O que dizer quando o preconceito parece nortear tomadas de decisão na educação?

Por: Cristina Vergnano

Hoje, meu marido estava lendo uma notícia publicada no Caderno de Educação de O Globo do dia 9 de agosto, quando deixou escapar uma frase que despertou minha atenção. O atual ministro da Educação, Milton Ribeiro, teria declarado, segundo a publicação, que “a universidade, na verdade, deveria ser para poucos, nesse sentido de ser útil à sociedade.”

A afirmação, vinda do representante oficial da instância decisória da educação no país, choca. Chocaria, penso eu, na boca de qualquer um. Na do senhor ministro da Educação, contudo, tem um peso opressivo. O que se postula nessa frase envolve diversos aspectos e implica consequências que podem ser devastadoras para os perfis educacional, profissional e científico do Brasil. Até por isso, merece uma reflexão cuidadosa.

Pensemos: para que serve uma universidade? Minha experiência de 28 anos, atuando numa instituição universitária pública, considerada umas das dez melhores do país, me permite concluir que seu papel é multifacetado. Por um lado, deve, de fato, formar profissionais técnicos de nível superior. Mas, ao mesmo tempo, é onde se forjam os pesquisadores e a pesquisa de ponta em diferentes áreas do conhecimento. Para além disso, precisa compartilhar esse conhecimento, construído e discutido entre seus muros, com a sociedade. Daí a relevância tanto dos produtos/ processos e publicações, quanto das ações extensionistas.

Ora, nem todas as atividades sociais dependem ou estão contempladas por cursos superiores. Do mesmo modo, nem todas as pessoas têm interesse por carreiras cuja formação se dá em nível universitário, ou pela pesquisa pura e aplicada. Nesse sentido, pode ser concebível concluir que a universidade não é para todos. Mas aqui cabe um alerta: a decisão pertence a cada indivíduo, ou seja, está no âmbito do foro íntimo, não do arbítrio do Estado. Tampouco se trata de uma escolha dependente da classe socioeconômica (ao menos não deveria ser assim), uma vez que o desejo e a vocação podem estar presentes em pobres e ausentes em ricos, tanto quanto no sentido oposto.

Não nego que haja distorções no sistema. Estas, porém, vêm, muitas vezes, da desvalorização que o próprio mercado imprime ao profissional sem um diploma de nível superior, mesmo quando irá desempenhar uma função compatível com uma formação técnica. Digamos que pesa aí a lei do mercado, da oferta e da procura. Onde há poucos empregos e muitos candidatos, os gestores podem ditar normas e escolher conforme seu parecer. Nem sempre pesarão, assim o vejo, os critérios mais ajustados ao serviço. Ao contrário, poderão ser mais decisivos os aspectos financeiros, conveniências, oportunidades de maximizar lucro, preconceitos. Por isso, vemos gente com diplomas de graduação, ou mesmo de pós-graduação, atuando em atividades que poderiam ser ocupadas por profissionais de nível médio, deixando estes sem emprego. Também observamos os trabalhadores de formação pré-universitária, compatível com os trabalhos exercidos por eles, sendo subvalorizados e mal pagos, pois, afinal, diriam seus empregadores, só estudaram até o Ensino Médio.

Seja como for, repito, a decisão por um grau de instrução ou outro deveria ser do estudante, segundo seus projetos de vida e futuro. O mundo do trabalho precisaria repensar seus critérios, a fim de avaliar segundo as necessidades, o potencial e o desempenho adequados a cada situação específica, sempre com remuneração digna. E o governo teria a obrigação de oferecer as condições para que qualquer brasileiro ou brasileira optasse por e seguisse a carreira escolhida.

Educação custa caro, é verdade. Constitui, contudo, um dever do Estado. Para isso são pagos impostos. O dinheiro arrecadado serve (ou deveria servir) aos pilares de sustentação social: saúde (incluídos os acessos à alimentação, à moradia e aos cuidados médicos e sanitários), educação e segurança. Um povo com saúde física, mental e emocional tem condições de buscar seus caminhos. Quando educado, pode fazer escolhas lúcidas, críticas e direcionar sua vida ao bem próprio e comum. Com segurança, sente-se mais estável, livre e capaz de atuar com a crença em um amanhã possível. Os três pilares estão interligados e precisam fundamentar-se na justiça, nos princípios de igualdade, de respeito e de liberdade.

Frases como as do ministro sugerem um preconceito elitista, no qual o bem-estar social se considera como um privilégio para poucos escolhidos, ou, pelo menos, se propõem graus diversificados de status e acesso a esse bem-estar. Ao definir a existência daqueles merecedores de ingressar numa universidade em oposição aos que não precisariam frequentá-las, predetermina uma casta detentora, provavelmente, dos melhores salários, a qual estará no comando de empresas, instituições e ditará não apenas os rumos do país, como, também, quem gozará de privilégios semelhantes no futuro.

A postura que perpassa esse discurso é complicada e, para dizer o mínimo, questionável. Vai na contramão de tudo pressuposto como educação, pois se apoia em preconceitos, amplia a diferença entre ricos e pobres, e, até, em algumas instâncias, entre gêneros e crenças religiosas. Nenhuma sociedade pode progredir com base em tais princípios. Leva-nos, então, a perguntar: a quem interessaria tal cenário? Esperemos, portanto, que se trate apenas de uma escolha infeliz de palavras.

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