A Odisseia, Parte III: “A vingança de Odisseu”

Canto XXIII e ½, apócrifo: Sentença de Penélope

Por: Cristina Vergnano

A partir de A Odisseia, de Homero

Ao receber a notícia do regresso do senhor de Ítaca, Penélope não pôde crê-lo, tantos foram os anos passados, tais o sofrimento e a desventura. Decerto, pensaria, algum deus a haveria livrado dos importunos pretendentes, os quais maculavam a casa do rei há tanto perdido. Acedeu dirigir-se, apesar da descrença, ao salão. Lá, não reconheceu de imediato o andrajoso que se lhe apresentava. Odisseu, por sua vez, com malícia propôs-lhe que se arrumassem em segredo para comemorar a ocasião. Ao persistir a dúvida, ela ofereceu, a título de teste, que sua cama fosse retirada do quarto para o repouso do estranho personagem. Este deu-lhe, então, a prova cabal de sua identidade, relembrando a peculiaridade do leito escavado em um único carvalho, de tal sorte que seria impossível removê-lo de seu sítio. Ante o sinal inquestionável, ela rendeu-se e reconheceu o marido. Por fim, estando ambos a sós na alcova matrimonial, Penélope dirigiu-lhe as seguintes palavras:

– Ah, Odisseu, por quanto tempo ansiei pelo dia de teu feliz regresso! E, no entanto… Por favor, nada digas e não te deixes tomar pela ira devido à minha resistência, pois sou rainha, grega e mulher. Cabe-me um papel e, pelos deuses!, dele sou cumpridora. Durante vinte anos aqui estive, guardiã de teus bens, entre os quais me incluis. Artifícios tive de urdir para preservar a honra a qual não era apenas minha. Posto que sou fêmea e nada valho sem meu senhor, foi alimentando a certeza de tua vitória e a iminência de teu retorno que mantive longe os parasitas. Regalavam-se de tuas posses, mas não de mim.

Vejo nos teus olhos, nos teus modos, recriminações e como me pões à prova. Não acreditavas, tampouco, em minha honestidade. Contudo, ainda que não fosse por outro motivo, ser-te-ia fiel, pois, como já disse, mulher grega sou. Fosse eu Ártemis, livre seria: casta e intocada, valente senhora de meus caminhos. Como mortal e fêmea, somente me cabe a resignação e a honradez de seguir o destino para mim traçado: ser-te agradável e dar-te descendência.

Não obstante, sim, há amor no meu peito por ti. Percebo, em teu corpo, no espírito que teus olhos espelham, as muitas aventuras que viveste, ao lado dos vários perigos. Não, ninguém mo contou! Posso, porém, adivinhá-lo, uma vez que bem te conheço e sei: tal herói não passaria vinte anos mornos, vazios e solitários. Hoje, à casa regressas. Mesmo com toda a glória e prazeres, o meu leito escolhes. Serei tua como antes, como sempre, até o fim de meus dias. Ouvir-te-ei narrar tuas façanhas, cantarei teus gloriosos feitos, exibirei em meu rosto o orgulho de pertencer-te. Todos o confirmarão e se gloriarão contigo. Eu, contudo, conhecerei a completude da realidade, o que se oculta nas minhas entranhas de mulher e grega, cujo destino já nasce traçado. E tu saberás que eu sei e viverás com tal verdade a adornar as tuas conquistas.

Compartilhe!

Deixe um comentário