Reminiscências Publicado em 01/10/202101/10/2021 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano “Ai, no meu tempo…” Quem, com mais de 40 anos, nunca se pegou dizendo essa frase? Tal saudosismo não costuma corresponder de fato à realidade, mas ser uma leitura. A questão, eu diria, é que as reminiscências tendem a enviesar nossa perspectiva sobre o mundo, os fatos as pessoas e nós mesmos; viés esse ampliado na mesma proporção com que avança nossa idade. Pensando na metáfora da montanha (já batida, eu sei), costumamos associar a primeira etapa de vida a uma franca subida, um crescimento. No auge de nossa caminhada, alcançamos um platô, maior ou menor segundo a natureza de cada um e as circunstâncias. É quando muitos se percebem no topo da beleza, das capacidades intelectuais e físicas, confiantes e potentes. Chega, porém, como em tudo, a hora da descida. Isso não é necessariamente ruim, dada a experiência acumulada e o quanto podemos dela desfrutar. Arrisco dizer, contudo, que os olhares se voltam, nesse momento, com certa frequência para as etapas anteriores da jornada e suspiram. Este é o terreno fértil para lembranças e o valor positivo a elas atribuído, apoiado na saudade. Bat-beg com bolas amarelas de acrílico, cordão de nylon e argola de metal. Tomemos, por exemplo, o caso do bat-beg, aquelas duas bolas ligadas por um fio grosso de nylon. Quem, na minha (pré-)adolescência, lá nos anos 1970, não queria um? E os de acrílico, pesados, brilhosos e transparentes, eram os mais cobiçados. Eu tinha um amarelo. Aliás, bem apropriado, considerando o fato de amarelo e roxo serem cores complementares. Afinal, os hematomas no meu braço eram frequentes. Mas eu ligava? Claro que não! Olho a foto do tal brinquedo e me lembro, com um sorriso discreto, o legal que era, como desejávamos executar os movimentos mais complexos e continuados com ele e, por fim, penso que aqueles eram tempos ingênuos. Acidentes, machucados? Faziam parte do show! Hoje, 1º de outubro, num programa de tevê enfocando o Dia Internacional do Idoso, Carlinhos de Jesus, dançarino e coreógrafo carioca, comentou sobre a expressão com a qual iniciei a crônica, que para ele não procede. Afinal, enquanto estiver por aqui, diz, o seu tempo será cada tempo vivido. Ou seja, não ficamos perdidos em algum lugar longínquo e pretérito à medida em que envelhecemos, a não ser que o desejemos. Reinventar-nos está no âmago da afirmação do artista. O que quero enfatizar é o caráter quase mítico dessas recordações saudosistas. São cultuadas como tesouros de épocas mais bonitas e agradáveis e nos ancoram num momento que já passou. No entanto, se olharmos com lupa, teremos de admitir tratar-se de uma ilusão. Qualquer passado poderá ser o melhor dos tempos. E qual seria o momento histórico dessa utopia? Dependerá sempre do ano de nascimento do observador e de quando ele chegará à etapa de descida da tal montanha da vida. A questão é: até que ponto desejamos nos abandonar nesse não-lugar perdido no tempo? Visualizações: 962 Compartilhe! Digicrônicas bat-begDia Internacional do Idosoreminiscênciassaudosismo
Por falar em docentes… Publicado em 15/10/202415/10/2024 Por: Cristina Vergnano Há muitos anos, não me lembro bem onde ou de quem, ouvi que, na Grécia Antiga, os pedagogos eram escravos encarregados da instrução dos filhos de seus senhores. Na internet, se consegue confirmar a informação. Chego a achar o fato uma ironia cruel, quando penso na atual… Compartilhe! Leia mais
As (des)razões de cada um Publicado em 12/11/202212/11/2022 Por: Cristina Vergnano A internet e sua comunicação rápida e efêmera quase nos fazem esquecer outras formas de entretenimento e interação, que tanto povoaram nossas vidas ao longo da história. Cada tempo, claro, tem sua estrela. Por exemplo, muitos dos leitores e leitoras provavelmente nunca ouviram falar dos “Disquinhos”, ou… Compartilhe! Leia mais
Naquela praça… Publicado em 26/11/201926/11/2019 Por: Cristina Vergnano Os dois namorados passaram apressados e de mãos dadas, como faziam todas as manhãs, por aquela pequena pracinha, escondida entre três ruas da Tijuca. Faziam isso para cortar caminho, do ponto do ônibus para o trabalho. Mas algo estava diferente naquela manhã. Mesmo contra o bom senso,… Compartilhe! Leia mais