Cultivar a criança interior

Por: Cristina Vergnano

Hoje, 12 de outubro, duas datas enchem os noticiários e circulam pelas mensagens e redes sociais: o dia da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, e o Dia das Crianças. A primeira, responsável pelo feriado, é uma festividade católica. A outra tem cunho mais comercial, embora possua forte apelo familiar e social.

O decreto papal que determinou a festa em devoção à Nossa Senhora Aparecida é de 1930, mas o feriado só foi definido pelo presidente Figueiredo, em 1980, por ocasião da vinda do Papa João Paulo II, primeira visita de um papa ao nosso país. A data sempre foi marcada por peregrinações ao santuário basílica na cidade de Aparecida, no estado de São Paulo. Em 2021, contudo, ganha um sentido todo especial, pois devolve aos fiéis, após o fechamento das igrejas pela pandemia de covid-19, a possibilidade de estar juntos e presencialmente nas celebrações.

O Dia das Crianças, por sua vez, teve sanção presidencial em 1924, motivada pelo impacto de um congresso ocorrido, em 12 de outubro do ano anterior, na cidade do Rio de Janeiro, para discutir questões relacionadas à infância. A data foi criada, mas não ganhou logo popularidade. Somente nos anos 1950, a partir de campanhas de marketing da Estrela e da Johnson & Johnson, é que a proposta foi recuperada e incrementada. Por isso, seu caráter comercial.

No entanto, precisamos admitir que a causa da infância é um tema de vital importância, ainda na atualidade. Apesar dos avanços na legislação mundial e nacional, a sua exploração persiste e preocupa. Trabalho de menores, fome, abandono, maus tratos e violência, pedofilia, falta de acesso à educação, deficiência nos sistemas de saúde, fracas políticas de apoio às mães (e pais) para dar atendimento aos seus filhos, enquanto os responsáveis trabalham, são apenas alguns dos problemas envolvidos na questão. Nem sempre as leis funcionam ou sociedade e governos agem como deveriam. Meninas e meninos precisam ser protegidos e cuidados porque são vulneráveis e, também, o nosso futuro. Sem essa proteção, o que vemos ao contemplá-los maltratados é o peso da idade antecipada, do adulto ferido, preso num corpo de criança.

Para além dos aspectos legal, social, biológico e cotidiano, há algo mais a considerar. Quando temos uma infância saudável, podemos conservar traços desse período de nossa vida conosco: somar ao amadurecimento o frescor da tenra idade, sem que isso signifique infantilização.

Quando crescemos, ganhamos (será?) liberdade de escolha. Sobram, porém, responsabilidades. O tempo encurta. As preocupações aumentam. No entanto, embora quase nos esqueçamos, algo sempre permanece em nosso interior, um pedaço de alma infantil. Precisamos cuidado para conservá-lo e, assim, proteger todas as crianças, dentro e fora de nós. Como?

Sendo capazes de nos maravilharmos diante do simples. Rindo até ficar sem ar, mesmo que ninguém ache engraçado, e não ligar para isso. Vivendo o momento, mas conservando ansiedade e esperança pelo que está por vir. Deixando sair a dor lá do fundo, quando chorarmos e sofrermos. Depois, passado o luto, recuperando a alegria, como se nada tivesse acontecido. Não tendo papas na língua, porém, com muita sinceridade, sem o desejo de ferir. Conservando a ingenuidade, mesmo sabendo das coisas e enxergando além do que nos imaginam capazes. Chamando o outro de amigo e falando sério, do fundo do coração.

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