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Jantar ou provação?

Publicado em 11/03/2022 Por Cristina Vergnano

Por: Ale Ramos

Entrei na casa pela porta da sala. Logo de cara, seu pai sentado no sofá me olhou de cima a baixo como se eu não fosse nada, o desdém estampado em seu olhar me paralisou momentaneamente. Para minha surpresa, levantou-se e me cumprimentou com uma saudação calorosa que, estranhamente, fez meus pelos arrepiarem.

Ainda parado no centro da sala, ouvia seu apreço por finalmente me conhecer. Mas, algo no aperto vigoroso do cumprimento e no toque da mão esquerda em meu ombro me sinalizavam o contrário. Entre abrir a boca e sair correndo, optei por ficar calado e balançar a cabeça.

Logo entra uma mulher apressada, secando as mãos no avental, roupas compridas apesar do calor e bochechas avermelhadas. Enquanto me cumprimenta, se desculpa pelo atraso do jantar e pede para que eu me sinta em casa. Enquanto a ouvia não perdi suas olhadas furtivas para o homem de mãos pesadas.

Sento-me no canto do sofá espaçoso, reparando na disposição amigável dos móveis, retratos alegres da minha amada em diferentes momentos, ora com os irmãos, ora com a mãe.

Enquanto o cheiro gostoso da comida atrai minha atenção, entram os irmãos rindo e gesticulando alegremente até nos avistarem no sofá, suas posturas tornam-se mais contidas e me cumprimentam cordialmente. Não acredito que precisavam de tanta cerimônia, mas, ok. Respiro aliviado por ter companhia, quem sabe o interrogatório sobre meu trabalho e aptidões tenha fim.

O irmão mais velho possui cabelos ruivos como Helena, já o do meio compartilha dos lindos olhos verdes que tanto me enlouquecem. Peles claras, opostas à minha, revelam a origem distinta.

Finalmente à mesa, não há como não comparar as poses contidas e falas vazias com a agitação calorosa da minha família. O pai na ponta, os filhos a minha frente, Helena de cabeça baixa e uma mãe muda servindo os pratos como se fosse seu dever.

Por mais cheirosa que a refeição esteja, o peso do ar entala na garganta e me pergunto o quão difícil será fazer essa comida descer. Ao levar o garfo à boca, penso em como minha família deve estar se divertindo nessa mesma refeição e em quão bela e livre Helena ficaria, com esse sorriso contido, em meio à nossa confusão.

Ah, Helena, em breve te salvo dessa prisão.

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Comentários (2)

  1. Giselle Bondim disse:
    11/12/2022 às 19:12

    O conto tem o peso necessário para mostrar o racismo. Constrangimento, o prazo principal do jantar. Nesse tema não dá mesmo para pegar leve. No entanto, o fim é maravilhoso porque mostra uma luz no fim do túnel e mais do que isso, um personagem que conseguiu livrar-se dos próprios grilhões. Por outro lado, esse narrador em primeira pessoa me provoca a pensar se o imaginação preconceito não seria imaginação dele. Há elementos que indicam isso: Helena não tem preconceito, preconceito se aprende nas famílias, o aperto de mão caloroso do pai e a recepção amigável da família. O constrangimento também pode ser facilmente explicado pela falta de intimidade .

    Acesse para responder
    1. Cristina Vergnano disse:
      12/12/2022 às 16:34

      Oi, Giselle. Vejo que você está curtindo os textos colocados no espaço do Traçando pelos e pelas colegas traçantes. A ideia era mesmo esta, dar oportunidade para a troca, as sugestões, as críticas construtivas. Se quiser, avise no zap do grupo que vem fazendo esses comentários para os/as autores/autoras lerem. Obrigada pela participação.Bjs.

      Acesse para responder

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