Férias de leitura Publicado em 02/09/202202/09/2022 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano Em certas férias de verão da minha adolescência, deu-me na cabeça uma fome de livros. Ao final de um mês, havia devorado sessenta obras de tamanhos, temáticas, indicação etária, nacionalidades, gêneros e autores diferentes. Acordava tarde, tomava café e mergulhava na leitura. Parava apenas para atender a necessidades básicas e cotidianas, numa jornada que terminava de madrugada, para recomeçar no fim da manhã seguinte. Durante o dia, meu lugar predileto era a cama da minha mãe, no quarto de janela ampla. Aboletava-me sobre a colcha estendida, cabeça nas almofadas, livro apoiado sobre a barriga, sem nem pedir licença, e lia, lia, lia. Às vezes, contudo, talvez levada pelas próprias narrativas (ou seria pelo mundo exterior?), parava. Da cama, pela grande vidraça, entre o vão da cortina translúcida, podia olhar o universo lá fora. Bem, universo é uma licença hiperbólica, afinal, estávamos num primeiro andar e, deitada, eu só podia mesmo ver o céu. Mentira minha! Via, também, as folhas balançantes da amendoeira e os cachos das acácias mais adiante, as borboletas verde-limão que rodeavam as flores e os passarinhos. Havia, além disso, umas pontas dos prédios do outro lado do largo da pracinha, todos antigos, cor meio bege, meio cinzenta, efeito das fachadas de pó de pedra, com suas janelas de madeira pintada. Muito nem dava, de fato, para enxergar, mas adivinhava com a memória, de tanto olhá-los ao longo dos anos. Eu sabia que tudo estava tranquilo e esvaziado de veraneio, ainda mais nas horas quentes da tarde, porque, naquele tempo, as pessoas dali tinham casas na Região dos Lagos. Também reconhecia que, para além daquele pedaço de céu muito azul, salpicado do verde e do amarelo, e de recortes de prédios, havia ruas pulsantes, pequenas artérias levando a artérias maiores do bairro. Embora, por ser janeiro, o movimento ficasse consideravelmente menor. Nada disso, porém, eu via deitada na cama, olhando para o alto pelo vidro da janela, apesar de sabê-lo e senti-lo. Podia, isso sim, ouvir as cigarras berrando seu canto de acasalamento. (Avistá-las era outra história: seres camuflados de troncos marrons e ásperos, dos quais eu só adivinhava fragmentos.) Aqui e ali, roncava um motor e eu supunha um caminhão, acelerava uma moto, ou algum carro em trânsito, subia o fedor acre do carro do lixo. Boladas do vôlei de rua, risos e choros de crianças na pracinha, o latido de um cão (eram poucos naquela época), o berro cavernoso e longo do homem do “É o sorveeeeeeeeeete” e, no final do dia, o pregão de “Olha a janta!”, cheirando a mistura de pipoca doce e salgada, desenhavam a preguiça das tardes. Sons e cheiros entravam pela mesma janela junto com o céu e a luz, disputando cenários com as histórias que eu lia e nas quais viajava. Mês de passeio pelas páginas de papel, de ar azul e quente, de vida vegetal e animal, de ruídos urbanos e de relances de concreto. Visualizações: 307 Compartilhe! Digicrônicas adolescênciafériasleituraverão
Um pouco de luz em você Publicado em 05/05/202105/05/2021 Por: Cristina Vergnano Hoje, acordei com alguns planos. Quer dizer, pra ser sincera, despertei de forma meio brusca, após um sono cheio de sonhos estranhos, envolvendo máscaras, álcool, viagem ao exterior, parentes, personagens de séries de televisão, enfim, uma grande salada. O despertar foi, assim, trôpego e confuso. Mas os… Compartilhe! Leia mais
Estado de graça Publicado em 07/08/202607/08/2026 Por: Cristina Vergnano Tinha decidido não escrever nada pelo 3 de agosto, por ser um dia especial só para mim, mas não resisti. Afinal, sempre considerei meu aniversário um evento digno de muita comemoração. Uma colega escritora me alertou para o fato de, a cada festejo, eu ganhar um ano… Compartilhe! Leia mais
Fala sério! Publicado em 23/10/2021 Por: Cristina Vergnano O despertador tocou às 9h. Tarde? Preguiçosa, eu? Qualé? Menos! Fui dormir às 4h debruçada em relatórios e planilhas no computador. Maldita pandemia. Maldito trabalho remoto. Maldita empresa, mesmo pagando as minhas contas. Nem saí da cama e já liguei o celular, claro. Droga: 120 alertas! A… Compartilhe! Leia mais