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Publicado em 07/01/202207/01/2022 Por Cristina Vergnano

Por: Cristina Vergnano

Para Osvaldo, em busca de sua veia poética.

Enquanto eu seguia pela estrada, rememorava os múltiplos trajetos percorridos. Muita dor, muito conflito, muito sofrimento me atravancaram a jornada. Nunca havia, contudo, estado só. Minha musa me acompanhou, animando-me, mostrando as flores e frutos que eu podia cultivar adubados pelas penas. Afinal, refleti, esterco fede mesmo, mas alimenta a vida.

Quando acordei naquela manhã, percebi que me faltava algo. Eu estava tão feliz, realizado, tranquilo, em paz… Todavia, tinha um oco onde antes estivera a musa.  Via as flores e saboreava os frutos. Nenhum deles, no entanto, brotava de mim. Avaliei a situação e percebi que já não possuía esterco. A vida, na verdade, nunca havia exalado perfumes tão doces. Concluí que essa ausência não chegava a me entristecer, embora me impedisse de gerar versos. Ainda assim, queria ver brotar de novo a lira, desejava encontrar a deusa da minha inspiração. Por isso, continuei caminhando obstinado. Em algum lugar, ela estaria e me faria sentir, de novo, o ímpeto, a dor ardida que sangra métricas e rimas.

Um pouco além, o sendeiro bifurcava. Parei indeciso. Qual direção tomar? Peguei a pétala de uma flor da beira do caminho e a atirei para o alto. O vento a empurrou para a esquerda. Uhm… sinistra! Com certeza, o destino me levaria à tensão da qual necessitava.

Segui o rumo escolhido pelo acaso, passos firmes, determinado a alcançar o que buscava. A passagem foi-se estreitando até fazer-se apenas picada, ladeada por abundante arvoredo. Avancei com cautela, porém, sem dificuldades. No final, um lago brilhante.

Desenho de Cristina Vergnano, feito em tablete digital. Lago cor verde-água, limitado ao fundo por montanhas esverdeadas em terceiro plano, com árvores esparsas, e cinzentas em quarto. À frente do lago, no primeiro plano, árvores estilizadas. Céu azul acima das montanhas.

Aproximei-me e clamei pela musa. Minha voz ecoou solitária na encosta de granito que limitava a margem oposta. A água estava tão convidativa que me abaixei para olhá-la de perto e, talvez, beber um pouco. Naquele momento, ouvi um sussurro misturado ao som das folhas movidas pela brisa.

— Você achou o que buscava. Nunca se afastou de si. Agarre-se e trilhe as rotas que quiser trilhar.

Olhei perplexo. Ninguém ao meu redor: nem nas árvores, nem na rocha. No lago, apenas aquele eu, mergulhado nas águas da memória.





Nota da autora: O Grupo Traçando reúne escritores amadores e/ou iniciantes em encontros mensais mediados por videoconferência. Foi criado por mim em julho de 2021. Realizamos 6 encontros no ano passado, o último dos quais, além de uma atividade de criação, incluiu nosso primeiro amigo-oculto literário (ou amigo-secreto, se preferirem). Somos, até o momento, 22 membros de diferentes idades e pontos do país, embora a maioria se concentre na cidade do Rio de Janeiro.

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