Onde se forja o pavor

Por: Cristina Vergnano

Apesar de contente com sua manhã no Instituto, Clara sentia certa apreensão no regresso à casa. Era sempre assim nos últimos meses, desde o novo casamento da mãe.

Ao entrar, pensou em se desincumbir logo da pesquisa que trouxera, mas percebeu que o escritório já estava ocupado. Deteve-se à porta, com receio de interromper a concentração do padrasto, envolvido em uma vídeo-chamada. Não sabia bem como agir com ele. Sempre lhe vinham à mente as experiências com o ex de sua mãe. O homem nunca lhe fizera nada diretamente, porém metia-lhe medo. Mais do que isso: o horror subia-lhe pela espinha, ao entrar em contato com seu olhar vidrado e seus modos violentos.

Lembrou-se, de repente, do pai. Na verdade, do imaginário de pai que perdera ainda na infância. A partir de sua ausência, inexplicável para alguém tão jovem, desenvolveu inúmeras fobias, reflexo da carência e da insegurança por ela motivada. A pior delas eram os episódios de terror noturno, quando monstros invadiam seu quarto e ameaçavam levá-la para lugares sinistros, a fim de participar de rituais diabólicos.

O ex de sua mãe parecia combinar com tais práticas. Este? Ela ainda não conseguia saber. Decidiu, então, afastar-se silenciosamente, antes que ele se virasse e a visse. Antes que o pânico, após ser pega em flagrante observando-o e avaliando sua conduta, tomasse conta dela e a fizesse correr porta afora, numa de suas crises de descontrole.

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