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Profundeza azul

Publicado em 04/03/202204/03/2022 Por Cristina Vergnano

Por: Cristina Vergnano

Acordei com um arrepio. A cama estava vazia. Uma brisa marítima entrava pela janela, sacudindo a cortina de chita e trazendo cheiro de sal. Fria. Enrolei-me no cobertor e fui até a porta. Lá, numa luz diluída, a figura dela. De novo sozinha, na beirada do dia por vir.

Isso acontecia há algum tempo. E eu pensava comigo: que caraminholas dariam voltas na sua cabeça? Uma dor profunda e azul, imagino. Podia perceber no seu olhar, apagando a cada novo fim de tarde cansada de espera, e no seu crescente silêncio. Sacudi os ombros e voltei pra dentro, a fim de preparar a tapioca pro café.

Ela entrou. Dei bom dia. Só recebi um breve aceno. Sacudiu a areia dos pés, colocou o chinelo e passou o café ralo. Comemos sem conversar. Depois, enquanto lavava a louça, disse:

— Acabando aqui, vou pegá o cesto, apanhá uns peixes com os pescadores vindos da lida e ir vendê no mercado. E ocê, conserta aquela rede! O Joca vai ter precisão dela quando voltá da pescaria.

Corei.

— Mas, Camila, tem um mês e nem sinal dele. Ocê não acha melhó…

— Já disse procê: calada! Não vem com essas ideias. É comum demorá no mar quando a pesca é boa. Ele foi mais longe. Eu sinto. Qualqué hora dessas…

— Não faz sentido, mana! Ninguém sabe nada dele. Nunca mais viram ele ou o barco.

— Chega de mau agouro. A vida segue e temos muito o que fazê. Nem mais um pio: menos fala e mais trabalho.

Baixei a cabeça e obedeci. Vi, porém, como Camila tremia. Eu tinha certeza de que ela sabia da verdade. Só não podia enfrentar. Perda de amor dói fundo.

Deixei os pratos e canecas em cima da tábua pra acabar de secar e fui pegar a rede, linha e agulha. Eu vi minha mana agarrando o samburá debaixo do braço e murmurando ao cruzar a porta rumo à praia:

— Ele volta. Vai voltar. Tem de voltar!



Um pouco sobre o texto:

Este miniconto nasceu de um exercício de escrita no Grupo Traçando, em nosso encontro de outubro de 2021. Originalmente, foi publicado no espaço restrito do grupo aqui no ToV, para críticas e comentários dos colegas. Neste ano de 2022, revisitei-o e fiz alguns ajustes, resultando no que vocês podem ler na seção de mini/microcontos.

Inspirei-me, para criá-lo, no segundo movimento do Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo (1939) e numa litografia de Fayga Ostrower, de 1985, com o título Ventos de Primavera. No primeiro caso, o arquivo em mp3 foi extraído do vídeo do YouTube disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KzEFQW9CXGc . Já a obra de Fayga está no acervo de gravuras da artista no Instituto Fayga Ostrower.

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