Madrugada insone Publicado em 22/03/2024 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano — PAAAAI! Que horas são? Ah, uma e meia da manhã. Cedo, ainda. Eu poderia voltar a dormir, tentar dormir. E essa claridade? Difícil relaxar assim. Inferno de persiana velha e vagabunda! Também, quem mandou alugar a droga deste apartamento no Raval, numa ruela por trás das Ramblas? Com tantos turistas em Barcelona para as Olimpíadas, há sempre luz, sempre ruído. Outra noite em claro. É o maldito pesadelo, uma e outra e outra vez. Nunca disse ao pai que ouvi aquela conversa. Faz tantos anos e, todavia, parece que foi ontem. *** — Ah, doutor, era tão encantadora e cheia de vida a minha Mercedes… — Dom Esteban, é o que lhe digo: a situação só vai piorar. — Ela fica muda o dia inteiro, doutor, mas, à noite, parece que o demônio toma conta. Desata a dizer coisas que tenho até medo de repetir. Já nem ouço mais. — Pois, confirmo o diagnóstico: além do problema físico, sua mulher tem um grave transtorno mental. Como está quase paralisada, não vejo necessidade de contê-la, nem internar. Apenas deixá-la o mais confortável possível e… E observar o garoto. — Meu filho? Como assim? — O mal pode ser hereditário. — Quer dizer que, a qualquer momento, ele pode surtar e ficar violento? — Tudo é possível, meu caro. O futuro dirá. Nesta Espanha franquista (e, cá entre nós, que ninguém nos ouça), estamos muito atrasados. Mas a ciência avança e há o resto da Europa a nos dar alguma esperança. *** Então, era isso. O que um moleque de cinco anos poderia pensar? Óbvio que não entenderia mais da metade. Um pavor generalizado, no entanto, exalava pelos poros e enchia o ar naquela pequena casa em estado de luto. Meu monstro, portanto, nunca deixou de sair das sombras do armário. Só que ninguém pode desconfiar. Jamais. Ainda estou são, ao menos, acho que estou. Nunca se sabe, porém, o que aguarda na próxima esquina. Enquanto isso, viver a vida. Não tem remédio. Sem chance de dormir. Talvez o chefe esteja no escritório e possamos adiantar um caso. Afinal, a maioria deles tem a noite por companheira. Visualizações: 68 Compartilhe! Narrativas breves doençafamíliapesadelotrauma
Triângulo gastronômico Publicado em 30/07/202129/07/2021 Por: Cristina Vergnano Eram um casal perfeito. Ambos esguios, brilhantes, eficientes. Completavam-se com maestria: os dentes ávidos dele com a conduta cortante dela. Um dia, porém, serviram macarrão com molho. Apenas ele foi para a mesa e, ali, a conheceu: curvilínea, côncava, receptiva. Tocaram-se, ajustando o espaguete, durante toda a… Compartilhe! Leia mais
Sobre vitrola e montanha russa Publicado em 11/02/2022 Por: Cristina Vergnano Minha prima veio passar a tarde comigo. Seria perfeito, se o dia não tivesse começado com briga. Escondido no quarto, ouvi a voz do pai, uns ruídos e a porta batida com força. Saí quando tudo acabou e vi o rosto triste da mãe, sem o habitual… Compartilhe! Leia mais
Com jeito de medievo Publicado em 26/08/202227/08/2022 Por: Cristina Vergnano Deslocava-se às pressas pelas calçadas encardidas, já atrasado pro médico. Ali, ziguezagueou entre montes de lixo, ora agrupados, ora esparramados sem pudor pelo caminho. Lá, se desviou do fio elétrico frouxo, cheio de pombos prontos pra lançar suas bombas. Ao atravessar a rua, onde corria o trecho… Compartilhe! Leia mais