meio nos ensina que há formas simples de sentir e fazer acontecer a felicidade. Esta, aliás (e me perdoem pelo clichê), não está em grandes coisas, mas nos detalhes e, em especial, nas pessoas e nos relacionamentos.

Rebeca Andrade com suas medalhas. Foto: Ashley Landis, 02.08.21. CNN- Brasil

Em meio ao desgaste de tantos meses de choro e tristeza, perdas e incertezas, ainda é possível sorrir, cantar, vibrar, celebrar, reinventar-se. Não digo isso apenas em termos pessoais, embora seja, talvez, mais fácil assim do que numa escala coletiva. Eu, por exemplo, não estou acompanhando os Jogos Olímpicos, mas é impossível ficar alheia às notícias vindas do outro lado do mundo. Há belas histórias de vidas duras que se superam e vencem (com ou sem medalhas). O Brasil pode até não estar entre os primeiros países nesta olimpíada de Tóquio, no entanto, tem apresentado casos de garra e superação, como os de Rebeca e de Rayssa. Isso nos mostra que é possível, sim, vencer a adversidade, alcançar um sonho, superar as expectativas, dar nó em pingo d’água e calar os incrédulos e maledicentes.

Quando disse que considero minha vida privilegiada, não o falo por ter nascido em berço de ouro. Sou, é verdade, de uma família de classe média; meus pais, contudo, sempre trabalharam muito e alcançaram sua estabilidade com esforço. Quanto a mim, estudei e lecionei como concursada em diferentes instituições públicas, desde o ensino fundamental ao doutorado, aqui no Rio de Janeiro. Ou seja, como aprendi do meu pai e da minha mãe, construí com estudo e trabalho o que tenho e sou.

Rayssa Leal volta à escola depois de medalha. Foto: Instagram/@rayssalealsk8, 04.08.21.

Muito me orgulho disso. Reconheço, porém, as enormes barreiras impostas à maioria das brasileiras e brasileiros. Ter as oportunidades e saber aproveitá-las, tecendo para si e os seus uma vida de sucesso, este é o privilégio (embora não devesse ser deste modo). Sucesso não significa necessariamente fama nem dinheiro. Creio que meninas como Rayssa e Rebeca nos mostram, com seus sorrisos francos, trabalho duro, fé, confiança e tenacidade, a vitória de perseguir e alcançar um sonho, poder ser elas mesmas, conquistar o reconhecimento pelo seu valor como seres humanos. Esse valor já estava lá e elas bem o sabem. É preciso, porém, que a sociedade entenda, enxergue e se abra para favorecer novas estradas, caminhos de glória para cada criança nascida em nosso solo. Uma glória que não reside nas medalhas, mas em serem vistas e tratadas como gente, com justiça, respeito e igualdade.

Meu bolo de 60 anos. Foto: W. Junger, 03.08.21.

Seis décadas de vida é bastante tempo. Quando nasci, a expectativa estava em torno de cinquenta e cinco anos e meio. Já superei essa marca. Espero, sinceramente, viver muitos anos mais, até porque, tenho meus próprios projetos. Gostaria, também, de poder vivê-los numa sociedade menos injusta e egoísta, num planeta cuja natureza seja preservada, entre pessoas a quem se lhes permita sonhar e concretizar seus sonhos. Sei que ainda estou no início desta nova jornada, da chamada terceira idade. Neste sentido, sou ainda “menininha”. Mesmo assim, posso dizer que chegar aqui já faz diferença. A forma como vejo as coisas tem outra cor, tons mais calmos e reflexivos. São sentimentos que se sensibilizam com as dores dos outros, lamentam a dureza dos promotores da desigualdade, se amarguram diante da destruição do ambiente e temem pelo futuro. Podem, no entanto, acender a esperança, encontrar força para lutar e paciência para aguardar os resultados positivos. Esta é a alegria que compartilho com vocês: a de medalhas simbólicas ganhas com a vida em si.

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4 thoughts on “Peço licença para dividir minha alegria com vocês

  • 13/08/2021 em 17:23
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    Cris!! Quando eu crescer, quero escrever igual a vc !!!! srsrrssr… brincadeiras à parte. Amei o texto, já que vc falou da sua idade, falo da minha, aos 35 ainda tenho muitas medalhas para conquistar!

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    • 13/08/2021 em 17:58
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      Oi, Joelson! Sem dúvida, a vida tem muito a oferecer, você ainda tem bastante tempo pela frente e, com certeza, vai construir suas vitórias. Estou na torcida!!! Que bom você ter curtido o texto! Bjs.

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  • 10/08/2021 em 15:21
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    Que texto bonito. Parabéns Cristina. Continue com esse olhar atento e afetuoso em relação a tudo e todos.

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    • 10/08/2021 em 15:55
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      Oi, Paula! Fico feliz que tenha gostado. Aniversários sempre foram importantes para mim: o meu, claro, e os das pessoas que me são caras. Mas, com o tempo, a idade e a pandemia, passam a trazer maiores reflexões. Esse pensar sobre a vida, o mundo e as pessoas permite fazer conexões. Daí a improvável ponte entre o meu aniversário, a celebração à vida e as olimpíadas. 😉

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